Resenha: "A filha perdida" lança luz sobre o lado não dito da maternidade e os desejos da mulher

As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender. É com essa frase que Elena Ferrante conclui o primeiro – de inúmeros – devaneios de Leda, no capítulo de abertura de "A filha perdida" (Intrínseca, 2016). Sua protagonista é uma mulher-cis divorciada de 47 anos de idade, professora universitária e mãe. A trama se sustenta sobre as experiências vividas por essa mulher, capaz de atrair julgamentos e identificações na mesma proporção. Leda fala sobre coisas difíceis do passado e do presente que perturbam a sua mente na expectativa de que um dia possa entender e, talvez, perdoar a si mesma.

Suas filhas, Bianca e Marta, já na fase dos vinte e poucos, moram com o pai, no Canadá. Sem o peso dos cuidados maternos de quando as meninas eram crianças, Leda se sente mais livre para dar os próprios passos e o mais importante: sem culpa. Faltando pouco para completar 48 anos, a protagonista de Ferrante decide embarcar sozinha em uma viagem de férias para uma cidade litorânea no sul da Itália. Sem muitas delongas, Leda se instala em um apartamento na costa jônica e os dias se resumem a gozar da tranquilidade que só o mar, os livros e o silêncio da própria companhia são capazes de trazer.


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Não demora muito, uma família napolitana grande e ruidosa chama sua atenção. Mas é uma jovem de no máximo vinte anos com cabelos longos escuros, uma menininha e sua boneca que a deixa hipnotizada. Nina, Elena – como chamam a mãe e a filha, respectivamente – e a boneca parecem viver em um mundo à parte daquele grupo barulhento. E é a partir da relação que essa jovem mãe tem com sua filha, e da relação que a criança tem com a boneca, que Leda abre seu livro de memórias e revela ao leitor segredos perturbadores que nunca havia contado a ninguém.


É uma história que desmistifica qualquer traço de romantismo que impõem sobre a maternidade. Ser mãe não é algo que nasce com a mulher; intrínseco à ela. Com a recente estreia da adaptação de Maggie Gyllenhaal na Netflix, baseada na obra literária, o debate voltou à tona a partir da experiência de Leda que, embora fictícia, é o retrato do que muitas mulheres que se tornaram mães sentiram ou quiseram sentir – porque, na sociedade patriarcal em que vivemos, não é fácil admitir, por um traço de segundo sequer, que você não queria abdicar de tanto por alguém.


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Tanto o livro quanto o filme, que, inclusive, traz um roteiro bastante fiel à obra original, gera incômodo ao tocar nas feridas mais sombrias de uma mulher que, apesar de amar muito suas filhas, sofre com o fantasma da maternidade e com a culpa de não se arrepender de ter se colocado em primeiro lugar no momento em que esperavam que ela agisse diferente. Eu mesma esperei. Mas, conforme me aproximava de Leda ao passo que a leitura avançava, podia compreender suas aflições e impulsos. Cabe ressaltar aqui que é uma história que aborda a maternidade, sim, mas não é só disso que ela trata. Leda também é uma mulher; livre, com desejo e aberta às novas experiências – o que inclui envolvimentos físicos, não diria amorosos, com outros personagens no passado e no presente.


Ainda que esta seja a resenha do livro, não posso deixar de destacar o trabalho fenomenal de Gyllenhaal na direção e roteiro, e do elenco feminino, composto por Olivia Colman, Jessie Buckley e Dakota Johnson. Ambos merecem ser visto e lido; filme e livro. Porém, nada supera, claro, o contato direto com o texto brilhante de Ferrante. Só ela – sob um pseudônimo nunca revelado, apesar dos palpites – é capaz de causar, ao mesmo tempo, tamanha identificação e desconhecimento.

Olivia Colman interpreta Leda na adaptação audiovisual. | Foto: Reprodução Netflix

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