Mana do Mês de agosto: Madonna | Parte 1

Uma palavra: Madonna. É preciso dizer mais alguma coisa? O Mana do Mês de agosto homenageia a leonina mais leonina de todas, a Rainha do Pop. A cantora completa 62 anos dia 16, e nada melhor que dar palco para enaltecer a carreira de quem está no estrelato há, nada mais nada menos, que 40 anos.


Madonna chama atenção por ultrapassar o prazo de validade de um gênero tão mutável como o pop, e não para de surpreender o público a cada lançamento seu. Que tal conferirmos a trajetória para ver todas as metamorfoses pelas quais a artista já passou?

"Bitch, I'm Madonna" | Foto: Reprodução

As raízes de Madonna


Madonna Louise Veronica Ciccone nasceu em Bay City, no estado de Michigan, dia 16 de agosto de 1958. Ela é a terceira dos oito filhos do casal Silvio "Tony" Ciccone e Madonna Fortin — aquele, engenheiro filho de imigrantes italianos; esta, ex-dançarina e operadora de raio-x com ascendência franco-canadense. A criação de Madonna foi tradicional e extremamente religiosa, estudando em colégios católicos e, em casa, cercada pelas estátuas de santos colecionadas pela mãe.


Entretanto, quando Madonna tinha cinco anos, sua mãe morreu de câncer de mama. A doença foi descoberta durante a gestação da irmã mais nova, o que a fez adiar o tratamento de quimioterapia até o nascimento da filha Melanie, de forma que o câncer estava em estágio avançado ao final da gravidez. A passagem de sua mãe foi um marco para Madonna: seu pai terminou se casando com uma das donas de casa que contratara para cuidar das crianças, chamada Joan Gustafson.

Olha a cara de desobediente | Foto: Reprodução

Diante da criação interrompida por uma mãe religiosa e “passiva” (segundo a visão de Madonna) e por um pai autoritário, a cantora assumiu uma faceta mais rebelde ao entrar na adolescência, se aproveitando dos privilégios de ser a filha do meio. Madonna passou a usar roupas sensuais, frequentar boates underground e dar as costas à religião. “Eu acho que a principal razão pela qual eu fui capaz de me expressar e não ser intimidada foi porque eu não tive uma mãe. Por exemplo, mães te ensinam a ser educada. E eu com certeza não aprendi nenhuma dessas regras e regulações”, contou em entrevista, deixando claro que não considerava a madrasta Joan uma figura materna.


As críticas e questionamentos de Madonna se traduzem de forma transparente em seus trabalhos: afinal, ela ficou bem conhecida por ousar nos figurinos de suas apresentações, e pelo uso de símbolos religiosos de maneira ácida. Além de sua rebeldia, a personalidade de Madonna também é conhecida por seu perfeccionismo, que a ajudou a passar pela escola com notas excelentes, participando de clubes de líder de torcida e dança, até ganhar uma bolsa para o programa de dança da Universidade de Michigan.

Foto: Reprodução

Mas claro que a veia subversiva de Madonna ia dar as caras de novo, né? Ela largou a universidade depois de dois anos de estudos para investir na sua carreira como dançarina em Nova York em 1978. Madonna passou por uma variedade de empregos para conseguir pagar suas despesas: ela foi garçonete da Dunking Donuts e outros estabelecimentos, e chegou até mesmo a ser modelo de desenhos nus e participar de curtas-metragens. No seu tempo livre, aprendeu dança contemporânea e participou de performances no American Dance Center com várias companhias de dança.


Em 1979, Madonna se tornou dançarina de apoio do grupo de disco Patrick Hernandez Revue, e participou de uma turnê por Paris. Lá, conheceu Dan Gilroy, um musicista que logo namoraria, e descobriu sua paixão por cantar e dançar no palco. De volta a Nova York, Madonna e o namorado fundaram a banda pop-punk Breakfast Club, na qual ela começou como baterista até assumir a posição de vocalista.


Namoro acabado, banda no passado — mas Madonna sendo Madonna não pararia por aí, claro. Ela fundou outros conjuntos (como Madonna & The Sky, The Millionaires e Emmy) e se aventurou no disco, o que lhe trouxe fama em boates gays. Com uma carreira solo na mira, Madonna contratou a agente Camille Barbone, da gravadora Gotham Records, em 1981. Camille a ajudou a produzir músicas e, graças a elas, chamou a atenção do DJ e produtor Mark Kamins.


Nasce “A” Madonna

Madonna no início da carreira | Foto: Reprodução

Mark Kamins foi a ponte para obter o primeiro contrato solo de Madonna com a gravadora Sire Records. A canção Everybody, que tanto agradara Kamins, ficou no topo das paradas musicais em 1982, e Madonna aproveitou o sucesso para convencer a produção do seu primeiro álbum. Madonna (1983) trouxe hinos bem conhecidos hoje em dia, como Borderline, Lucky Star e Holiday, mas não teve fama instantânea. Contudo, o segundo CD Like A Virgin (1985) conquistou exatamente isso: o álbum ficou na primeira colocação da Billboard, ganhou platina com menos de um mês de estreia e teve três faixas nas paradas por semanas.


Madonna variou, então, a sua área de atividade ao estrelar no filme Procura-se Susan Desesperadamente (1985). A sua carreira na segunda metade dos anos 1980 rendeu os clássicos que lembramos até hoje, como Crazy for You, Express Yourself e Like A Prayer, e contou com as polêmicas típicas de Madonna. Por exemplo, o clipe desta última música, em especial, foi extremamente criticado (até mesmo pelo Vaticano!) pelo uso de simbolismo religioso, como a imagem de um santo preto e cruzes em chamas. Contudo, nada disso impediu Madonna de emplacar 17 músicas no top 10 da Billboard naquele período.

Erotica mudou a imagem de Madonna | Foto: Reprodução

A virada dos anos 1990 trouxe uma Madonna mais provocante, que buscava desassociar sua imagem da jovem com crucifixos, meia-calça, laços e munhequeiras. A artista buscou assumir o controle sobre sua sexualização com uma série de lançamentos polêmicos, como o álbum Erotica (1992). No disco conceitual, Madonna assume a identidade de Mistress Dita e faz comentários sobre sexo, amor e mais tabus. Seu alter-ego também aparece no livro Sex (1992), com estreia simultânea ao CD. A obra traz fotografias sensuais e explícitas até, de Madonna em cenários de voyeurismo, BDSM e outros fetiches, acompanhada por famosos como rappers, donos de boates e atores pornô. A primeira edição de Sex vendeu 1,5 milhão de cópias em três dias, e Erotica conquistou platina duplo no final de 1993.


Pouco tempo após a explosão de escândalos provocada pela libertação sexual da cantora, Madonna passou a se apresentar de maneira mais suave e sofisticada. Seu próximo álbum, Bedtime Stories (1994), foi recheado de baladas melancólicas. Com uma atitude mais domada, ela conquistou o papel de protagonista da adaptação cinematográfica do musical Evita, que lhe rendeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em 1997.


Madonna fechou sua década com chave de ouro com o lançamento do CD Ray of Light (1998). Ela ganhou quatro Grammys em 1999 com o álbum, que é até hoje o seu trabalho mais aclamado pela crítica especializada. Aí você pensa que é só isso? Óbvio que não: Madonna abriu o milênio com muito estilo e sucesso com Music (2000). O disco estreou no primeiro lugar da Billboard 200 e foi promovido na Drowned World Tour, que foi a turnê mais rentável de um artista solo em 2001.

A crítica de American Life não agradou | Foto: Reprodução

No entanto, seu álbum seguinte, American Life (2002), não teve igual sucesso. O atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas e ao Pentágono provocou reflexões em Madonna quanto ao chamado “american way of life”, e resultou em um álbum com críticas políticas mais escancaradas. Por outro lado, foi nessa época que Madonna abriu a cerimônia de 2003 do MTV Video Music Awards ao lado de Christina Aguilera, Britney Spears e Missy Elliott, evento esse que todo mundo lembra bem pelos beijos calientes no palco.


Depois do fracasso de vendas (considerando o patamar da cantora, claro) de American Life, Madonna se reinventou com um álbum extremamente comercial: Confessions on a Dance Floor (2006). Boba nem nada, a artista se jogou na música disco e fez uso de samples de hits nostálgicos e bem queridos pelo público, como Gimme! Gimme! Gimme! do ABBA. O resultado foi um sucesso, vencendo o Grammy de Melhor Álbum de Dança/Eletrônica em 2007 e entrando no Guinness World Records do mesmo ano como álbum a ficar no topo de paradas no maior número de países.

Confessions foi um sucesso comercial, como Madonna queria | Foto: Reprodução

Os anos 2000 viu uma Madonna correr atrás de tendências e buscar atrair uma audiência mais jovem a partir de colaborações estratégicas com artistas mais “pop” — como não lembrar do encontro da Rainha do Pop com a Princesa Britney Spears em Me Against The Music (2003)? De lá para cá, ela contou com a participação de nomes relevantes do momento, como Timbaland, Justin Timberlake, Pharrell Williams e Nicki Minaj, com quem colaborou várias vezes. Vale lembrar que o único feat feminino no último álbum de Madonna foi com ninguém menos que Anitta, com o funk Faz Gostoso.


O Madame X (2019) abalou as estruturas com uma fusão de ritmos variados, sob influência da residência de Madonna em Lisboa, Portugal. A recepção crítica foi mista, com alguns elogiando a ousadia da cantora em experimentar gêneros diferentes (e arriscar alguns versinhos em português), enquanto outros questionaram a coerência do conjunto da obra. Mesmo assim, o remix do single I Rise venceu o Grammy de Melhor Gravação Remixada em 2019.

Madame X foi esnobado pelo Grammy | Foto: Reprodução

Considerando que Madame X saiu ano passado, devemos esperar um pouco para termos mais novidades da Rainha do Pop. Mas já é garantido: com certeza Madonna irá nos surpreender.

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"Mana do mês" é a personalidade feminina influente escolhida para ser homenageada pelo Telas. Todo mês uma mulher importante e relevante é selecionada para contarmos sua história e legado