Vamos Polemizar: em um país tão plural, por que o sertanejo domina as paradas de sucesso?

Nesta terça-feira (3) é comemorado o Dia do Sertanejo, o gênero musical mais ouvido no país. Nomes como Gusttavo Lima, Maiara & Maraisa, Jorge & Matheus, Henrique & Juliano e Luan Santana compõem o estilo.


A data foi escolhida em 1964 por iniciativa de uma rádio de tradição sertaneja, a Rádio Aparecida, a fim de celebrar o estilo de vida em um evento presencial com shows. Também celebrava o hábito do homem da roça e do costume dos violeiros em visitar Aparecida. Chegou a ganhar uma versão televisiva, mas o evento foi descontinuado pouco antes da pandemia.


Geograficamente, o sertão brasileiro compreende do interior do nordeste ao norte de Minas Gerais, mas também pode se referir a outras regiões afastadas dos núcleos urbanas e do litoral, como no Centro-Oeste. A música sertaneja é a principal expressão cultural dessa região.


Hoje, o sertanejo e suas variações dominam as paradas de sucesso dos quatro cantos do país. Segundo o Spotify, o "sertanejo pop", o "sertanejo universitário" e o "sertanejo (raiz)" foram os três estilos musicais mais ouvidos no ano passado - à frente do funk carioca e do pop, que completaram o TOP 5. Não é diferente nas rádios brasileiras.


Vale destacar o crescimento da pisadinha (ou forró eletrônico) no streaming e nas rádios, mas que ainda não ameaça o reinado do sertanejo no topo das paradas de sucesso. Pelo menos, não por enquanto.


A dominação do sertanejo e suas variações nos charts brasileiros é um fenômeno que acontece pelo menos há um de dez anos. O Vamos Polemizar de hoje joga luz sobre o assunto e reflete com atenção: por que o Brasil, um país tão plural culturalmente, tem apenas um ritmo musical em evidente destaque?


Muito dinheiro


Agro é tech, agro é pop, agro é música sertaneja... O avanço do agronegócio tem papel fundamental no crescimento do sertanejo contemporâneo, seja pelo investimento direto de empresários milionários e bilionários do agronegócio, mas também pela produção de mega eventos. Quanto maior o investimento, maior o lucro!


A expansão do agro turbinou a economia de muitas cidades do interior com comércio, serviços e eventos agropecuários. A Festa de Barretos, por exemplo, movimentou cerca de R$ 900 milhões somente em 2019. Ela é só um exemplo que faz a indústria sertaneja circular e os artistas do gênero ter centenas de shows por ano.


E o dinheiro é tanto que o investimento é alto desde o início de uma dupla sertaneja. Para que um artista seja bem produzido, o investimento é de pelo menos R$ 1 milhão. "Esse é o custo de pelo menos um sucesso no top 20 de rádio ou do Spotify", disse Luiz Aleksandro Correia, cantor, investidor sertanejo e pecuarista ao TAB UOL.


Com mais dinheiro circulando e a criação de estúdios qualificados e grandes produtoras, cidades como a de Goiânia, em Goiás, e outras do Mato Grosso do Sul e do Paraná se tornaram celeiros de artistas sertanejos.


Ao falar sobre estratégias de carreira, a empresária Kamila Fialho disse que é difícil competir com o "jabá" do mercado sertanejo. "Tem muito dinheiro, meu amor. Ali é boi. Eu pago para tocar uma música na rádio e eles compram a rádio... Como fica a concorrência? 'Queria pagar para tocar aí. Ainda existe essa metodologia?' 'Não, não, porque o sertanejo passou aqui na semana anterior, comprou a rádio e aqui não toca mais música pop", disse ao canal do YouTube Corredor 5 em 2021.



Fusão de ritmos


Anteriormente, sem a popularização do streaming, ganhava destaque quem estava na grande mídia, no eixo Rio-São Paulo, e nas trilhas de novela. Artistas da MPB, do axé e pop ainda dominavam as rádios. O sertanejo estava presente também, mas não dominava sozinho.


Isso muda com o sertanejo universitário pouco antes do ano 2010, com duplas como João Bosco & Vinícius, Jorge & Mateus, Maria Cecília & Rodolfo e César Menotti & Fabiano, além de Luan Santana, Paula Fernandes e Gusttavo Lima.


O feminejo, que é representado por Marília Mendonça, Maiara & Maraisa, Naiara Azevedo e Lauana Prado, também difundiram ainda mais o estilo musical, que é bem diferente de sua origem, apesar de manter características da época da viola.


O sertanejo surgiu da cultura caipira no início do século XX, mas hoje se mistura a diferentes estilos musicais, como música eletrônica, funk e pop, ou estilos em ascensão em determinado momento, como arrocha e pisadinha. Tal característica do sertanejo contemporâneo agrega cada vez mais fãs e, claro, mais investimentos e lucros. Afinal, é uma indústria que movimenta bilhões de reais.



Identificação


Além da grana e da fusão de ritmos, é claro que o gênero faz sucesso porque toca no coração de muitos brasileiros, seja pelas músicas de sofrência (quem não chora ouvindo qualquer faixa das patroas Maiara & Maraisa e Marília Mendonça) ou pelas faixas de curtição.


Desde a década de 1990, época em que duplas como Zezé di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó faziam sucesso, mas dividiam os holofotes com a axé music e a MPB, as músicas já geravam identificação, principalmente com as pessoas do interior. O sertanejo contemporâneo ampliou essa identificação para o resto do país.



O sucesso do sertanejo é um problema?


O sucesso dos artistas sertanejos em si não é um problema. Mais uma vez, a questão é o Brasil - um país de mais de 200 milhões de pessoas e muitas particularidades - ter apenas um ritmo musical como destaque no streaming e nas rádios, além de apenas ele receber grandes investimentos.


Nem Anitta, principal artista pop do país e que vem ganhando projeção internacional - consegue os mesmos números que os companheiros do sertanejo em solo nacional. Pelo menos até 2021, o cachê da artista, segundo a empresária Kamila Fialho, era menor que o de Dennis DJ, artista que mescla eletrônica e sertanejo.


"A gente tem uma mono-música na rádio que é o Sertanejo... É uma indústria de compartilhamento de um único gênero no rádio. E isso é péssimo para o Brasil e para a nossa cultura. Nós temos um país tão diverso e a gente não vê essa diversidade representada. Nem na Câmara, nem no Senado, nem no Rádio e nem na Mídia, de um modo geral", refletiu a radialista Fabiane Pereira ao site Mundo da Música.


E já que a palavra diversidade está em alta (e ainda bem), esse Vamos Polemizar quer apenas trazer a reflexão: por que ouvir apenas um estilo musical? Esse texto não é contra o sertanejo, vale destacar, mas a favor da pluralidade musical brasileira, que tem qualidade no sertanejo, mas também no funk, no samba, no pagodão baiano, no baião, nas músicas folclóricas do sul...


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A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.