Crítica: denúncia, música e combate ao racismo em Dentro da Minha Pele

São Paulo cinza, trilha sonora densa e desigualdades espaciais ambientam o espectador nos primeiros segundos do documentário "Dentro da Minha Pele". Dirigido por Toni Venturi e co-dirigido pela socióloga Val Gomes, o trabalho denuncia o racismo estrutural a partir de depoimentos de pessoas que já vivenciaram experiências racistas. Também são ouvidos estudiosos e intelectuais sobre o tema, além de ter inserções artísticas de pessoas pretas.


O projeto, que foi disponibilizado na última semana no GloboPlay, escancara e desnuda o racismo estrutural no Brasil, em especial, para quem está começando a estudar e a refletir sobre o tema. É denso e leve, uma característica de Venturi, diretor branco que faz autocríticas ao longo dos quase 90 minutos de filme. Ainda conta com recursos metalinguísticos, grafismos plásticos e materiais jornalísticos de arquivo.



Múltiplas vivências: racismos velados e não velados


O que une todo o documentário é o denominador comum do racismo estrutural vivido por nove pessoas que residem na maior cidade da América Latina, São Paulo. São personagens da vida real que, através das lentes das câmeras, compartilham seus cotidianos e o racismos diário.


Com imagens do dia a dia dos entrevistados e os áudios das entrevistas em off, o espectador consegue se inserir dentro da tela para vivenciar o que eles passam na pele. Claro que quem é preto já se identifica nas primeiras falas, ou melhor, nos primeiros silêncios. Afinal, no Brasil a população preta é a mais atingida pela violência, desemprego e falta de representatividade.


Chama a atenção a busca por diversidade de perfis. As entrevistas apresentam desde um homem preto gay, o médico nordestino Estefânio Neto, que sofre um processo de branqueamento ao ascender socialmente por meio dos estudos, até a modelo-performer Rosa Rosa, que busca transformar a realidade de sua família por meio da sua arte.


O colorismo também entre em pauta, ainda que sem usar o nome do conceito. O casal formado pela professora de escola pública Daniela dos Santos, que tem pele mais clara, e pelo garçom Cleber dos Santos, que é retinto, dialoga sobre a antiga ideia de embranquecer as famílias pretas. Eles estão à espera do primeiro filho e sonham com um futuro mais igualitário para o menino.



O que estrutura o racismo estrutural no Brasil?


O documentário seleciona de maneira coerente e inteligente intelectuais pretos que devem ser ouvidos por toda a sociedade para se compreender o racismo no Brasil: a filósofa Sueli Carneiro, o dramaturgo e pesquisador José Fernando de Azevedo, a escritora Cidinha da Silva, a psicóloga Cida Bento, a arquiteta Joice Berth e o historiador e músico Salloma Salomão.


São eles que fazem uma análise política, social e histórica da sociedade brasileira desde a escravidão, a tardia abolição até o conceito de reparação histórica, o debate das cotas e o triste - e ainda atual - genocídio dos jovens pretos.


Sueli Carneiro ressalta a resistência dos povos pretos que fez com que a política estatal de colocar homens brancos no poder não se concretizasse 100%. É essa relação da branquitude, poder e privilégios que José Fernando de Azevedo instiga em suas falas.


Já Cidinha da Silva sintetiza a estrutura do racismo no Brasil em três pilares: o mito da democracia racial, a ideologia do branqueamento e a naturalização das práticas discriminatórias por meio de piadas e brincadeiras, sendo a última uma característica peculiar do nosso país.


"Essa estrutura se atualiza a medida de que as pessoas negras saem dos lugares de subalternidade aos quais elas foram destinadas pelo racismo” - Cidinha da Slva

Cida Bento traz a violência como “a parteira da história" ao falar do estupro, da miscigenação e do embranquecimento populacional como política pública. E essa violência permanece até hoje. Para exemplificar, um dos depoimentos do filme é da corretora de imóveis Marcia Gazza.


Em uma família de brancos, quem morreu espancado pela polícia foi o jovem preto adotado. Marcia havia acolhido o pequeno Renatinho com apenas dias de vida, sem saber que a violência policial o assassinaria aos 21 anos de idade. Segundo reportagem do Correio Braziliense, pessoas pretas têm 147% mais chances de serem mortas que pessoas brancas na periferia.


"Ninguém sabe quem é negro, quem é branco no Brasil. Somos tão miscigenados. (...) Se você não sabe quem é negro e quem é branco, pergunta para a polícia. Ela sabe” - Cida Bento.

Também são ouvidos três cientistas sociais ao longo do projeto. A psicóloga Lia Schucman, o tenente-coronel da Polícia Militar Adilson Paes e o sociólogo Jessé Souza. Ele, inclusive, afirma que “a grande farsa do Brasil é negar a escravidão porque nós somos filhos da escravidão".

Quanto a reparação histórica, Lia Schucman lembra das pessoas pretas que são as que construíram o país para que brancos ficassem mais ricos. Ela cita as empregadas domésticas, que são majoritariamente mulheres pretas, como um exemplo. E o documentário nos apresenta a vida de Neide de Sousa. Ela relembra feridas profundas de humilhações vividas no passado.



Música e poesia como resistência


A sensibilidade e leveza são trazidas ao filme pela poesia de artistas da música preta brasileira, como Chico César, em uma nova versão de “Respeitem meus cabelos, brancos”, Luedji Luna cantando “Iodo”, e Thaíde com o rap “Algo Vai Mudar”. Além deles, o slam dos jovens Bione e Barth Vieira mostram a necessidade de ser olhar para os jovens periféricos e potencializar seus talentos barrados pela segregação “invisível”.


Talvez o canto mais conhecimento venha de Bia Ferreira e Doralyce. Parceiras na música e na vida, elas interpretam a canção “Cota não é esmola” em um ateliê de arte e pintura. A música lançada em 2018 fortalece o debate da necessidade das cotas como reparação histórico com o povo preto abandonado pelas políticas públicas desde a abolição da escravidão e da implementação da República no final do século XIX.


A música serve, inclusive, para mostrar como é a educação que transforma vidas e é o único caminho de ascensão social de jovens pretos e periféricos, como dos estudantes universitários Wellison Freire e Jennifer Andrade. Ambos moradores da periferia de São Paulo, filhos da escola pública e que conseguem estudar na Fundação Getúlio Vargas, um lugar majoritariamente branco e rico. Eles destacam o fato desse espaço não ser pensado para jovens como eles e como isso é naturalizado.


Mais uma vez, a pluralidade chama atenção. Os diretores não se esquecem da resistência quilombola, nem da arte trans. Anicidi Toledo e o Batuque de Umbigada cantam e dançam a umbigada “Luís Gama”, em homenagem ao Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil.


Já a artista trans Valeria Houston interpreta o samba “Controversa”, com a irreverência que já é sua marca pessoal. Ela antecede o depoimento da funcionária pública e ativista trans Neon Cunha, que apresenta questionamentos desafiadores sobre ser uma mulher preta e transgênero no Brasil.


“O que é ser uma mulher negra e transgênero no Brasil? É uma sentença de morte" - Neon Cunha


Branquitude


Ter um diretor branco comandando um documentário sobre racismo é um ponto a se pensar. Para Neon Cunha, que questiona esse fato, é uma prova de que as pessoas brancas não cedem seus privilégios de estar sempre no centro do poder.


Mas essa crítica não pretende dizer que o trabalho de Venturi é desqualificado por ser um diretor branco. Ele traz uma contribuição positiva ao debate a partir da sua branquitude. Como um homem branco descendente de italianos pode ajudar na luta antirracista? Abrindo mão de seus privilégios. Mas isso é possível?


Venturi, que faz entradas ao longo de todo o documentário, reflete sobre a seus privilégios e fortalece o debate sobre como cedê-los ainda que de maneira superficial. Também delimita a diferença entre direitos, que todas a sociedade tem garantida na Constituição, e os privilégios de uma determinada classe.


Isso fica evidente nas estatísticas. Nos últimos 20 anos, as mortes de jovens negros por arma de fogo cresceram 428% enquanto a de brancos subiu 102%, segundo reportagem da Globo News.



Dentro da Minha Pele


O historiador e músico Salloma Salomão, nos últimos minutos da produção, faz um depoimento muito forte ao ponto do diretor questionar se poderia inserir no documentário ou não. Em seguida, Salomão diz “o seu filme é sobre o que eu penso passado pelo seu filtro”. A fala não será transcrita aqui para manter a potência sonora e visual de ver e ouvi-la, mas é tão boa que deu o nome ao projeto.


“Dentro da Minha Pele” é um documentário que não traz qualquer novidade para quem debate e milita contra o racismo no Brasil, nem para quem sofre violências diariamente, principalmente nas grandes cidades, onde barreiras de vidro existem e se mantêm de pé estruturando e delimitando os espaços de quem reside nas cidade pela cor, pela grana…


"Não existe uma segregação formal, mas existe uma segregação visível quando você transita pelos espaços da cidade" - Joice Berth

Mas é uma produção audiovisual brasileira que vale a pena conferir. E ainda pode servir como um despertador para quem insiste em acreditar, por ignorância, que haja uma democracia racial no Brasil, que é um grande mito como apontou a filósofa Sueli Carneiro. Reflexões disponíveis em grandes plataformas de streaming são sempre bem-vindas.



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