Crítica: O conto de fadas estadunidense em “Era uma Vez um Sonho”

Se você não está preparado para uma longa história sobre como a meritocracia estadunidense funciona e como um jovem de uma família pobre pode cursar Direito em Yale, Era uma Vez um Sonho (2020) não é para você. Quando eu comecei a assistir ao filme, tudo o que eu sabia era que a Amy Adams e Glenn Close estavam no elenco. Ah, e também sabia que a interpretação de Glenn tinha sido indicada, simultaneamente, ao Oscar e ao Framboesa de Ouro. Mas, além disso, eu não sabia o que iria encontrar.


Então (embora eu seja uma chorona e tenha derramado muitas lágrimas assistindo o filme), a decepção de ver que a história gira em torno de um personagem homem, branco, hétero buscando uma vida melhor mesmo nascendo em um família problemática me fez chorar com a mão na consciência. Esse foi, literalmente, o meu pensamento o filme todo.


Creio que segurar as lágrimas seja um pouco difícil já que o filme realmente trata de assuntos sensíveis e mostra momentos muito delicados. Mas tudo isso fica apagado pelo discurso de: “hey, olha só como eu consegui sair do nada e me formar em uma das maiores universidades do país apenas me esforçando”. Essa foi uma das maiores reclamações dos grandes sites de crítica ao receber o original Netflix e, por isso, qualquer indicação ao longa em grandes premiações estava descartada. Mas, bem, no final a gente sabe que é exatamente desse conto de fadas estadunidense que a academia gosta, né?


Então, mesmo passando longe das maiores categorias da noite, o filme arrematou duas indicações. A categoria de Melhor Atriz Coadjuvante (com Glenn Close indicada) e em Melhor Cabelo e Maquiagem.



A história de Era Uma Vez um Sonho


Baseado em uma história real, o longa mostra toda a jornada do jovem J.D. Vance (Owen Asztalos e Gabriel Basso). O roteiro surgiu através do livro autobiográfico “Era Uma Vez um Sonho: a história de uma família da classe operária e da crise da sociedade americana”, escrito pelo próprio J.D. De uma família tradicional do Kentucky, o jovem Vance nasceu em Ohio e viveu bons momentos visitando parentes e amigos durante as férias.


As primeiras cenas do filme mostram que, para os Vance, a família representa um laço importante, mas ao longo da história fica evidente que essas mesmas pessoas também podem ser a causa de muitos traumas. Não quero falar que o filme não apresenta bons momentos, cenas fortes ou assuntos relevantes. Ele tem isso, sim.



Entretanto, tudo é mostrado de forma superficial para basear o sofrimento do protagonista e fortalecer a narrativa de superação criada pelo filme. Talvez esse tenha sido um dos grandes erros na adaptação do roteiro (Vanessa Taylor) e na direção do filme (Ron Howard). É tudo tão centrado na vida do J.D. (claro, o livro que baseou a história é uma autobiografia) que sinto que faltou um contraponto, algo que nos fizesse duvidar desse protagonista bonzinho que só queria ter uma família feliz e um futuro.


Nem as cenas de rebeldia adolescente (que duraram 15 minutos) trouxeram esse impacto. A história que o filme conta é de um jovem de família humilde, com uma mãe (interpretada por Amy Adams) viciada em analgésicos e drogas que vive pulando de relacionamento em relacionamento, avós (interpretados por Glenn Close e Bo Hopkins) que moram em casa separadas devido ao histórico de violência doméstica e a pobreza iminente da família.


Ela foi feita para comover, mas acaba sendo tudo tão construído em cima de um discurso meritocrático que qualquer outro ponto acaba perdendo o brilho. Quando você termina de ver o filme só fica aquele sentimento de “mais um filme de superação norte-americano” e nada mais.


O que esperar do filme no Oscar?


Uma das perguntas que fiz quando acabei é: como esse filme foi parar no Oscar? Sério. E, vendo as categorias, acho que entendi um pouco como ele chegou lá. A indicação de Glenn Close gerou um certo alvoroço devido à atriz também estar indicada como Pior Atriz Coadjuvante no Framboesa de Ouro. Na minha opinião, Glenn não merecia nenhuma das indicações.


Mesmo a interpretação dela sendo um dos pontos altos do filme, ele é tão básico que não tem como se destacar. Além de uma personagem ranzinza e sem profundidade, Close esbarrou em uma história que não favorece uma atuação digna de indicação a nenhuma premiação. Por isso, na minha opinião, essa é a forma do Oscar dizer para ela: “calma que sua vez ainda vai chegar”.


Quanto à categoria de Melhor Cabelo e Maquiagem, o filme realmente tem um mérito nesse quesito. Além de se passar em dois momentos (infância e fase adulta do personagem), o processo de caracterização vivido por Amy e Glenn realmente foi muito bem feito, deixando-as bem semelhantes com as pessoas que estavam representando no filme. Mas, mais uma vez, isso não é inédito e algo bem mais esplendoroso foi feito em Darkest Hour (2017), por exemplo.


Para mim, o filme só está no Oscar por estar. As categorias às quais foi indicado já têm favoritos bem definidos e, por esas e outras razões, ele deve sair da premiação como entrou: de mãos vazias.


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