Irene e Seulgi viram little monsters — isso tem nada a ver com Lady Gaga

Em dezembro, o Red Velvet estava no topo: Psycho tinha acabado de sair, finalizando a trilogia do festival ReVe (iniciada com a épica Zimzalabim) em alto estilo com a música que ouvi praticamente o mês de janeiro inteiro. Até que, no ensaio para a gravação do SBS Gayo Daejun, Wendy caiu do palco (por negligência da emissora, diga-se de passagem) e sofreu fraturas no pulso e na pélvis.


O acidente fez com que as promoções da música acabassem (bem) antes do previsto, e é isso. Até alguns meses atrás, era isso o que sabíamos do Red Velvet — até que a SM lembrou que existe uma coisa chamada sub-unit. (Obs.: Oh!GG continua esquecido no churrasco.) E é aí que entra Red Velvet - IRENE & SEULGI.


Capa do EP. Foto: Divulgação

O que falar da sub-unit?


Tem muita gente reclamando do nome pouco criativo Red Velvet - IRENE & SEULGI. Mas o que você esperava? Red Velvet - IS? Ou pior, algo cheio de iniciais, tipo I.S., o que obriga a gente a falar um “aiés” metido em inglês? Vale lembrar que é exatamente esse o padrão das sub-units da SM: o Super Junior tem o D&E para falar da dupla Donghae e Eunhyuk, e o K.R.Y. (Kyuhyun, Ryeowook e Yesung) deixa bem claro já pelo trocadilho que eles cantam música de sofrência para chorar muito. E do EXO nem se fala, com Santa Catarina (EXO-SC; Sehun e Chanyeol) e quase-CBO-do-Mc-Donald’s (EXO-CBX; Chen, Baekhyun e Xiumin).


Agora que tirei isso do meu coração, vamos falar sobre o que deixou todo ReVeluv revoltado: o atraso inexplicado do MV. Tem fã que culpa a SM por dormir no ponto e ter impedido Irene e Seulgi de baterem o recorde de visualizações do BLACKPINK, mas… É, estão bem iludidos. A bagunça do videoclipe pegou todo mundo de surpresa, mas na verdade a gente já deveria ter suspeitado algo antes.


Poderosas pero no mucho sem MV. Foto: Divulgação

Primeiro, porque não é a primeira vez que a SM atrasa MVs do nada (vide o caso de Mr. Mr., do Girls’ Generation, com a desculpa besta de “perda de dados” em 2014). Segundo, porque o mini-álbum estava inicialmente previsto para estrear dia 15 de junho, quase um mês atrás. Na época, para justificar o adiamento para 6 de julho, a SM alegou que o CD necessitava de produção adicional para atingir um nível mais alto de qualidade musical (ou o que quer que isso signifique).


Mas parece que prestar papel de trouxa funciona: Monster – The 1st Mini Album apareceu no topo de paradas de álbuns físicos (como Hanteo Chart), além de ficar no primeiro lugar do top álbuns do iTunes em 45 países (inclusive no Brasil!).


Vamos aos trabalhos



Os teasers de Monster, tudo gritava concept sexy. Preferi não me iludir em esperar algo realmente sedutor de Irene e Seulgi porque a SM não dá algo abertamente sensual a alguma mulher da empresa praticamente desde I Got Love da Taeyeon — sim, as Red Velvet estavam gatíssimas em Psycho e Bad Boy, por exemplo, mas aquela energia +18 vinha delas mesmas, e não de um cenário todo voltado para mostrá-las de forma sensual.


Claro que o conceito não é ousado à la Girl’s Day, Sistar ou 4Minute, mas eu estou bem satisfeita em ver a estética couro de Bad Boy multiplicada por mil. Antes do lançamento, as meninas já tinham adiantado que fariam bastante uso da química entre elas e, bom, elas entregaram isso mesmo. O MV tem trocentas cenas delas se encarando bem de perto, para você notar a proposta homoerótica caso seja cego e não tenha pegado de primeira (tem algumas pessoas apontando com razão que, sim, a SM está se aproveitando de queerbaiting para lucrar e isso é errado).


O MV é basicamente isso. Foto: Reprodução

O ponto alto do clipe é o momento da coreografia em que as meninas, junto às dançarinas, formam uma espécie de aranha. Quanto à música, muita gente temeu pelo dubstep (eu pessoalmente acho que a febre do gênero no k-pop em 2013 não saturou nem metade do que o tropical house em 2017, mas, enfim...), porém ele só dá as caras após o final do refrão, com algumas distorções de som, e não chega a invadir outras partes da música.


Quanto ao restante do EP, as músicas são bem uniformes e nenhuma se destaca além de Monster — que, no caso, tem a vantagem de ser o single e faixa-título. Diamond é uma espécie de filha de Automatic e Be Natural (me refiro ao cover do RV, claro) com uma vibe R&B gostosinha. Me senti meio idiota por ouvir “diamond in the rock” em vez de “diamond in the rough” no refrão, mas fazer o que com o inglês de k-pop?


Os teasers coloridos não têm muito a ver com a estética do clipe. Foto: Divulgação

A letra de Feel Good segue o clima mais sério e adulto e aborda gostar de ver a outra pessoa sofrer, mas falta um clímax mais poderoso na música para fazer valer a mensagem. Já Jelly é a faixa mais descompromissada do EP, e poderia muito bem ter sido uma B-side do ReVe Festival (2019). Além disso, o som agudo no início do refrão e os metais no ponto mais alto da música pintam um cenário parecido como o de outras canções do repertório do girl group, como Power Up, por exemplo.



Uncover é listada como uma “faixa bônus”. A música já tinha sido divulgada ano passado na turnê La Rouge, e fez parte da apresentação solo de dança de Seulgi. Verdade seja dita, a canção podia muito bem fazer parte da discografia do Taemin (especialmente no último lançamento coreano dele, Want (2019), já que Press It (2016) e Move (2017) têm B-sides beeem mais poderosas e agressivas), e eu não encaro isso como um elogio. Seulgi pode crescer bastante como solista, mas a seleção de Uncover para a setlist de Monster é fraca, porque poderia ser algo muito mais.


Além das faixas acima, ainda há uma exclusiva para a edição física do álbum, chamada Naughty. A previsão é que a música só chegue às plataformas digitais (burguesa cries in Spotify language) como lançamento do segundo single do mini-álbum. Especula-se que Naughty também será promovida nos programas sul-coreanos ao final do cronograma de Monster.


But monster lives forever (ou não...)


O lançamento da sub-unit significa muito mais que um EP. Foto: Divulgação

No final das contas, Monster com certeza vai entrar nas minhas playlists — mas parou por aí mesmo. No geral, ouvir o EP completo é uma boa experiência, mas eu honestamente não me vejo pensando “hum, quero escutar Jelly agora” e procurando a música no Spotify para dar play.


O resumo da ópera é: ou ouço apenas Monster ou ouço o mini-álbum inteiro. As B-sides são meio apagadas para mim, e não teve nenhuma que se destacasse realmente. Na verdade, a impressão que tive é que a SM simplesmente tacou umas faixas rejeitadas de álbuns anteriores do Red Velvet e se dedicou apenas ao single — e olha que, mesmo com toda essa “dedicação”, ainda teve o atraso do MV e o adiamento do EP. Agora fico na espera para ver se Monster faz a SM se tocar que o lado velvet traz retorno, sim, e prepare mais lançamentos maduros para o grupo por completo.



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