Vamos polemizar: o que o #8M realmente significa?

Que 8 de março é o Dia Internacional da Mulher todos já sabem. Flores, bombons, homenagens nas redes sociais… “Obrigado por existir, mulher”, “parabéns pelo seu dia” e hashtags entram nos trending topics do Twitter. Mas essa não é uma data comemorativa. Por trás do seu significado e sua celebração tem muita luta, história e distorções. E é disso que o nosso primeiro "Vamos polemizar?" trata: o que realmente significa o 8M?


Na verdade, o 8 de março carrega um forte caráter trabalhista. Operários/as reivindicavam a redução da jornada, melhores salários e condições de trabalho, em especial, as mulheres que recebiam menos e tinham de levar seus filhos às fábricas no dia a dia.


Mas esse tom político foi deixado de lado. Não se reconhece mais o protagonismo feminino por trás da data e de tantas conquistas realizadas nas últimas décadas. O que mais vemos é a divulgação de promoções relacionadas à beleza e afazeres domésticos, limitando todas a esses espaços.


Ué, mas o dia não foi criado por causa de incêndio numa fábrica?


De fato, houve um incêndio que matou diversas mulheres operárias em uma fábrica. Mas esse acontecimento não foi o responsável pela origem da data. O incêndio aconteceu durante um cenário de luta política dos operários por direitos trabalhistas em 1911, como apontam alguns pesquisadores. Mas a criação de um dia para marcar o movimento feminista da época já tinha sido proposta um ano antes do acontecimento.


O incêndio na fábrica não foi a motivação para a criação da data


A proposta foi feita pela alemã Clara Zetkin, membro do Partido Comunista Alemão, durante o Segundo Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, em 1910. Zetkin fazia parte do movimento trabalhista e levantava diversas questões sobre os direitos das mulheres. O “conto” do incêndio reforça a imagem da mulher como indefesa e passiva frente a reivindicações políticas e traz a comemoração do 8M como uma espécie de homenagem às vítimas.


Isso mostra que, mesmo esse sendo um dia feito por e para mulheres, a história invisibilizou a principal motivação e a verdadeira razão para a sua criação. Esse apagamento criou uma separação entre os movimentos feminista e trabalhista, sendo a causa de tantos atrasos na inclusão das mulheres nos direitos trabalhistas.


E como isso afeta as mulheres até hoje?


Como os movimentos se separaram, as pautas deixaram de caminhar lado a lado e os avanços foram a passos lentos. Com isso, as mulheres demoraram a ocupar mais espaços dentro do mercado de trabalho, sendo limitadas ao ambiente doméstico.


A separação do movimento feminista com o trabalhista pode causar danos em ambas as lutas


A escritora, professora e ativista feminista Silva Federici estuda a relação entre o capitalismo e da exploração do corpo feminino. Para ela:


"'Mulher' significa uma posição particular na organização de trabalho, uma posição particular na divisão sexual do trabalho e uma forma particular de exploração. [...] Você não pode lutar sem falar disso."

Por isso, é importante refletir: quantas mulheres você já viu em cargos de poder? Por que algumas profissões são tão marcadas pela figura masculina e outras não? Em quais profissões as mulheres são socialmente aceitas na nossa sociedade? Será que estamos realmente perto de alcançar a igualdade salarial?


Precisamos retomar a relação entre os movimentos trabalhista e feminista. É necessário relembrar o verdadeiro significado do 8M e usar esse dia para levantar o debate sobre a divisão sexual do trabalho. E isso pode começar com uma troca de mensagens, uma conversa, um post, um texto. Vamos usar as redes sociais para militar, sim.


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A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.


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