Vamos Polemizar: A altivez negra incomoda dentro e fora do BBB

O racismo estrutural é um assunto que permeia a nossa sociedade, mas que ainda não ganhou o espaço de debate necessário na grande mídia. Quem detém falas de poder insiste em manter o discurso de uma democracia racial, que é falsa. Não existe, de fato, condições iguais de acesso a questões básicas, sendo a população negra a que mais é negligenciada.


Em uma postagem recente no Instagram, a filósofa e escritora Djamilla Ribeiro parafraseou a ativista negra estadunidense Maya Angelou (1928 – 2014) ao questionar: “por que nossa altivez te ofende?”. Quando uma pessoa negra se posiciona, ela é vista como arrogante ou soberba porque o espaço que lhe é dado tradicionalmente é o da pessoa que serve e é submissa. Uma triste herança escravocrata que sintetiza como o racismo estrutura a sociedade.


Com essa pergunta, que faz referência ao poema Still I Rise (Ainda Assim, Eu me Levanto – em tradução livre ao português), o Vamos Polemizar? dá início ao debate sobre como o racismo segue moldando pensamentos e as relações sociais todos os dias. E na imagem a seguir, da ilustradora Tay Cabral, encontramos alguns dados para que tenhamos em conta:



Babu e Thelma no BBB 20


O Big Brother Brasil - BBB é um reality show de entretenimento, de certo modo, cruel ao colocar pessoas confinadas dentro de uma casa. Mas, pode servir como um bom termômetro da sociedade tanto pelas atitudes dos brothers e sisters dentro da casa, quanto pelas opiniões do público sobre o reality, principalmente, nas redes sociais. Ao longo das 19 edições já concluídas, apenas um negro ganhou a competição. Na verdade, uma mulher negra, a acreana Gleice Damasceno. E sua trajetória no reality é semelhante a dois participantes da atual temporada, o ator Babu Santana e a médica anestesiologista Thelma Assis, as duas únicas pessoas que se declaram como negras.


Thelma e Babu no BBB 20. (Foto: Reprodução / TV Globo)

Os dois já foram vítimas de racismo por outros participantes da casa e por pessoas na internet, de maneira mais sutil ou escancarada mesmo. No entanto, em diversos casos, os comentários são tratados como meras opiniões e acabam passando sem maiores reflexões. No reality, o cabelo, o pente e a união dos dois por uma causa que transcende o reality e “foge do pessoal”, como diz Thelma, foram questionados. Isso permite enxergar a dificuldade de se compreender a dimensão do racismo estrutural.


O BBB ainda mostra que o negro sempre será julgado e culpado do racismo que sofre. Se ele reitera os desafios diários como faz o Babu ao compartilhar situações vividas dentro das favelas, é vitimista; agora, se mostra orgulho de suas conquistas como Thelma faz tanto por sua trajetória fora da casa quanto por suas atitudes dentro do reality, é soberba. É como diz o antropólogo brasileiro-congolês Kabenguele Munanga, o racismo é o “crime perfeito” para os seus praticantes, pois passam ilesos e a culpa cai sobre a vítima não-branca.


Racismo é vitimismo?


Nas últimas semanas, vem ganhando força na internet os que dizem que Babu utiliza de sua posição como “homem negro periférico” para tirar vantagens sobre a opinião público e, assim, ganhar o prêmio de R$ 1,5 milhão. No entanto, essas mesmas pessoas se esquecem que essa é a realidade do participante. Assim como todos os outros utilizam o que são e suas trajetórias pessoais para argumentar dentro do reality, Babu também tem o direito.



Capa do primeiro single “Sou Babu”. (Foto: Divulgação)

Inclusive, Babu já sofreu racismo dentro do programa apesar da mineira Ivy Moraes ter dito não acreditar que haja racismo na casa. Mas, ela já confessou sentir medo de Babu ainda que ele não tenha feito nada contra a participante. ““Eu falei que tenho receio de falar com ele na festa”, disse em conversa com a ginecologista Marcela, que acrescentou “Ninguém fala com ele, a gente fica com medo”. Foi preciso que Thelma interviesse e questionasse sua indignação contra os comentários das amigas.


Esse pensamento não é restrito a participante Ivy. Quantas vezes você teve medo de um homem negro na rua? Isso evidencia os resquícios da escravidão que insistem em continuar na desigual sociedade brasileira. Mesmo sendo um ator elogiado e premiado, por exemplo, ao interpretar o cantor Tim Maia nas telonas do cinema, ele praticamente só é chamado para papéis de homens agressivos, capangas e personagens longe de qualquer desenvolvimento intelectual. Um ator negro não pode desempenhar um personagem mais complexo?


Por que o orgulho negro é soberba?


No início do programa, Thelma era considerada uma “planta”. Era considerada a mulher negra que ficava escondida nas sombras das amigas brancas. Porém, ela conviveria com quem se os demais participantes do reality são brancos? É uma questão que foge do controle da Thelma, sendo que ela já está acostumada, pois foi a única mulher negra a se formar na sua turma. Está habituada a ocupar lugares hegemônicos e não ver outros negros no mesmo espaço.



Ilustração de Thelma Assis. (Créditos: @flaviamdsg)


Após algumas semanas, conquistou fãs e mais espaço dentro do jogo, chegando a ganhar uma prova de resistência após 26 horas de competição. Ao comemorar e se orgulhar da conquista, foi considerada soberba e que teria “humilhado todo mundo” como disse o ex-diretor de TV Rodrigo Branco em uma live com a DJ Ju de Paulla, que ficou assombrada com os comentários por sinal. Ele ainda chamou a participante do BBB de “negra coitada”.


Não existiam declarações melhores para escancarar mais a visão racista de Branco e de quem pensa como ele. O racismo estrutural impõe um lugar de submissão à mulher negra, que é recordado até por outras negras que reproduzem esse racismo. A vice presidenta da Mangueira, Guanayara Firmino usou as redes sociais para chamá-la de “mucama” por ter votado em Babu.


Acontece que Thelma precisava fazer uma escolha e preferiu por proteger a influencer Rafa Kalimann, quem esteve ao seu lado desde o início do reality. Não podemos esquecer que Thelma também é alvo do machismo e optou por essa bandeira na votação desse paredão.


Privilégios negros?


Em um dos comentários feitos por Branco na live racista, o ex-diretor de TV ainda atingiu a jornalista Maria Julia Coutinho. Para ele, Maju “é péssima, é horrível. Só está lá [no Jornal Hoje] por causa da cor”. As falas dele evidenciam, mais uma vez, como se duvida da capacidade intelectual de uma mulher negra.


Branco deve ter se esquecido que são as mulheres negras que estão na base da pirâmide das desigualdades. Segundo o IBGE, a mulher negra recebe 70% menos que as mulheres brancas. Em uma visão geral, os homens brancos estão no topo dos melhores salários e do acesso aos direitos humanos como aponta o gráfico feito pela Globo News.



Maju é hoje um dos principais nomes do telejornalismo brasileiro devido a sua competência. O que lamentamos, é que o destaque de uma mulher não-branca ainda seja exceção. Quantas negras você já viu na apresentação de um telejornal de alcance nacional? Zileide Silva, Joyce Ribeiro, Luciana Barreto são exceções ao tom branco da TV brasileira, assim como, Glória Maria, nossa homenageada no Mana do Mês de abril.


Precisamos reverter esse cenário com um amplo debate sobre a existência do racismo estrutural em nossas vidas. Para que haja uma sociedade mais democrática racialmente, é necessário ir além e subverter o cenário, pois “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista” como diz a conhecida frase da ativista Angela Davis.


Arte digital de Maju Coutinho. (Créditos: @netonauta)

Leia o poema “Still I Rise”, de Maya Angelou, traduzido para o português


Você pode me inscrever na história

Com as mentiras amargas que contar

Você pode me arrastar no pó,

Ainda assim, como pó, vou me levantar


Minha elegância o perturba?

Por que você afunda no pesar?

Porque eu caminho como se eu tivesse

Petróleo jorrando na sala de estar


Assim como a lua ou o sol

Com a certeza das ondas no mar

Como se ergue a esperança

Ainda assim, vou me levantar


Você queria me ver abatida?

Cabeça baixa, olhar caído,

Ombros curvados como lágrimas,

Com a alma a gritar enfraquecida?


Minha altivez o ofende?

Não leve isso tão a mal

Só porque eu rio como se tivesse

Minas de ouro no quintal

Você pode me fuzilar com palavras

E me retalhar com seu olhar

Pode me matar com seu ódio

Ainda assim, como ar, vou me levantar


Minha sensualidade o agita

E você, surpreso, se admira

Ao me ver dançar como se tivesse

Diamantes na altura da virilha?

Das choças dessa história escandalosa

Eu me levanto

De um passado que se ancora doloroso

Eu me levanto

Sou um oceano negro, vasto e irrequieto

Indo e vindo contra as marés eu me elevo

Esquecendo noites de terror e medo

Eu me levanto

Numa luz incomumente clara de manhã cedo

Eu me levanto

Trazendo os dons dos meus antepassados

Eu sou o sonho e as esperanças dos escravos

Eu me levanto

Eu me levanto

Eu me levanto


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A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.


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