Crítica: 2ª temporada de “Eu Nunca” vai além e insere novos debates (e personagens) na roda

Por aqui, somos fãs de “Eu Nunca”, série original da Netflix. A primeira temporada que rendeu crítica aqui no blog no último ano, é incrível, engraçada, inteligente e sensível. E a continuação da história consegue ser ainda melhor. Agora, Devi (Maitreyi Ramakrishnan) não é mais uma menina excluída, que deseja mais do que tudo perder a virgindade. Devi fortaleceu seus laços de amizade e não tem só um namorado, mas dois garotos interessadíssimos nela.


Esse, inclusive, é o plot inicial da segunda temporada. Com quem Devi vai ficar: o estudioso Ben (Jaren Lewison) ou o popular Paxton (Darren Barnet)? Por sorte, esse enigma não rende durante toda a série e a ideia de Devi de enrolar os dois, para aproveitar o melhor dos mundos, logo vai por água abaixo. E que bom! Porque aí temos espaço para desenvolver os enredos próprios dos personagens e conseguimos reviver algumas questões pendentes da primeira temporada.

Paxton e Fabiola tem evoluções incríveis | Foto: Divulgação / Netflix

A evolução de Paxton e Fabiola são destaques

De longe, Paxton e Fabiola (Lee Rodriguez) tem as evoluções mais importantes do núcleo adolescente - isso porque Kamala (Richa Moorjani) e Nalini (Poorna Jagannathan), prima e mãe de Devi, passam por desafios em sua vida profissional e pessoal muito interessantes também.


No caso de Paxton, a mudança vem tanto no nível intelectual quanto emocional. Depois de um pequeno acidente (spoiler rs), o menino se vê refém das notas para entrar na faculdade - já que o plano era conseguir uma vaga sendo nadador do time da universidade. Assim, surpreendendo muitas pessoas, inclusive sua própria família, Paxton decide se dedicar à escola.


Nessa aventura, o jovem percebe que ele é muito mais do que um rostinho bonito, se redescobre e ainda fortalece laços com seu avô e entra em contato com sua herança japonesa. Isso é especialmente mais legal porque Paxton só é nipo-americano por causa do ator. Então, deve ser bem especial para Darren essa guinada de seu personagem.


Fabiola segue recém-assumida com sua namorada e tenta se encaixar no novo universo. Ao mesmo tempo em que não consegue se aproximar das amigas de Eve (Christina Kartchner), também se sente cada vez mais afastada do seu clube de robótica e da sua origem como “nerd excluída”. Só sei que no final, ela consegue equilibrar todos os pratos e honrar sua história, com todas as suas personalidades, gostos e preferências! Que evolução.

Muitos personagens legais são adicionados em "Eu Nunca" | Foto: Divulgação / Netflix

Novos tópicos entram na discussão

Se a primeira temporada falou sobre racismo, descobertas sexuais, virgindade, bullying e morte, a segunda parte coloca outros assuntos importantes na mesa, fazendo de “Eu Nunca” uma série ainda mais completa e cativante. Uma grande “novidade”, que rendeu algumas lições, é o breve relacionamento abusivo de Eleanor (Ramona Young).


A jovem fica perdidamente apaixonada por um artista alternativo e não consegue ver alguns problemas, como o fato do rapaz ser grosseiro, arrogante e provavelmente infiel. É quase um manual com sinais de que você está em um relacionamento abusivo: ele te corta no meio da frase, desvaloriza suas ideias, é grosso, te afasta das suas amigas. Ao abordar o tema na série, os personagens não só ajudam a identificar esse tipo de abuso, mas auxiliam amigos e familiares a como se portar quando alguém querido está nessa situação.


Outro tópico que vale a atenção é o transtorno alimentar. A adição de Aneesa (Megan Suri) no elenco é muito boa por vários motivos. A adolescente faz Devi se questionar, se duvidar, se arrepender em um intervalo curto de episódios. Mas, além disso, ela também tem anorexia e a forma como a série aborda isso é leve e muito interessante. Não é comentado como Aneesa faz para emagrecer, nem quantos quilos ela tem ou deseja ter. Ela explica brevemente sua condição e, apesar de ter se espalhado pela escola como uma “fofoca”, a maioria dos personagens recebe a informação com empatia e acolhimento. Outro ponto para “Eu Nunca”.


E não é só isso. A série mostra machismo no trabalho e no meio científico, a descoberta de sua individualidade após a perda da pessoa amada, apoio (ou falta de apoio) familiar. Parece muita coisa, e é, mas o roteiro consegue dar conta de todos os tópicos, sem parecer uma abordagem superficial e forçada, como vemos muitas vezes em outros enredos.

Devi e sua mãe continuam passando por altos e baixos na 2ª temporada | Foto: Divulgação / Netflix

Devi continua lidando com o luto

O intervalo entre a primeira e segunda temporada de “Eu Nunca” foi de mais de um ano. Mas, na história, continuamos exatamente onde paramos. Por isso, para o telespectador pode ser difícil se lembrar: Devi está de luto. A menina perdeu seu pai há meses e isso, obviamente, ainda afeta bastante sua vida. É claro que não é uma desculpa para todas as burrices da personagem, mas é algo que não se pode perder de vista enquanto assistimos aos episódios.


E, mais uma vez, os roteiristas mandam muito bem na hora de trazer isso à tona. A primeira metade da série é toda marcada por uma mensagem de voz antiga do pai de Devi, à qual a menina recorre sempre que se sente ansiosa e ameaçada. Isso tudo vai evoluindo até o ápice em que Devi tem uma briga feia com sua mãe e leva a questão para terapia. Pessoalmente, as cenas com a terapeuta são minhas preferidas e, apesar de raras nessa temporada, não deixam a desejar. “Você não é louca Devi, só está confusa e provavelmente deprimida”, ela diz em um momento.


De novo, não estou dizendo que tudo bem a Devi ser escrota com uma amiga que não fez nada e enganar dois garotos que estão realmente apaixonados por ela. Mas como uma pessoa que perdeu o pai há sete meses, senti a dor dela e essas cenas, apesar de dolorosas, foram um abraço muito bem recebido aqui.

Você prefere Devi com Paxton, Ben ou sozinha? | Foto: Divulgação / Netflix

E o triângulo amoroso é resolvido?

Sim e não. Como disse, a estratégia de manter os dois relacionamentos logo acaba, deixando apenas Devi solteira e Ben e Paxton bem chateados. Só que ao longo de toda a temporada, é claro que assim como os meninos ainda têm interesse nela, ela gosta e tem carinho por eles. Por isso, em vários momentos, acreditamos que algum dos casais pode voltar - seja Devi e Ben ou Devi e Paxton.


Teoricamente, temos uma resposta um pouco mais conclusiva no episódio final mas, ao mesmo tempo, é claro que muita coisa ainda vai acontecer e tem gente recalcando uns sentimentos importantes aí. E como a gente sabe bem, isso nunca dá certo nas séries (e na vida real). Infelizmente, temos mais um ano até a terceira temporada de “Eu Nunca”, que nem foi confirmada ainda, mas que tem tudo para ser. Até lá, vamos torcer pelo melhor shipp ou pra que Devi fique bem totalmente sozinha - tá na hora já, né?