• Victoria Rohan

Entrevista: Clarissa abre as portas do amor íntimo em seu primeiro EP

Clarissa Müller, ou Clapivara como muita gente da internet a conhece, lançou seu primeiro EP com cinco músicas autorais que trazem algumas das inúmeras facetas do amor. A atriz de Ana e Vitória (2018) e Me Sinto Bem Com Você (2021) deu uma entrevista exclusiva para o Telas falando sobre o processo de criação e produção do álbum. E, obviamente, a gente te conta tudo que rolou na entrevista e o que achamos das músicas na crítica de hoje.



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O EP Clarissa é o lançamento oficial da jovem na carreira musical. Quem segue a carioca nas redes sociais já está mais habituado com o sotaque da voz doce e o toque sensível de Clarissa. E quem chegou por agora provavelmente já está apaixonado também. Escolher as músicas que iriam compor o lançamento foi uma tarefa difícil porque, segundo Clarissa, “cinco músicas é pouca coisa para mostrar ao mundo quem você é” para que, ao mesmo tempo, “possa deixar em aberto como você é multifacetada e o que você tem a dizer”.


Referências

Com uma pegada da Nova MPB, essas são as primeiras composições de Clarissa. A jovem, que sempre escreveu textos e poemas, conta que agora está pegando mais o jeito de como musicalizar sentimentos e cita alguns nomes nacionais como inspiração. “Eu gosto muito do tom da Agnes Nunes, de O Terno, da Júlia Mestre, essa galera nova da MPB que tá surgindo. Mas eu tentei fazer uma coisa bem eu, sem frisar muito em referências, sem parecer com algo específico”.


As letras falam das mais várias formas e facetas do amor e, claro, não podemos deixar de notar uma pegada meio Anavitória. E Clarissa assume que Ana Caetano realmente teve uma influência direta e indiretamente no seu processo: “a Ana sempre me incentivou a fazer música, sempre falou que esperava um EP meu. Acho que eu tive muita influência do jeitinho que ela escreve. Acho que ela é específica o suficiente para atingir pessoas e universal o suficiente para atingir um número de pessoas muito grande”.



Por falar em influências, a carreira de atriz também teve seu papel. A criação de eu líricos e histórias é essencial para o processo de composição e atuar possibilitou que Clarissa tivesse “mais liberdade de criar personagens e histórias e também entrar mais a fundo em mim mesma, explorar mais lados meus que são mais sensíveis e fragilizados”. Para ela, “as duas profissões têm uma coisa em comum muito forte que é o poder da palavra. O ator não é nada sem saber dar vida a um texto e um cantor também precisa saber interpretar”. E, obviamente, ela não esconde a vontade de continuar a atuar e a cantar. Por aqui a gente te incentiva, ok?


“Ela” e o primeiro amor entre garotas

Para abrir o EP, Ela é a campeã de streams atualmente. A melodia leve e inocente, a voz doce de Clarissa e a letra igualmente sensível e fragilizada provavelmente vai se tornar um hino LGBTQIA+ para as novas gerações — e Clarissa revela que essa foi uma boa surpresa do álbum. Suas personagens mais marcantes tiveram uma certa influência no processo criativo: Cecília (Ana e Vitória) por ter ajudado a cantora a se entender, enfrentar medos e inseguranças e, por fim, se assumir para a família, enquanto Priscila (Me Sinto Bem Com Você) trouxe um lado mais fragilizado.


Levantar uma bandeira é incrível e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade grande e Clarissa tem isso em mente: “confesso que é uma coisa pesada para carregar (...). Eu já fui essa menina (da música) e também me apaixonei por essa menina. Então é muito forte para mim ouvir tudo isso, ao mesmo tempo que é maravilhoso”. Mas, apesar dos medos e inseguranças, Ela traz uma mensagem positiva no fim das contas.

Foto: Divulgação

“Eu acho que ‘Ela’ traz uma mensagem positiva de ‘cara, vai ficar tudo bem’. Um dia a gente cresce, fica mais independente, consegue abrir nosso peito pro mundo, mostrar quem a gente é. E a gente consegue sim amar sem sentir medo — pelo menos no nosso cercadinho — e eu acho que é sobre isso”.



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“O vento leva, o vento traz”

A segunda música, ainda com muita leveza na melodia, agora traz o amor mais maduro e, ainda, alegre. Diria até que tem uma noção forte do Arcadismo, com as máximas do carpe diem (aproveite o dia) e fugere urbem (vida simples, próxima da natureza). Acredito ser a mais experimental do EP também, com sons mais diferentes e sem perder a identidade da produção como um todo. É boa para ouvir naquele começo de relacionamento leve e apaixonado. “E quando a gente ama a gente fica bobo e que mal isso tem”?


“Bem Me Quer, Mal Me Quer”

A terceira música é também a primeira a ser trabalhada como single — já veio com clipe dirigido por Matheus Sodré. A letra fala de um relacionamento não muito saudável, no qual uma das partes é subestimada, moldada e contida para caber numa relação que não instiga crescimento e amadurecimento. Clarissa conta que já era amiga de Matheus e, debatendo ideias para o clipe, veio a da “dona de casa que performa atividades e um papel que é o que esperam dela, mas não é o que ela quer pra ela mesma”.



“Veio essa coisa ironicazinha. Porque eu também queria alguma coisa leve, não queria que fosse um clipe pesado. É uma música que, dependendo de como você escuta, ela pode ficar melancólica e triste porque tem uma letra pesada. Mas eu queria que ela fosse mais sarcástica e malcriada do que triste e melancólica, sabe”?



“Pro nosso azar”

Já aqui o tom de voz mais doce ganha um pouco mais de seriedade. O amor aqui é aquele inconstante, difícil de largar, mas não necessariamente em um nível não saudável — o que é explicitado pela leveza da melodia. As partes da relação aqui ainda não sabem muito bem o que querem, mas viver longe um do outro não parece ser uma opção. Essa, com certeza, é para mandar para aquele seu casinho de tempos.


“Xodó”

Com a licença para um jogo de palavras sem muita criatividade, essa música é meu xodó (rs). Um forrózinho lento que dá vontade de dançar junto, Xodó encerra o EP com um amor apaixonado abrindo as portas aos poucos para conseguir vivê-lo por inteiro. Nem sempre o amor é complicado e precisa enfrentar medos, às vezes é só para viver e dançar um forró na praça.


Foto: Divulgação

Tá ouvindo pela primeira vez?

De maneira geral, o EP é bem fechado — o que é um ponto positivo. A gente consegue perceber todos os tipos de amor nas músicas — e também se identificar, de certa forma, com todos. É muito gostosinho de ouvir e passa aquela vibe de domingo de manhã com a fresta de sol entrando na sala, o café na mesa e seu crush te fazendo carinho na perna. Se você ainda não ouviu, corre para ouvir — e Clarissa tem um recado para você:


“Queria dizer para quem tá ouvindo minhas músicas pela primeira vez que eu coloquei muito de mim ali, mas acho que tem muito ali de outras pessoas também. Eu espero que as pessoas escutem da forma mais aberta e sem julgamento possível. É muita verdade que eu coloquei ali. Eu me fragilizei muito também e espero que a recepção seja muito positiva. E eu quero sempre que as pessoas troquem ideias comigo, me falem o que acharam, o que interpretaram. Deixar a arte seguir o caminho dela é tudo que eu quero e eu espero que as pessoas sintam o EP dessa forma”.


“Clarissa” está disponível em todas as plataformas digitais.

















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