Taburóloga: sex shop e brinquedinhos sexuais

Cá entre nós, você em algum momento da sua vida já se sentiu envergonhada por querer conhecer ou virar consumidora do mercado erótico? Esse é um tabu na vida de muitas mulheres, afinal, o que achariam de nós se nos vissem entrando em uma sex shop e comprando brinquedos sexuais? A grande verdade é que a vida sexual da mulher nunca deve ser explorada, ou pelo menos é isso que a nossa sociedade machista quer que a gente ache. E é por isso, que no taburóloga de hoje, falaremos sobre os sex shops e brinquedinhos sexuais.


Os brinquedos sexuais ajudam a explorar nossa sexualidade. | Ilustração: Eve Lloiyd Knight

Mas afinal, quando eles surgiram?


Se você acha que um dos brinquedos sexuais mais conhecidos de todo o mundo, foi inventado para a satisfação sexual, você está muito enganado. Os vibradores foram criados como tratamento médico. Antigamente, acreditava-se que existia uma doença chamada “histeria”, vista como uma doença do ventre e causada pela negligência que o útero sentia e portanto, algo exclusivo às mulheres. Fato curioso é que desde essa primeira associação, a palavra histeria se tornou um termo totalmente machista usado até hoje para denominar mulheres “difíceis” de serem controladas.


A palavra “histeria” vem do grego “hysterika”, que significa útero. E isso começou lá durante o século 6 a. C., quando um médico grego chamado Aretaeus, fez um estudo que o útero poderia se mover livremente dentro do corpo de uma mulher, causando problemas de saúde física e mental. Já Platão, teorizava que o útero era um animal dentro de um animal e de tempos em tempos ficava completamente fora de controle e precisava ser acalmado. Um tanto quanto bizarro né? De acordo com essa teoria maluca, o “animal” se acalmava através de uma massagem na vulva, que provocava uma certa “crise” que resultava em algumas contrações e lubrificações e depois disso, a mulher se sentir melhor. Isso te lembra algo que começa com a letra O?


A histeria era considerada uma doença crônica e por isso, as mulheres precisavam voltar no médico de tempos em tempos. Durante os o tratamento, os médicos demoravam bastante tempo com a massagem para levar a mulher a tal “crise”. Nada mudou né? (brincadeira, ou não!). Com isso, os vibradores foram inventados para facilitar esse processo de estimulação. Inclusive, existe um filme que relata sobre esse processo de criação dos vibradores. O “Hysteria” filme baseado no livro “A tecnologia do Orgasmo” de Rachel Maines de 1998, conta um pouco dessa invenção de forma um pouco mais criativa e inventiva.



Diferentemente do filme, o primeiro vibrador foi a vapor, e inventado por George Taylor em 1869. Ai sim, anos depois em 1883, o médico inglês Joseph Mortimer Granville (cujo aparece no filme “Hysteria”), inventou o vibrador elétrico.


Vibrador a vapor desenvolvido por George Taylor em 1869. | Foto: UOL

Depois de um tempo, no começo do século XX, uma empresa americana chamada Hamilton Beach patenteou um modelo de vibrador elétrico e ele passou a ser vendido como eletrodoméstico, sendo o quinto a surgir no mundo. Antes de aparecerem em filmes pornôs, os vibradores eram vistos como um objeto inocente e até como uma espécie de medicação. Ao ser introduzido no mercado cinematográfico adulto, a imagem desses objetos ficou manchada e eles passaram a ser associados ao sexo.


A partir dos anos 80, os vibradores e brinquedos sexuais de modo geral ganharam mais visibilidade. E hoje é possível encontrar esses objetos de todos os tipos, formas, cores e tamanhos. É até engraçado pensar que quando foi patenteado, o vibrador era visto como um objeto inocente e por isso, ficavam em lugares expostos. Hoje em dia, é raro ver quem tenha vibrador e não o guarde no fundo da gaveta.


É benéfico pra saúde?


Por mais que a história nos conte que os brinquedos sexuais foram inventados para ajudar a medicina, há quem diga que eles são péssimos para a saúde e objetos desnecessários na nossa vida. Mas isso é verdade? Acho que o primeiro ponto importante de destacar é que eles são benéficos tanto para saúde física quanto para a mental e isso é um fato! Existem inúmeros estudos que apontam o sexo e brinquedos sexuais como benéficos para a saúde. E isso se explica através do aumento do trabalho cardíaco do corpo, da pressão arterial, produção de dopamina (substância que combate hormônios do estresse) e produção de endorfina (responsável pela sensação de felicidade, euforia e bem-estar).


Os vibradores e brinquedos sexuais podem ajudar na nossa saúde física e mental. | Foto: Reprodução.

Acredito que muito pela inserção desses objetos em filmes eróticos, cujo é uma indústria que mata e fere inúmeras pessoas e principalmente mulheres, tenha feito eles terem essa imagem associada a algo ruim. Mas se ele é benéfico e ajuda na nossa saúde física e mental, porquê será que temos tanto receio de usá-los? Ou por que temos tanto medo que saibam que somos clientes de uma sex shop?


Tabus dos brinquedos sexuais e das sex shops


Não dá pra deixar os vibradores ou brinquedos sexuais na bancada do banheiro como era antigamente e muito menos entrar em uma sex shop sem ter olhares de julgamentos apontados pra gente não é? É preciso esconder, guardar esse desejo só pra nós e não deixar que ninguém saiba. Afinal, o que vão pensar de nós? Taradas, maníacas e depravadas? Certamente.


Eu me lembro bem quando tinha meus dezessete anos, em uma conversa com colegas da escola, me espantei quando uma delas me disse que havia ido a uma sex shop. Na minha cabeça, esse lugar era um local sujo e que “meninas de família” não deveriam ir. Naquele momento, eu nem entendia que isso era o que queriam que eu achasse, mas a verdade é que eu tinha curiosidade de ir, só que tinha medo.


E por mais que a gente ache que os anos vão passando e a situação muda, comigo não foi bem assim. Quando tinha vinte anos, senti vontade de conhecer uma sex shop, mas ainda assim, o medo estava presente. Contei a dois amigos meus sobre essa vontade porque queria entender e explorar mais sobre minha sexualidade. E na mesma hora combinamos de ir juntos, vai que de repente isso minimizaria esse meu medo. E a grande verdade é que poucos já entraram em uma sex shop, ou se entraram, foi no carnaval onde “tudo é liberado”, como se nossa sexualidade fosse algo a ser liberado pelos outros né? .


Instagram @caradefofa fala abertamente sobre sexo, masturbação e uso de brinquedos sexuais na perspectiva feminina rompendo tabus. | Ilustração: Instagram

Não somente os brinquedos sexuais, mas a sexualidade da mulher no modo geral ainda é um tabu. Assim como falamos em nosso outro taburóloga sobre a masturbação feminina, a mulher não deve nunca expressar sua sexualidade. Vivemos em uma sociedade machista, onde uma mulher sentir prazer e se empoderar em relação a sua sexualidade, é errado. Mesmo para as mulheres que se sintam á vontade para explorar o universo disponível nas sex shops, ainda é notório que existam muitos obstáculos que precisamos enfrentar para podermos falar abertamente sobre nossos desejos. Agnes Dantas, funcionária pública e Débora Lourenço, maquiadora, contam que nunca se sentiram receosas de frequentar sex shops ou usar brinquedos sexuais, mas entendem que para as mulheres explorar a vida sexual ainda é algo que não é visto com bons olhos pela sociedade.


“A primeira vez que fui a uma sex shop foi por curiosidade, eu não comprei nada e fui com dois amigos meus. Foi a primeira vez que tive contato e que vi tudo que tem lá. Depois eu passei a desenvolver hábitos de ir e sempre tava indo comprar alguma coisa e experimentar coisa nova.(...) E sempre busquei procurar diferentes coisas pra testar. Até pra mim mesma, pela experiência, como eu me sinto como mulher usando um brinquedo desse. Eu costumo usar sozinha mas já usei com os parceiros. (...) Mas ainda sim, eu fui muito reprimida pela família tradicional, e o sexo vendido no mercado é direcionado a homens, infelizmente. Então acaba que por vivermos numa sociedade assim, criamos um hábito de "esconder" nossos prazeres, pra uma mulher falar que usa brinquedo, que se toca, que tem uma vida sexual ativa ela já é mal vista. Não só uso brinquedos como assisto pornô, e na maioria você vê a mulher como objeto de prazer do homem, não como alguém que está tendo prazer. Vendo isso, cultivando isso desde sempre, nos sentimos mais oprimidas quando o assunto é o nosso próprio prazer.” Agnes Dantas

“Na realidade, a primeira vez que fui, foi com meu pai. Eu comprava calcinha em um sex shop de uma amiga nossa quando era virgem ainda. Mas meu pai sempre foi meu melhor amigo, então sempre conversei abertamente com ele sobre tudo. Então a primeira vez que fui sozinha para comprar produtos, foi em 2017 quando comecei a explorar minha sexualidade. Foi super tranquilo porque como eu ia com meu pai antes, acabou sendo um ambiente natural para mim, fora do peso da sexualização excessiva que fazem. (...) Mas acredito que fomos ensinadas a não sentir prazer, que é feio se masturbar, que é errado sentir tesão e isso nos afasta do nosso corpo. Desde o início somos criadas para a submissão. Mulheres que não conhecem o próprio corpo, são mais inseguras. E mulheres inseguras, são mais fáceis de manipular. E por isso nos desconectamos da nossa essência, das nossas vontades... Porque insegurança vende! Então mulheres insatisfeitas tentam comprar a beleza e em seguida, começam a competir entre si. No final ficamos infelizes, solitárias e submissas ao homem e ao sistema. Acho que tudo resulta de um sistema patriarcal. Que felizmente está sendo desconstruído em passos lentos. Mas é apenas a minha opinião, claro.” Débora Lourenço

Já para Isadora Damasio, estudante de publicidade, e Lia Castanho, estudante de jornalismo, as sex shops não são um ambiente onde se sintam confortáveis e por isso, nunca chegaram a entrar em uma loja.


“Não é que eu tenha receio, acho que não é receio a palavra, mas talvez vergonha por ser um assunto que “não é comum” entre mulheres, mas sempre tive curiosidade de ir. Com certeza, por ser mulher se eu fosse a uma sex shop ouviria coisas. Tenho pra mim que a mulher para a sociedade não pode ter relações sexuais por puro prazer, por que temos que ser puras e todo esse bla bla bla que ouvimos sempre. Então, eu sei que família e amigos julgariam muito, mas todo mundo faz e isso tem que ser normalizado. É felicidade para ambas as partes.” Isadora Damasio

“Eu acho que eu ficaria constrangida e nada confortável de ir a uma sex shop, se eu fosse consumir esse tipo de produto eu com certeza preferiria fazer uma compra online. Acho que muitas mulheres tem esse receio porque nossa sexualidade é um tabu, não somos incentivadas a nos descobrir além de um peso moral né, se você fala sobre sexo abertamente você logo pode ser interpretada de forma errada, por exemplo, "nossa que promíscua essa mulher". Entretanto, sexo é algo natural, mas isso não é ensinado ainda mais para nós mulheres, há um recorte de gênero gritante.” Lia Castanho

A equipe do Telas Por Elas, realizou uma breve pesquisa sobre as sex shops e brinquedos sexuais. Nela, 55% disseram ter receio de ir a uma loja. Algumas pessoas foram procuradas para nos contarem mais a respeito e a maioria preferiu não responder, ou ainda ignoraram nossa pergunta. Mesmo não sendo uma pesquisa de grande porte, essa atitude reforça o fato de que a sexualidade é de fato um tabu para as mulheres. Tabu esse que não deve ser falado, questionado ou debatido.


Como o mercado erótico lida com o tabu?


Se é difícil pra gente enfrentar os tabus que a sexualidade feminina possui em uma sociedade machista, imagina como é pra quem trabalha com esse mercado? O mercado erótico vem crescendo a cada dia que passa e com ele, novas formas de adquirir prazer. Segundo os dados da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico (Abeme), em 2019 o mercado erótico no Brasil movimentou cerca de R$ 1 bilhão por ano. Mesmo movimentando muito dinheiro, existem dificuldades que empreendedoras enfrentam por conta dos tabus que o sexo envolve.


Dandara Carneiro, começou a trabalhar com esse mercado há dois anos. A paixão por lingeries e a necessidade de conhecer melhor seu corpo, fez com que ela se aproximasse cada vez mais desse universo erótico. Ao pesquisar e tentar entender sobre sua sexualidade, Dandara percebeu o quanto era difícil comprar esses produtos porque as lojas desse mercado eram sempre escondidas e quando as achava, poucos produtos estavam disponíveis. Foi através dessa indignação em relação ao mercado que ela fundou a Dona Oncinha, com o objetivo de levar os produtos até as mulheres de todos os tipos de corpos, fazendo com que elas se sintam mais sensuais e as empoderando a fazer isso por elas mesmas e não para o outro.


“As mulheres têm muita vergonha em se conhecer, comprar produtos para o prazer próprio ou pensar em comprar. Por exemplo, quando a gente pergunta se uma mulher se masturba, ela se sente ofendida, já pro homem, é quase que obrigatório falar sobre masturbação.”

A Dona Oncinha já teve loja física mas ao perceber que as vendas on-line eram muito superiores, Dandara resolveu permanecer apenas trabalhando com as vendas na internet. A grande realidade é que muitas mulheres preferem não serem vistas nessas lojas e por isso, comprar pela internet tende a ser a melhor opção para “esconder” esse tabu. E graças a tecnologia, existem milhares de lojas online que disponibilizam os mais diversos produtos. Um outro fator que ajuda a driblar esse receio de consumir produtos de sex shop, são os formatos que os brinquedos sexuais passaram a possuir. Hoje, existem os mais variados vibradores em formas diferentes como batom, coração e animais por exemplo, que ajudam a “mascarar” a funcionalidade daquele objeto.


“O vibrador batom é divertido e uma boa opção pra quem quer começar a introduzir esses objetos na vida. Porque a mulher já tá familiarizada com esse objeto e acaba conhecendo melhor o próprio corpo através de um batom, o que torna tudo mais divertido.”

Por ser uma mulher na frente de uma empresa que vende produtos sexuais, ela já precisou ouvir poucas e boas de homens. Ver uma mulher falando de sexo e de assuntos que abordam esse tema, causa insegurança afinal, deve dar medo ver uma mulher empoderada né?


“Esse ano precisei desvincular minhas redes sociais pessoais das redes da loja. Porque os homens acham que o fato de você vender produtos, você também vende seu corpo. É bem complicado! “Você vende então eu quero uma foto sua de lingerie” “Eu quero conversar com você sobre assuntos promíscuos” e não são nem assuntos sexuais, são coisas bem baixas! E por trabalhar com isso, eles ligam a minha imagem a uma pessoa vulgar ou uma pessoa que transa com qualquer um. Quando eu posto alguma coisa no meu instagram pessoal, divulgando algum produto que chegou na loja, a quantidade de cara que me manda mensagem é absurda. Ai uma coisa que eu sempre falo pra eles é o seguinte: Vocês devem ter medo né? Porque o que vocês sabem fazer, eu seu ensino! Ou seja, o sexo que eles fazem que acham que é muito bom, eu ensino pras mulheres a não aceitarem aquilo ali. Eu ensino elas a aceitarem o prazer, a ter orgasmos e se conhecer.“

Porque condenar algo que só nos fará bem?


Seja pra sair da rotina, se autoconhecer ou realizar fantasias, o uso de brinquedos sexuais pode mudar a experiência sexual das pessoas. Se formos olhar para trás, onde a repressão sexual era grande, vemos que caminhamos bastante mas ainda é preciso superar muitas barreiras para fazer da sexualidade o assunto comum. A falta diálogo nas famílias é o ponto central do problema. Seja por preconceito, vergonha ou timidez, muitos pais deixam de apresentar questões introdutórias sobre o sexo na vida de muitos adolescentes. O assunto é reprimido desde a infância e pra nós mulheres, a situação é ainda pior. Como aprender que explorar nossa sexualidade é algo normal se desde quando nos entendemos por gente isso é algo que nos é apontado como errado? Por esse motivo, primeiro devemos entender que todos nós temos tabus e tentar vencê-los. Precisamos nos reeducar e trazer em pauta o quanto falar e explorar nossa sexualidade pode ser algo bom e benéfico pra nossa saúde física e mental.


Por que condenar algo que deveríamos amar? | Ilustração: Eve Lloiyd Knight

Aos poucos conseguiremos falar de sexo com mais naturalidade, frequentar sex shops e usar brinquedos sexuais, e isso não será algo que nos causará medo ou vergonha. Se os objetos sexuais estimulam e aumentam nosso prazer e isso só causa bem a saúde, porque condená-los?


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Já pensou como a vida seria muito mais simples se a gente falasse mais sobre alguns tabus? Esse é um dos objetivos da categoria 'Taburóloga', que conta com textos quinzenais!