• Victoria Rohan

Crítica: Ativismo e traição em Judas e o Messias Negro

Traição, luta racial, Panteras Negras. Judas e o Messias Negro traz a dupla Daniel Kaluuya e Lakeith Stanfield — ambos de Corra! (2017) — como Fred Hampton e William O'Neal em um enredo baseado em fatos reais. O filme arrematou seis indicações ao Oscar, sendo elas Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante para os dois atores, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia e Melhor Canção Original por Fight For You. E hoje você pode conferir o que achamos do longa que segue a receita de filmes pretos que a Academia aceita (rs).



Mas sobre o que exatamente é o filme? Ele conta a história do assassinato de Fred Hampton (Daniel Kaluuya), ativista político da década de 1960 e líder dos Panteras Negras. Com forte e crescente influência — ele conseguia convencer pretos, latinos e brancos sulistas a se juntarem —, não demorou até chamar atenção do FBI que tentava, a todo custo, conseguir um informante infiltrado. Foi quando o agente Roy Mitchell (Jesse Plemons) encontrou William O’Neal (Lakeith Stanfield) e lhe ofereceu dinheiro para se infiltrar no partido e conseguir informações, que mais tarde resultariam no assassinato de Fred.



E o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante vai para...

Honestamente, Daniel e Lakeith carregam o filme nas costas. Sei que é o esperado, já que seus personagens são os que dão origem ao título do filme. Mas suas atuações realmente foram impecáveis — e sabemos que a Academia ama um papel inspirado em alguma personalidade histórica. Assim como dizem que Fred Hampton era, Daniel rouba toda a atenção quando aparece em cena com sua forte presença de “palco” e boa oratória — o que o coloca como meu favorito para levar a estatueta para casa. Como disse, Lakeith também se destaca, apesar do olhar de cachorro abandonado não ser muito novidade na carreira do ator (eu amo, não pare rs).


Daniel e Lakeith dão um show de atuação. | Foto: Divulgação

A (falta de) profundidade de Judas Iscariotes

O título do filme traz a ideia de duplo protagonismo, né? É o que eu esperava, pelo menos, e já te aviso que não é bem assim. O roteiro realmente foca na figura de Fred Hampton, apesar de que poderia ter sido mais explorado. Jesus era complexo, tinha falhas e defeitos como todo humano, e Hampton nos é apresentado como um homem perfeito e sensato. Mas é em O’Neal que o filme realmente deixa a desejar. A gente até consegue perceber seus conflitos internos e externos com a traição, mas muitas perguntas ficam em aberto. O que passava em sua cabeça e coração? Quais eram suas motivações? Ele acreditava nos Panteras? Ou era mais um homem ambicioso? Ele tinha família? Qual era sua condição? Nenhuma dessas respostas conseguimos só com o filme. Por essa falta de profundidade nos personagens, acho que as chances de levar a estatueta de Melhor Roteiro Original são pequenas.


Lakeith Stanfield traz o velho olhar de cachorro abandonado. | Foto: Reprodução

Mas quero deixar aqui registrado que eu gostei da história e do enredo, ok? Fiquei entretida como se estivesse em uma sala de cinema (saudades rs) esperando pelo desfecho do filme. E acho importantíssimo um filme como esse, que mostra uma figura histórica importante na luta racial norte-americana, principalmente no contexto atual pós-Black Lives Matter nos Estados Unidos.


Infiltrado na Klan: parte 2?

Preciso dizer que acho curioso o primeiro Oscar pós-Black Lives Matter. Não vou cair no discurso de que a Academia está se reinventando e agora é engajada na luta antirracista, não, porque todos sabemos muito bem como ela funciona. O Oscar é branco e ponto. Mas acho bem curioso o efeito que o BLM teve nessa lista de indicados da 93ª cerimônia. A fórmula dos três filmes com maior protagonismo preto nessa edição é a mesma — e eu diria que segue na mesma onda e pegada de Infiltrado na Klan (2018).


Infiltrado na Klan tem direção de Spike Lee. | Foto: Divulgação

O que eu quero dizer é que Judas e o Messias Negro, Uma Noite em Miami e A Suprema Voz do Blues todos trazem personagens pretos falando sobre as muitas nuances da luta racial. Novamente ressalto que isso é realmente importante, relevante e necessário. Mas pessoas pretas não falam só sobre racismo e a Academia parece só olhar para produções nas quais as pessoas pretas são pessoas pretas. Se isso não tá fazendo sentido para você, vamos pegar o exemplo de Corra! (2017) e Nós (2019). Os dois são de Jordan Peele, sendo que o primeiro fala explicitamente de racismo. Corra! levou a estatueta de Melhor Roteiro, enquanto Nós não levou nenhuma indicação sequer — e eu acho que merecia. Sem falar em Lupita Nyong'o, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz por seu papel em 12 Anos de Escravidão (2013) e foi completamente ignorada por seu papel em Nós, onde o discurso antirracista foi mais metafórico do que explícito.


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Mas Judas e o Messias Negro e Infiltrado na Klan compartilham uma mesma estratégia narrativa, eu diria. Não só pelos fatos reais e pela lógica associação de ter um infiltrado no terreno, mas pelo contexto em que os filmes foram lançados. O filme de Spike Lee veio como uma resistência e crítica à guinada da extrema-direita nos Estados Unidos e no mundo inteiro, de maneira geral. E o recente filme de Shaka King é lançado e ganha notoriedade nesse contexto das manifestações do BLM. Ambos fizeram essa conexão no próprio roteiro, terminando com uma ponte para os dias atuais e lembrando a todos nós que a luta ainda continua.


De maneira geral, eu gostei muito do filme e, honestamente, dos indicados a Melhor Filme que vi até agora, foi o que mais me envolveu na história, apesar de achar que não leva esse prêmio para casa. Não é muito problema contra o filme em si, mas ao histórico da Academia. Se você é sensível que nem eu pode preparar o lencinho para ficar do seu lado junto com a pipoca.