• Victoria Rohan

Siriricando por aí: um ato de resistência?

Quarentena, a gente não pode sair, nem se encontrar com aquele contatinho, tem muito tempo livre em casa sem nada para fazer… Que tal uma siririca? Nada mais justo que se dar prazer nesse momento em que mais precisamos de uma distração e um alívio pro estresse. Ok, falando assim até pareço A desconstruída que nunca se sentiu culpada por se masturbar. E é sobre isso que a Taburóloga vai falar hoje: masturbação feminina.


Tendo prazer, tudo vale. Ilustração: Taarika John

Minha primeira vez

Lembro muito bem quando e como descobri o que era prazer. Estava tomando banho e peguei aquele chuveirinho para brincar. Não entendi muito bem o que aconteceu, mas foi curioso. Repeti algumas muitas vezes. Um pouco mais velha depois li uma fanfic na inocência e, quando chegou a cena de sexo, senti alguma coisa. Voltei a me explorar. Mas desde já vinha junto uma certa culpa e vergonha, sabe? Era escondido, não contava para ninguém, como se fosse um segredo perigoso demais.


Hoje entendo de onde vinha esse sentimento. Como mulheres, não somos ensinadas a explorar ou conhecer nosso corpo. “Tira a mão daí, menina!”. Não sabemos sequer entender os sinais que nosso organismo dá. Por exemplo, cada tipo de secreção vaginal nos dá uma informação de qual período do ciclo estamos e não sabemos interpretar. Ou melhor, sequer buscamos interpretar. Coloca um absorvente diário e põe a calcinha para lavar. Próximo.


Secreção vaginal nem sempre é sinal de que algo está errado. Ilustração: Katrin Friedmann

A história que não aprendemos na escola

Mas isso não é culpa minha, sua ou de nossas mães. Vem de (muito) antes. Como Hana Kalil bem resumiu em seu IGTV, essa falta de exploração do próprio corpo feminino vem desde o surgimento do capitalismo. O sistema adotou uma organização patriarcal da sociedade que definiu papeis de gênero bem explícitos. O homem era o provedor, o líder, e a mulher... Bem, ela recebia as ordens e não tinha direitos.


Só que tinha um detalhe: a mulher é que tinha a capacidade de gestação. Antes do sistema capitalista surgir isso foi um poder para as mulheres, como Silvia Federici explica em “Calibã e a bruxa”. Então, o capitalismo precisou tirar esse poder delas, resumindo-as à função de reprodutora da força de trabalho. E a Igreja se juntou para reforçar essa ideia, condenando o prazer feminino.

Desse modo, a assimetria de poder entre mulheres e homens na sociedade (...) devia ser interpretada como o efeito de um sistema social de produção que não reconhece a produção e a reprodução do trabalho como uma fonte de acumulação do capital e, por outro lado, as mistifica como um recurso natural ou um serviço pessoal, enquanto tira proveito da condição não assalariada do trabalho envolvido. (Trecho de "Calibã e a bruxa")

Caramba, temos um órgão só pra sentir prazer!

Voltando ao que interessa... Caramba, nós, mulheres, temos um órgão só para sentir prazer: o clitóris! E, apesar dele ter sido descoberto há muito tempo, foi só em 1998 que sua anatomia foi de fato estudada e divulgada. Lógico, por uma mulher médica e pesquisadora, a australiana Helen O'Connell. Antes, acreditava-se que o clitóris era apenas um ponto externo. Mas O’Connell percebeu que existe toda uma estrutura por baixo da pele. “Acho que minha principal contribuição é (...) deixar claro que você está errado se pensa que a ponta é todo o órgão”, disse em entrevista ao El País.


Anatomia do clitóris. Ilustração: Meu clitóris, minhas regras

Mulheres de todo o mundo, masturbai-vos!

A siririca é um ato de resistência, sim! Explorar, entender e conhecer o próprio corpo é um ato revolucionário a seu próprio modo. E ainda faz bem para a saúde! O ato de se masturbar e atingir o orgasmo libera endorfina e ocitocina, que causam euforia, ajudam a aliviar dores de cabeça e menstruais, melhoram o sono, reduzem o estresse e estimulam o metabolismo. Ou seja, só coisa boa.


Conhecer o próprio corpo é revolucionário. Ilustração: Jeremy Yingling e Katy McCarthy

Se você ainda não se sente tão confortável, está tudo bem! Mas não precisa deixar de explorar e conhecer seu corpo por isso. Não existe um manual de instruções (até porque cada corpo é um corpo!), o importante é tentar e se descobrir por conta própria. Escolha um ambiente confortável, deixe a iluminação da forma que achar melhor, se toque por cima ou por baixo da calcinha, em volta, teste posições diferentes, imagine seus fetiches favoritos, leia contos eróticos, enfim deixe a sensação te guiar e fluir. Masturbai-vos!


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Já pensou como a vida seria muito mais simples se a gente falasse mais sobre alguns tabus? Esse é um dos objetivos da categoria 'Taburóloga', que conta com textos quinzenais!