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Vamos Polemizar: o Oscar não é importante e nós podemos provar

A cerimônia do Oscar 2023, premiação de filmes mais esperada do ano, acontece neste domingo (12). Mas é claro que não perderíamos a oportunidade de problematizar algumas coisinhas, certo? Então te convidamos para uma reflexão: por que o Oscar é tão importante assim? E a seguir damos quatro motivos para dizer que, não, a gente não precisa se importar tanto assim com essa premiação quando tiramos nosso umbigo do estadunicentrismo e paramos para pensar no cinema brasileiro.


1. Academia já esnobou filmes icônicos


Diferente do que muitos pensam, receber uma indicação do Oscar não garante qualidade nem aclamação – e o inverso também acontece. Historicamente a premiação despreza algumas temáticas e gêneros específicos (como filmes de terror e histórias de narrativa feminina e/ou preta mais sutis). Isso por si só demonstra como a Academia ignora a existência de uma gama de filmes bem-produzidos por motivos de preferência.


Vários longas que viriam a se tornar icônicos para o cinema não possuem nenhum Oscar ou até mesmo indicação. Se encaixam nesse caso as produções King Kong, O Iluminado, Psicopata Americano (que persevera até hoje com memes) e Donnie Darko, para mencionar alguns.


Mais um exemplo: Amor À Flor da Pele é tão relevante até os dias de hoje que sua estética inspirou um dos indicados ao Oscar deste ano, Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo, mas o filme franco-honconguês não recebeu nem uma indicação sequer ao prêmio na época de lançamento.


Também vale lembrar que nosso querido Cidade de Deus recebeu quatro indicações ao Oscar e não ganhou nenhum, mas é considerado pela crítica especializada um dos melhores filmes da História.


2. Cinema brasileiro é mais aclamado em outras premiações de peso


Apesar do Oscar ser a premiação do cinema mais conhecida, isso não quer dizer que ela é a mais prestigiada. O cinema brasileiro se sai muito melhor no Festival de Cannes, por exemplo. Diferente do Oscar, a cerimônia francesa tem um histórico de avaliar filmes independentemente de idioma ou nacionalidade, e premia os longas de maneira mais ousada e justa, sem a clara preferência da Academia dos EUA com os filmes de língua inglesa.


(Sério, gente, as pessoas deveriam questionar mais a vitória de Parasita em 2020 e por que levou tanto tempo para um filme não-inglês vencer na categoria Melhor Filme… E encarar isso como um sinal de que a Academia definitivamente não deveria ser levada a sério.)


O Palma de Ouro é o principal prêmio de Cannes, e produções do Brasil já foram indicadas 38 vezes a esta categoria. O Pagador de Promessas foi o primeiro e único filme brasileiro vencedor do prêmio em 1962, com direito a aplausos de pé e tudo. Além disso, Fernanda Torres foi a primeira brasileira a ganhar o prêmio de Melhor Atriz com Eu Sei Que Vou Te Amar. Muito mais otimista do que os números do Oscar, não é?


Inclusive, em 2020, Cannes liberou uma seleção de filmes como forma de manter o festival ativo durante a pandemia — e adivinha qual o único país latino-americano incluso na lista? Pois é, foi o Brasil com Casa de Antiguidades. A gente deve valorizar quem reconhece a gente, galera!


3. Receita de bolo para a vitória no Oscar


A campanha de publicidade é a fase mais importante da produção de um filme para o Oscar — e não escrever um roteiro criativo, ou contar uma história importante, ou atuar bem um personagem. Estúdios gastam em média mais de US$ 30 milhões só com o marketing voltado para integrantes da Academia, para convencê-los de que seu filme merece ser indicado e, quiçá, ganhar uma estatueta.


Essa campanha acontece com jantares, lobby, propaganda, festas privadas e muito mais, o que prova que a seleção de filmes para o Oscar não é definido bem por qualidade em si. Esse sistema também deixa em desvantagem filmes independentes e de estúdios menores, porque não é todo mundo que tem US$ 30 milhões para gastar puxando o saco de outras pessoas, não é?


Além disso, estatísticas mostram quais são os queridinhos da Academia. Na verdade, não precisamos de números para perceber isso — afinal, quem nunca assistiu a um drama histórico sofrido de algum homem branco e pensou “nossa, isso super ganharia um Oscar”? Pois é. Segundo dados, em mais de 90 anos, 93% dos longas vencedores na categoria Melhor Filme são dramas, enquanto ação e fantasia ocupam míseros 2% (pois é, A Forma da Água foi bem uma exceção em 2018). E 76% deles têm mais de duas horas de duração (parece que é por isso que a maioria dos indicados deste ano são tão longos também).


É claro que esses números também transparecem preconceito de gênero e raça. Filmes com protagonistas ou direção femininas não costumam ser indicados na principal categoria de Melhor Filme do Oscar, ao passo que narrativas pessoais de homens recebem destaque sem problemas. Isso denuncia a ideia que homens costumam ter de que histórias “femininas” não são narrativas universais, então seriam menos identificáveis pelo público. Pretos sofrem do mesmo problema.


Vale apontar que, depois de duas vitórias seguidas com Jane Campion e Chloé Zhao, nenhuma mulher foi indicada na categoria de Melhor Direção deste ano.


4. Esnobaram a Fernanda Montenegro


Eu preciso falar mais algo? Acho que não. Porém, direi porque eu sou rancorosa. Fernanda Montenegro perdeu na categoria Melhor Atriz por Central do Brasil em 1999, um filme lembrado e elogiado até hoje, 24 anos após seu lançamento. E ela perdeu para quem? Gwyneth Paltrow com seu papel em Shakespeare Apaixonado, um drama romântico que não tem atualmente nem um quinto de sua importância.


Um detalhe muito importante: Shakespeare Apaixonado é da produtora de Harvey Weinstein, a Miramax. (Sim, o cara com um longuíssimo histórico de abuso sexual.) Há relatos de que o produtor fez uma campanha agressiva para que o filme colhesse alguns Oscars em 1999, com artimanhas como marcar jantares com membros da Academia, investir em publicidade e maldizer os demais indicados, como O Resgate do Soldado Ryan. Não tinha como uma brasileira realmente talentosa ganhar assim, né? ___



A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.


Tem alguma ideia de tema? Envie sua sugestão para o telasporelas@gmail.com

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