Resenha: "Olhos D´Água" e o retrato das mazelas sociais sob múltiplas perspectivas


(Divulgação)

Conceição Evaristo é peça preciosa para a literatura brasileira. Com passagens e atuações na universidade pública, a escritora e linguista mineira traz, majoritariamente, em suas obras reflexões acerca da questão racial, sendo também uma referência da literatura contemporânea dentro e fora da academia. Seu livro “Olhos D’Água” (Pallas, 2014) compila retratos valiosos do cotidiano sejam eles bons ou ruins a partir das diversas histórias que seus personagens protagonizam.


O primeiro conto, responsável por dar nome à coletânea, narra a angústia de uma filha que, após uma longa e densa trajetória, não lembra a cor exata dos olhos da mãe motivo suficiente para que ela não pense duas vezes em furar a rotina e ir de encontro ao passado.


Leia também: Resenha: "Kim Jiyoung, nascida em 1982" e o duro relato de ser mulher em um mundo misógino


Evaristo empresta sua voz para várias mulheres ao longo do livro, o que talvez seja a sua principal marca. Ana Davenga, esposa do "chefe", que teme a todo instante pela vida do marido; a mendiga Duzu, que carrega consigo marcas de abandono e abuso; Salinda que, sem ao menos achar que um dia fosse possível, cedia ao direito de amar e ser amada com toda intensidade; a menina Zaíta e seu apego incondicional pelos próprios brinquedos.


Ou talvez não seriam todas elas a mesma mulher em momentos distintos da vida?


Conceição Evaristo. (Divulgação/Pallas)

Para além das célebres vozes femininas, há também contos protagonizados por homens, garotos. A autora não se prende ao gênero e a um só tema. As histórias podem ser leves, reflexivas e/ou de denúncia. Da violência urbana ao racismo estrutural, da paixão avassaladora ao autoconhecimento. A morte pode ocupar espaço em várias linhas, é claro, mas elas também não deixam de celebrar a vida. O último conto, “Ayoluwa, a alegria do nosso povo”, por sinal, recupera o que há de mais valioso em qualquer comunidade: a esperança.


Leia também: Resenha: "A filha perdida" lança luz sobre o lado não dito da maternidade e os desejos da mulher


É uma leitura ardente, que te faz pensar e refletir sobre as mazelas sociais e sobre quem a gente é e o que a gente pode ser no meio desse turbilhão. Nessas horas, irei lembrar de quando ela diz: “E quando a dor vem encostar-se a nós, enquanto um olho chora, o outro espia o tempo procurando a solução”.

Nota 5/5.