Vamos Polemizar: a militância não pode descansar!

Militante: Pessoa que milita; quem defende uma causa ou busca transformar a sociedade através da ação e não da especulação. Essa é a definição do dicionário para o termo militante e ela não poderia estar mais correta. Entendemos a militância, atualmente, como uma abordagem de assuntos que atingem principalmente as minorias. Por isso ela é tão importante.


Entretanto, em contrapartida à “era do cancelamento”, tema que já ganhou post aqui no site, vemos outra expressão surgir e ganhar força nas redes sociais: o termo “descansa militante”. A grande problemática do uso desse termo é que diferente do seu irmão gêmeo, o “mimimi”, ele vem usado pelo movimento da esquerda para o movimento da esquerda.


O Vamos Polemizar? desta semana mostra a importância de se olhar com mais cuidado para esse termo e entender que, na maioria dos momentos, não dá para o militante descansar.


Isso é tudo “mimimi”


Comentário em postagem no Facebook. | Foto: Reprodução.

Para entender melhor o surgimento deste termo temos que voltar alguns anos e entender a famosa “Geração Mimimi”. O termo, “mimimi”, começou a ser usado em meados de 2016 e a sua popularização aconteceu em um piscar de olhos.


O que víamos eram diversas pessoas na internet, principalmente no Twitter e Facebook, reclamando sobre a geração atual e como ela era cheia de “mimimi”. Pode parecer um comentário insignificante e até meio infantil, mas a utilização do termo como argumento de debate em situações sérias o levavam para outro patamar.


A questão é que na maioria dos posts que abordavam alguma questão social ou política, principalmente os que apresentavam pensamentos de esquerda, choviam comentários reclamando de como o mundo estava chato e de como tudo era muito melhor antes de existir o tal do racismo, a tal da homofobia, a tal da gordofobia, etc.


Isso nos mostra que a questão real não era que o mundo estava ficando mais chato, e sim que as pessoas estavam tomando mais consciência e, consequentemente, falando mais sobre todas essas questões. A internet, como sempre, foi uma grande possibilitadora dessa disseminação de pensamentos, conhecimentos e experiências. Por outro lado, também foi ponto importante para propagação do pensamento da “geração mimimi”.


Tá, mas onde entra o descansa militante?


Resposta à um tweet. | Foto: Reprodução.

O “descansa militante” é a versão 2.0 do “mimimi”. Com mais acesso às vivências de outras pessoas e com termos como empatia e sororidade em alta, temas que antes eram marginalizados pela sociedade passaram a ser colocados em pauta em rodas de conversa ou em debates dentro e fora da rede.


Para (muito além disso) passamos a questionar tais situações quando as vemos em filmes, novelas, comerciais, músicas, realitys shows e também na internet que, mais uma vez, se tornou o grande palco para a utilização deste termo. Isso acontece por muito motivos, mas principalmente porque na internet as pessoas se sentem protegidas e, em decorrência disso, mais corajosas. É mais coragem e abertura para falar sobre o assunto, mas também para criticar e mandar descansar.


E, diferente do “mimimi”, que era comumente usado pela direita, o “descansa militante” nasceu e se popularizou entre pessoas da própria esquerda. Para mim, essa é uma das grandes diferenças entre esse termo. Ele surgiu meio que sem querer, como uma piada e acabou se transformando em uma expressão que prega o apagamento de vozes e discussão sobre assuntos muito relevantes.


Ele se propagou de tal forma que eu duvido que você, que está lendo esse texto, em algum momento já não respondeu (ou pensou em responder) “descansa militante” para alguém ou para algum post na internet. Ele está se enraizando na nossa forma de falar, mas quando o colocamos em pauta podemos perceber o quão problemático o termo pode ser.


Como mudamos isso?


Print de um tweet. | Foto: Reprodução.

Se olharmos a nossa sociedade hoje é evidente que não dá para a militância descansar. Vivemos em um país onde a desigualdade se faz presente no cotidiano da maioria das família, um dos países que mais mata minorias no mundo, um país onde o racismo é uma realidade que é apagada todos os dias.


Da mesma forma que não podemos sair cancelando o mundo inteiro, não dá para descansar a nossa militância. Apontar falhas é necessário e usar esse momento para começar um diálogo é muito importante nos dias atuais. Não é fácil manter esse equilíbrio, mas devemos sempre estar atentos para não reproduzir esse discurso.


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A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.

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