Feminismo liberal: como lidar com as diferenças em tempos sombrios?

Gostaria de começar com um aviso: a autora desse texto não compactua ou simpatiza com os ideais do feminismo liberal. O que acontece, sinceramente, é que dois anos de governo Bolsonaro foram suficientes para me deixar bem mais flexível em relação a pessoas que eu não necessariamente concordo. Feministas liberais são um exemplo.


Recentemente me deparei com um tweet que fazia piada da Marcela McGowam, ex-participante do BBB20, feminista declarada, branca, loira, que vivia falando sobre liberdade sexual. No conteúdo, havia um vídeo da própria "contestando" algumas noções patriarcais da sociedade. Por exemplo, "mulher não pode xingar, não pode sentar com a perna aberta..." e ela se mostrava fazendo exatamente aquilo que era "proibido". Uma moça respondeu assim, "gente, isso era exatamente eu quando comecei a ser feminista". E pensei: não é que é verdade?

Feminista de carteirinha, Marcela teve comportamentos racistas ao longo do programa | Foto: O Globo

Para muitas mulheres, brancas, de classe média, o feminismo mais sutil, focado em liberdades sexuais, igualdade salarial e desfocado de outras opressões, é muito comum quando somos apresentadas ao movimento. Afinal, é como se depois de longos 15 anos (contém ironia), alguém jogasse um balde de água fria em você e fizesse com que você acordasse para vida. Então, eu posso sim beijar quem eu quiser? Fazer sexo não é errado? Eu posso não querer ter filhos? E mais outras diversas quebras de paradigmas de sua mulher branca média.


A questão é que as pessoas nutrem uma raiva muito grande disso. E, de fato, muitas vezes eu me junto a elas. Mas não é verdade que eu já fui assim também? Já não achei que mulheres deviam se unir e que erámos todas iguais? Preste atenção: não estou dizendo que o feminismo interseccional ou marxista seria um caminho natural para todas, como se fosse um "nível mais avançado". Não, muitas mulheres são, de fato, feministas liberais. O que eu acho é que o libfem pode ser sim uma porta de entrada para drogas mais pesadas - tal qual discussões sobre racismo e luta de classes. Mas, na raiva e na pressa de negar o liberalismo, acabamos perdendo isso. E, sinceramente: a conjuntura política atual dá espaço para esse tipo de discussão?


Mas, afinal, por que "liberal"?


Muitos estudiosos tratam como "feminismo liberal" toda a primeira onda do movimento, lá no século XIX, quando mulheres burguesas e brancas lutavam pelo seu direito ao voto. E foi realmente uma luta. Muitas foram expulsas de casa, perderam direito ao dinheiro da família, perderam a guarda dos filhos e até foram assassinadas. Esse contexto coincide com o fortalecimento ainda maior do pensamento liberal na Europa - assim, os homens lutavam por causas como direito à propriedade, participação mais discreta do governo e Estado em suas questões etc. Por isso, muitas pessoas consideram que esse seria o "feminismo liberal raiz", apesar de, na época, já existirem grupos que discutiam vertentes marxistas do movimento.


Trazendo vários anos para frente, como o libfem é entendido hoje, de maneira bem superficial? É uma vertente, claro, focada na liberdade feminina. Portanto, somos livres para fazer o que quisermos, nos comportarmos da maneira que quisermos e falarmos o que der na telha. Acaba que esse grupo, assim como as mulheres sufragistas há séculos, falam apenas com as suas. Atenção: não estou desmerecendo a luta pelo voto. Como disse, muitas morreram e graças a esse sacrifício, hoje eu posso exercer meu direito de votar pelo meu representante, sem nem pensar duas vezes. Mas o problema é quando falamos: "o voto feminino, o voto das mulheres", sendo que, na verdade, estamos falando das mulheres brancas. Na época, muitas pretas ainda eram escravizadas e só foram ter direito a voto tempos depois.

"Vote for women"? Mulheres se reúnem em Nova York, já no século XX | Foto: Getty Imagens

É por isso que, hoje, quando alguma pessoa defende a liberdade sexual da mulher, é preciso pensar: e a mulher negra que há anos e anos é hipersexualizada? Na ficção, são retratadas como mais "fogosas", na época da escravidão, eram as amantes ou (na maioria das vezes) estupradas. Hoje, ainda, são as maiores vítimas de estupros - porque, afinal, o corpo negro feminino está ali à disposição. Então, o que muitas feministas questionam é: como militar tão ardentemente pelo direito de usar roupa curta e ganhar o mesmo do que homens brancos, quando tem tanta violência, sexualização e desrespeito com outras? O feminismo liberal trata como "questões das mulheres" o que é da mulher branca. Sem um viés de classe e raça - o que é extremamente nocivo ao movimento.


Dito tudo isso, abrindo meu coração com fatos e pensamentos que muitos provavelmente já estão carecas de saber, chegou o momento de perguntar: então por que dar uma chance à feminista liberal mais próxima de você?


Mansplanning, mansterrupting, manspreading...


Um deboche certo, que é bem recorrente, é a necessidade de inserir termos em inglês ou neologismos para descrever opressões do dia a dia. Mansplanning para falar sobre o ato de um homem explicar coisas básicas para mulher, como se ela já não soubesse; mansterrupting para se referir à constante interrupção de macho e por aí vai... A questão é que muitos argumentam que o resultado é uma elitização do movimento, afastando pontos essenciais de muitas outras mulheres.


Um clássico dessa piada se deu com a participação de Kéfera no programa da Fátima Bernardes, no qual ela tacou termos mirabolantes em cima de um cara na plateia:

Porém, há de se pensar. Esses termos não falam, de alguma forma, sobre micro violências muito reais nos nossos dias? Pode ser de uma maneira superficial e realmente pouco acessível, mas continua sendo uma maneira de circular o debate, fazer com que cada vez mais mulheres percebam e se familiarizem com as opressões mais sutis. Querendo ou não, ter essa discussão em um programa de tamanha popularidade não poderia ser encarado com um pouco mais de positividade?


É claro que acho todas as críticas extremamente válidas, mas, mais uma vez, precisamos pensar no momento político atual. Dessa jeito, vamos ficar tão críticos sobre nossa bolha, batendo cabeça sobre pronúncias e termos oficiais, que, em um paradoxo, nos tornamos mais presos entre nós mesmos, enquanto outras coisas mais sérias e graves vão acontecendo no Brasil e no mundo.


Famosas aprendendo (ou não)


Ao mesmo tempo em que muitas feministas preferiram colocar a questão de gênero acima de todas as outras e seguiram em frente, algumas perceberam que isso poderia ser um problema. Um exemplo negativo: a ex-BBB Marcela, já citada, foi super criticada por ter feito alguns comentários e tido comportamentos racistas com os outros participantes, Thelma e Babu. Fora de casa, não houve exatamente um pedido de desculpas - a médica simplesmente afirmou que não entrou no programa para representar nenhum movimento, por isso, estaria fadada a cometer erros, como qualquer ser humano.


Mas também há redenção no feminismo liberal. Em 2015, quando a cantora Taylor Swift estava começando a se aprofundar em questões de gênero e na disparidade de tratamento entre homens e mulheres, houve a divulgação dos indicados do VMA, um dos maiores prêmios da música americana. A lista, só de mulheres brancas, chamou atenção da rapper Nicki Minaj, que tinha lançado um clipe de grande sucesso, da música "Anaconda". Claro, a artista foi no Twitter se pronunciar pela falta de mulheres pretas, como a própria e Beyoncé. A partir disso, Taylor, que estava marcando presença em várias indicações, se pronunciou sobre o caso - mesmo sem ninguém tendo de fato a mencionado.


Swift disse basicamente que era estranho Nicki jogar mulheres umas contra às outras e que não merecia ser julgada, afinal, também merecia a indicação. O famoso: não tinha nenhum amigo para avisar? Choveram críticas para a compositora, apontando que a rapper não estava falando mal do trabalho de Taylor, apenas estava mostrando sua indignação com o racismo da premiação. Passado um tempo, Swift pediu desculpas e disse que tinha muito a aprender.


Desde então, Taylor não cometeu nenhuma gafe tão grave como essa e, inclusive, chamou mais atores pretos para clipes (apesar de estar muito longe do ideal) e ainda, em seu vídeo "The Man", a artista fez questão de colocar um homem branco padrão infernizando a vida de mulheres - e homens negros. É genuíno ou apenas uma obrigação a ticar para ser aceita pelo mercado? Nunca saberemos, mas é inegável que há evolução - graças a um diálogo mais aberto e vontade de mudar de ambas as partes.

Taylor com Nicki em 2015: um show... de feminismo branco | Foto: Getty Imagens

Por isso, vem a grande pergunta desse texto: será mesmo que devemos, hoje, gastar energia com aqueles que, apesar de possuírem grandes discordâncias, ainda estão mais próximos de nós do que aqueles no poder? É claro que digo isso como feminista branca, portanto, é infinitamente mais fácil relevar comportamentos do tipo, já que não me atingem. E claro que não estou afirmando que os pretos devem dar as mãos aos brancos que não entendem, e nem se disponibilizam a entender, sua luta.


O que estou falando é que, para além das brigas com o feminismo liberal, muitas vezes, grupos mais progressistas acabam se pegando em questões técnicas, em detalhes relativamente menores do que tudo que vem acontecendo. Como, por exemplo, cada vez mais pessoas pretas são assassinadas à luz do dia em supermercados e ruas, taxas de feminicídio dispararam na quarentena, comunidades indígenas perdem suas terras e, mais uma vez, o Brasil bateu recorde de assassinato de mulheres transexuais pela 10ª vez consecutiva.


Apesar de serem discussões importantes (bem importantes mesmo) vocês acham que é a hora de debater intensamente o uso de pronomes corretos, cobrar posicionamento de famosos por pequenos acontecimentos ou, ainda, ficar batendo de frente com as feministas liberais, fazendo piada da forma que a vertente adora tacar um inglês no meio das frases?


Não tenho resposta para nada, sinceramente. Só tenho a sensação que estamos caindo em um buraco (alguns, de fato, mais rápido do que outros) e estamos tão preocupados em defender nosso ponto, que a pessoa que empurrou a gente continua lá na superfície, plena e salva. E, de verdade, será que essa é a melhor decisão?


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