A nova face da Literatura Erótica ainda é um tabu?

Quando “Cinquenta Tons de Cinza” foi lançado, em 2011, o livro ganhou destaque ao redor do mundo por descrever, com detalhes, as relações sexuais de Anastasia Steele e Christian Grey. A história se tornou uma das mais vendidas do momento e virou uma verdadeira febre mundial por apresentar o sexo e práticas como o BDSM como um artifício para contar o romance do canal.


Entretanto, se engana que a literatura erótica teve seu início com esse lançamento ou que nunca havia chamado a atenção do público, em geral feminino. Cassandra Rios, pseudônimo de Odete Rios, foi uma das autoras mais perseguidas no período da Ditadura Militar. Dos 50 livros escritos no período, 36 foram duramente censurados. O motivo? Cassandra escrevia romances eróticos e, em muitos livros, escreveu sobre relações homossexuais femininas.


Escritora Cassandra Rios | Foto: Reprodução

O erótico também vende, e muito!


Embora proibidos, as histórias da autora faziam grande sucesso na época e Cassandra conquistou, em 1970, o título de primeira autora brasileira a vender 1 milhão de exemplares. Após alguns anos, também se tornou uma das poucas na profissão que vivia apenas dos seus ganhos com a venda dos livros.


Cinquenta anos depois, com a chegada do universo digital e criação dos e-books, o consumo de histórias mais picantes é uma realidade. Segundo dados divulgados pelo jornal britânico Daily Mail em 2012, as vendas de romances eróticos havia crescido 30% em relação ao ano anterior (2011) e esse aumento aconteceu, principalmente, no meio digital.


E vamos de Best Seller? | Foto: Reprodução

Seria esse o famoso “Efeito Cinquenta Tons”?


É inegável que essa franquia teve o seu papel na popularização da literatura erótica mas, mais do que isso, a trilogia da E.L James fez com que muitas mulheres perdessem a vergonha e o “medo” de mostrar que estavam lendo um livro que, explicitamente, falava sobre sexo. Era comum ver pessoas lendo no transporte público, dentro de um restaurante, refeitório e por aí vai.


Capa no Livro "Cinquenta Tons de Cinza" | Foto: Reprodução

Em entrevista à TV Brasil a escritora Nana Pauvolih, que tem mais de 20 romances eróticos publicados, contou um pouco sobre o processo de “amadurecimento” dos leitores, o que permitiu que a leitura de romances eróticos deixasse de ser algo feito escondido e passasse a se tornar algo comum.


“Conforme a gente começa a conquistar um espaço, aparecer na mídia, falar do trabalho, as pessoas começam a achar que é normal você ler (romances eróticos), não tem problema nenhum. Ainda tem pessoas que falam pra mim que só leem os meus livros em e-book [...], mas outros leem (em público)”.


Mas nem tudo é um mar de rosas…


Embora a literatura erótica e tudo o que a envolve tenha esses traços de liberdade e redescobertas marcantes, ela ainda reproduz diversos estereótipos, tanto do fazer sexo em si como da representação da mulher. A comunicóloga Paula Fernandes Drummond, descreveu em sua monografia o processo de produção de um romance erótico como tendo o foco na massa.


Desta forma, além do fato de ela ser considerada uma forma de leitura “menos culta” e/ou voltada para o entretenimento, a forma de escrita transita dentro do que é comum ou do que é esperado pelo público. Repetindo padrões e estereótipos, entregando uma história que pode conter, por exemplo, um aspecto mais conservador, mesmo quando estamos falando sobre sexo.


Tudo o que lemos é uma falácia comercial? | Foto: Reprodução

Isso se dá na forma com que esse material é comercializado. As grandes editoras, normalmente, publicam livros que já fazem sucesso em alguma plataforma online, seja ela Amazon, Wattpad e derivados. Com isso, a necessidade de escrever algo que entretenha para ter visibilidade é algo que pode estar presente na escrita dessas história.


Com isso, as histórias parecem seguir um certo padrão de escrita, como se fosse uma cartilha para o sucesso, algo que vende. Por isso que não é tão difícil encontrar históricos sobre CEO’s multimilionários que se apaixonam perdidamente por sua secretária desajeitada, porém com um corpo totalmente dentro dos padrões de beleza. Esse é, com certeza, um dos grandes vácuos da literatura erótica.


Peraí, você lê livros eróticos?


Ei, não precisa ter vergonha não! | Foto: Reprodução

Eu sempre acreditei que toda forma de leitura é válida. Há algumas semanas essa discussão surgiu no Twitter e fez a timeline ferver com pessoas contra e à favor desse pensamento. Na minha visão, não é certo exigir que a primeira, nem segunda e nem última leitura de uma pessoa seja um grande clássico com mais de 1000 páginas.


A leitura, mais do que uma forma de adquirir conhecimento, é uma forma de se divertir, conhecer novas história, imaginar, ativar a criatividade e fugir do real. E, que eu saiba, tudo isso pode ser encontrado dentro de um romance erótico. Então, pode ler seu livro erótico – digital ou impresso – sem medo de ser feliz.


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Já pensou como a vida seria muito mais simples se a gente falasse mais sobre alguns tabus? Esse é um dos objetivos da categoria ‘Taburóloga’ que conta com textos quinzenais