Taburóloga: "Eu nunca beijei" e o tabu da virgindade

Por Beatriz Cardoso e Jéssica Riquena


Você já ouviu a seguinte frase: “Ela não era mulher para casar”? Se não, saiba que você ainda terá esse desprazer. E, se você já ouviu, tenho certeza que você teve que respirar fundo e contar até mil bem lentamente.


Muitas vezes essa frase é dita para desqualificar uma mulher que já teve relação sexual com um ou vários homens e, por isso, ela passa a ser vista como uma mulher “rodada”. Então, será que a inexperiência sexual de uma mulher é algo positivo para os homens e, portanto, é incentivado entre as mulheres? É sobre isso que trata o nosso primeiro "Taburóloga".


Inexperiência desejada


Em 2016, Sandy disse em um programa de televisão que a sua famosa capa de revista da Capricho com os dizeres “Eu nunca beijei” era uma farsa. Na época, ela tinha 16 anos e representava, para muitas meninas mais novas e mais velhas que ela, um exemplo a ser seguido, um modelo.


Capa da Capricho com declaração polêmica de Sandy. Foto: Reprodução.

A inexperiência sempre foi algo intrinsecamente desejado pelas mulheres e, durante vários e vários anos, esse era o único discurso aceito dentro da nossa sociedade. As diversas meninas que leram essa capa e tantas outras produzidas por diversas revistas aprendiam, dia após dia, que era necessário “preservar” o seu corpo para o casamento.


A verdade é que, principalmente para a mulher, o primeiro beijo, a primeira vez e todas as outras primeiras experiências sexuais foram perpassadas, durante séculos, por uma construção social que afeta até hoje a forma como pensamos e agimos em relação a esses assuntos. Em um episódio do PQPCast, Thata Finotto e Natália Mattos disseram uma frase que exemplifica bem isso:


“Ao passar dos séculos, a ideia de mulheres permanecerem 'puras e intocadas' foi reforçada não só pela religião, mas por uma necessidade que surgiu a partir da distribuição de herança.”

Ouça o episódio completo abaixo:



Reforço na linguagem


Essa construção fica evidente quando observamos a maneira em que falamos sobre isso, na nossa linguagem. Ao longo de todo o processo de construção social foi consolidado uma linguagem que trata as primeiras vezes como algo ruim, pecaminoso, que não deve ser vivido.


Temos o clássico termo “perda” da virgindade, usado de forma massiva por todos nós e que, em um segundo olhar, representa a reafirmação dessa ideia de negatividade. Quando pensamos em “perder” algo, pensamos em algo negativo. Ninguém quer perder alguma coisa.


Essa é uma desconstrução que começa com um olhar macro, mas deve ser vista também em nossas ações, nossa forma de falar sobre o assunto e até alguns dos nossos pensamentos sobre. Precisamos nos informar diariamente e buscar entender as várias narrativas que surgem acerca desse assunto.


Ilustração: Ruth Basagoitia

A pressão social sobre homens e mulheres


Tanto homens quanto mulheres sofrem pressão quando o assunto é sexo e virgindade. Mas a principal diferença é a forma como cada gênero reage à imposição social. No caso de vida sexual ativa, os estereótipos impressos a homens e mulheres são bem conhecidos.


Enquanto o homem (especificamente hétero) tem liberdade sexual para pegar quantas quiser, de forma que as parceiras são vistas como uma espécie de troféu e sua quantidade seria comprovação de masculinidade, mulheres sexualmente ativas são reprimidas para que se “entreguem” ao menor número de parceiros possível. Vemos, então, que a divisão sexual dá ao homem um papel ativo, enquanto a mulher assume uma posição mais passiva e que demanda maior afetividade.


Já no caso da virgindade, pesquisas indicam que garotos são mais propensos a ter relações quando não estão a fim, enquanto garotas virgens apresentam maior resistência à pressão social da primeira vez. Não é possível apontar uma razão específica para isso, por mais que haja algumas dicas como, por exemplo, o senso comum de que mulheres devem impedir o avanço de rapazes para se manterem puras.


Além disso, meninas costumam buscar orientação sobre sexo e afins com a família, ao passo que garotos trocam ideias sobre o assunto mais com colegas, o que aumentaria a pressão social sobre eles — e também impediria uma discussão séria sobre a virgindade em si.


Ilustração: Maya Avelar

Mas, afinal, o que é ser virgem?


O debate em torno da virgindade costuma tender para um dos dois polos: visando a mantê-la (castidade) ou a perdê-la (sexualidade). O tabu impede uma ponderação sobre o conceito em si. Afinal, o que é ser virgem? A definição baseada em penetração vaginal é mais do que ultrapassada — além de heteronormativa. Seriam gays e lésbicas eternamente virgens por não fazerem o sexo tido como “padrão”?


Nem mesmo a Medicina tem uma definição amplamente aceita sobre o conceito de virgindade. O papo de hímen rompido é coisa do passado e deve ser desmistificada — quem nunca ouviu histórias sobre hímens elásticos que resistem à penetração, ou fracos que rompem andando de bicicleta? A virgindade é uma construção social empregada para oprimir mulheres e culpá-las de sua sexualidade. É apenas mais um critério para julgar o corpo feminino pelo olhar masculino.


A virgindade segundo senso comum desconsidera formas de intimidade válidas e tão importantes quanto a penetração, como sexo oral, anal, e masturbação. Essa última, em especial, costuma ser a primeira forma em que exploramos a nós mesmas e temos nossa primeira libertação sexual. A virgindade como um conceito tão atrelado a um parceiro é limitada porque desconsidera todas as descobertas sobre si que uma mulher pode fazer sozinha.


Ilustração: Shruti Yatam

Cara gente transante


Se você chegou até aqui e não é virgem, preparamos algumas dicas para não cometer gafes.


Primeiro, não adianta pagar de desconstruída/o e soltar comentários como "fulano transou tarde". É preciso se policiar na hora de falar sobre uma experiência sexual própria ou alheia. Cada um tem a sua hora — e às vezes a "hora" nunca chega, mas se a pessoa não se importa então está tudo bem!


A virgindade não é um problema a ser resolvido a não ser que a pessoa manifeste algum desconforto com a situação. Se você descobriu que algum/a colega é virgem, é ofensivo se oferecer para arranjar alguém ou coisa do tipo — mesmo que você só esteja tentando ajudar.


Por último, mas mais importante: não faça piadas sobre virgindade. Verdade seja dita, elas não são engraçadas (nunca foram) e são tão desrespeitosas quanto a típica machista “mal comida”. Ser virgem não torna ninguém melhor ou pior, e ter esse tipo de pensamento apenas promove a opressão machista entre mulheres.


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Já pensou como a vida seria muito mais simples se a gente falasse mais sobre alguns tabus? Esse é um dos objetivos da categoria 'Taburóloga', que conta com textos quinzenais!