Um olhar sobre o colorismo, a miscigenação e o racismo estrutural no Brasil

A 21º edição do BBB terminou nesta semana e teve audiência e repercussão relevantes. Ao longo dos 100 dias do “big dos bigs”, vimos muito entretenimento, mas também reflexões sobre diferentes questões e debates em torno de pautas sociais, dentre elas, o racismo.


A começar pela seleção dos participantes, foi a primeira vez que houve um equilíbrio na quantidade de pessoas brancas e negras. A edição, mais uma vez, também trouxe à tona a questão do que é ou não racismo. O comentário racista do cantor Rodolffo sobre o cabelo black power do professor João Luiz é um exemplo.


Mas a pauta racial vai muito além da perspectiva do que é ou não é racismo. O programa trouxe, pelo menos, um debate mais específico e que ainda não está tão popularizado na sociedade em geral como o colorismo - o tema do nosso Vamos Polemizar de hoje.


Na segunda semana da temporada, Nego Di e companhia questionaram a negritude de Gilberto - um homem gay, nordestino, doutorando em Economia e preto de pele clara - ao falar que Gil seria “um pouco sujinho” e que "se esfregasse melhor”, a cor saía. Em seguida, ainda chegou a dizer que não sabe quem contou “que ele é preto e ele acreditou”.


Mas o que essa fala problemática nos sugere? Que é importante entender o que é colorismo, o projeto político de embranquecimento da população brasileira e as muitas nuances do racismo estrutural que molda a nossa sociedade.


“É importante salientar que a negritude no Brasil nunca foi aceita, na verdade, ela foi diluída a partir da miscigenação racial. Então, se olharmos apenas pelo resultado das diferentes tonalidades de pele e não atentarmos para o real objetivo que se configurou o incentivo à mistura das raças no período de pós-abolição, facilmente podemos ignorar os mecanismos de opressão racial e social que atuam especificamente no contexto brasileiro”, destaca a psicóloga e pesquisadora de Relações Étnico-Raciais, Juliana Souza.


Um olhar sobre o colorismo, a miscigenação e o racismo estrutural no Brasil
Foto: Reprodução

Mas o que é colorismo?


O termo colorismo é usado para diferenciar as várias tonalidades das peles negras, desde o tom mais claro até o mais escuro. Diz que quanto mais retinta é a pele da pessoa, mais racismo ela sofre. Por outro lado, quanto mais clara, menos racismo. Também é levado em conta os traços da pessoa, sendo os mais grossos relacionados à negritude, assim como o cabelo cacheado e crespo.


Dessa forma, o tom de pele permite maior ou menor inclusão da pessoa negra no dia a dia, no mercado de trabalho e nas posições de poder, de acordo com o grau de proximidade do indivíduo com os traços que são associados à ascendência africana.


Realidade brasileira


Essa é uma realidade dentro da sociedade brasileira que cravou um projeto político no final do século XIX e início do XX para branquear a população. Quanto mais retinta é a pessoa, mais episódios de racismo ela sofre. Porém, a “aceitação” das pessoas negras de pele clara ou pardas vai até a página dois. Não há privilégio, socialmente falando, em ser negro no Brasil.


Pelo contrário, não reconhecê-las como negras ou como pessoas que não sofrem racismo é embarcar na história e fortalecer a ideia de que vivemos em uma democracia racial ou estamos nos aproximando dela.


“Para debater o colorismo no Brasil é importante nomear dois significativos processos históricos chamados violação das mulheres negras e movimento eugênico brasileiro, que resultam na atual miscigenação, negando a falsa democracia racial defendida por negacionistas do Racismo Estrutural no Brasil. Debater sobre tal processo possibilita, além de viabilizar pesquisas demográficas, sociológicas e científicas, proporciona o fortalecimento das ações de valorização das heranças afro-diaspóricas no nosso continente”, ressalta Juliana.


Gilberto Nogueira, do "BBB 21", teve sua negritude questionada por Nego Di
Gilberto Nogueira, do "BBB 21" │ Foto: Reprodução/Globo

IBGE e a autodeclaração


No BBB, a fala de Nego Di, um homem preto, além de reproduzir racismo ao questionar a negritude de Gil, um homem pardo, é problemática porque vai contra o critério oficial estabelecido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, a autodeclaração


“O IBGE pesquisa a cor ou raça da população brasileira com base na autodeclaração. Ou seja, as pessoas são perguntadas sobre sua cor de acordo com as seguintes opções: branca, preta, parda, indígena ou amarela”, explica o IBGE, que declara, em seu site oficial, que 56,2% se identifica como negra (46,8% como pardos e 9,4% como pretos), 42,7% é branca e 1,1% se vê como indígena ou amarela.


Ou seja, somente Gilberto pode se autodeclarar negro ou não. Não cabe a outra pessoa fazê-lo. E uma pergunta que fica: quem quer ser negro no Brasil? O Atlas da Violência de 2019 mostrou que, em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios foram pessoas negras. Entre 2007 e 2017, a taxa de homicídios da população negra cresceu 33,1%, enquanto a de pessoas brancas cresceu 3,3%.


Esses são dados referentes apenas à violência urbana, mas a desigualdade acontece também de diferentes formas, seja na remuneração salarial que muda de acordo com gênero e raça, ou nos números da alfabetização e escolaridade da população brasileira.


"Tornar-se negro no Brasil, já dizia Neusa Santos Sousa, é um processo extremamente complexo que é tecido por inúmeras teias sociais", diz a psicóloga Juliana Souza.

Não há vantagens sociais em se declarar negro ou negra. E para que hoje grande parte da população negra se enxergue como tal, houve muito debate e militância para desconstruir comentários que invisibilizam as heranças afro-brasileiras.


É certo que algumas pessoas brancas podem se autodeclarar negras em um processo de cotas para obter uma vantagem específica, mas isso não pode anular as experiências reais de pessoas negras de pele clara. São dois assuntos diferentes.


Negritudes questionadas


O caso de Gilberto, do BBB 21, ganhou repercussão e foi parar em diferentes sites e redes sociais, mas não foi a primeira vez que o tema veio à tona. Em menor escala, o musical que homenageou Dona Ivone Lara também suscitou o tema do colorismo, pelo menos, no meio artístico em 2018.


Fabiana Cozza, que foi escolhida para o papel, recusou o convite após receber críticas por não ser considerada preta suficiente para interpretar Dona Ivone, mesmo que tenha extensa afinidade com o samba e contato pessoal com a homenageada quando ainda era viva.


"Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar 'branca' aos olhos de tantos irmãos", disse a atriz e cantora na época.


“O questionamento sobre a autoafirmação identitária pode gerar muita angústia e sofrimento entre pessoas que não entenderam seu lugar no processo étnico-racial brasileiro”, reflete a psicóloga Juliana Souza.

Esses dois casos mostram como é importante discutir o colorismo em um país tão miscigenado como o Brasil, um país fruto de violações contra a população africana trazida contra a sua vontade ao Brasil para ser escravizada. Questionar a negritude de pessoas negras de pele clara é ignorar as ancestralidades africanas. É colocar também a pessoa em uma posição de não-lugar que pode ser bem dolorosa.


Fabiana Cozza, que foi escolhida para o papel, recusou o convite após receber críticas por não ser considerada preta suficiente para interpretar Dona Ivone, mesmo que tenha extensa afinidade com o samba e contato pessoal com a homenageada quando ainda era viva.
Fabiana Cozza │ Foto: José de Holanda

Para refletir


É preciso, claro, reconhecer que negros retintos estão sujeitos a racismos mais escancarados. Isso não pode ser negado. Mas não quer dizer que negros de pele clara são privilegiados e possuem as vantagens de pessoas brancas. A falsa democracia racial estabelece exatamente isso: opor pretos e pardos a fim de manter os privilégios da branquitude.


Em vídeo, a filósofa Sueli Carneiro ressalta que os números da desigualdade aproximam muito mais os pardos de pessoas pretas que de pessoas brancas, as que ocupam historicamente cargos de poder política, econômica e socialmente. E que o debate em torno do colorismo não pode dividir negros de pele clara e negros de pele escura.


Quando você ouvir ou pensar que “alguém nem é tão negro assim”, questione a pessoa ou reflita sobre qual é o problema de ser, se enxergar e se identificar como uma pessoa negra. Nenhum!


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