Quatro coisas que "Relatos do Mundo" não te conta sobre o faroeste

Relatos do Mundo, filme da Netflix, concorre ao Oscar nas categorias de Melhor Design de Produção, Melhor Som, Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Fotografia. O longa de faroeste conta com Tom Hanks no elenco, e tem direção de Paul Greengrass. Como o filme retrata um momento muito específico da política estadunidense e esse aspecto é importante para entender a mensagem, a ideia desta lista é apontar alguns fatos sobre o contexto para complementar e criticar Relatos do Mundo.

Seguindo com o Oscar Delas, eu decidi assistir ao filme Relatos do Mundo. Uma só olhada no pôster é suficiente para saber que se trata de um filme de faroeste com o Tom Hanks. Pronto. É isso o filme. Brincadeira, vou dar uma chance dele se redimir contando a sinopse do longa: um homem encontra uma órfã que foi criada por uma tribo, e deve levá-la à residência de seus parentes brancos para que ela seja reintroduzida na sociedade.


Relatos do Mundo traz as principais convenções do gênero faroeste, como fugas em carroças, pistolas e… Representações duvidosas de indígenas da região dos Estados Unidos. A ideia era escrever uma crítica, mas eu nem tenho conteúdo para tal porque o filme é extremamente previsível. Quer assistir a algum filme de faroeste? Recomendo o Bravura Indômita dos Coen. Quer assistir a algum filme sobre se tocar do sentido da vida graças a uma viagem com uma criança? Recomendo Central do Brasil. Simples assim.

Foto: Reprodução

O que Relatos do Mundo tem de previsível, ele também tem de superficial. A gente aprende sobre a marcha para o oeste na escola e tudo mais, porém convenhamos que a História estadunidense não está fresca na mente de quase nenhum brasileiro, né? Relatos do Mundo peca por não trazer uma contextualização mais clara sobre o momento histórico, nem fazer uso profundo dos debates sociais vigentes na época — uma época em que ocorreram muitas mudanças políticas!


Por isso, decidi trazer algumas questões relacionadas a Relatos do Mundo para complementar a mensagem do filme (e problematizar um pouco o enredo, também).


É baseado num livro da autora Paulette Jiles


Relatos do Mundo é originalmente um romance faroeste publicado em 2016. O livro chegou a ser um dos finalistas para o Prêmio Nacional para Livro de Ficção nos Estados Unidos. A história do sequestro da órfã Johanna foi, na verdade, inspirada no livro The Captured de Scott Zesch. Esse romance, por sua vez, narra o roubo de um garoto por comanches, e sua criação na tribo como guerreiro. Vale ressaltar que tanto Scott Zesch quanto Paulette Jiles são brancos.

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Quem são os Kiowa?


A tribo que sequestra Johanna e assassina seus pais se chama Kiowa. Eles estão localizados na região de Oklahoma e estimava-se, em 2011, que havia 12 mil integrantes na tribo. Um dos Kiowa mais famosos é o jogador de futebol Chris Wondolowski, que é indígena por parte de mãe. O idioma da tribo Kiowa está em risco de extinção, com apenas 20 falantes contabilizados em 2012.


Por que estou falando tudo isso? Relatos do Mundo parece não saber ao certo qual tom dar aos indígenas. Ora presume-se certo julgamento negativo pelo assassinato dos pais de Johanna, ora o longa faz uso de mistificações em torno da cultura Kiowa para efeitos estéticos. Johanna é fluente no dialeto Kiowa e segue os princípios da tribo em que foi criada, mas seu comportamento é sempre visto como impróprio pelos brancos em cena. O mais interessante é que os indígenas em si são retratados sempre ao longe, sem foco na câmera, e não possuem nenhuma fala no filme.

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O governo em Relatos do Mundo


Os sulistas criticam numa cena o presidente abolicionista. Relatos do Mundo se passa em 1870, época em que presidiava Ulysses S. Grant. Um dos marcos do seu governo foi o acompanhamento no processo de libertação de escravos nos Estados Unidos — daí a insatisfação do pessoal do Texas, que ainda praticava o tráfico de africanos.


Na década de 1860, estimava-se quase 4 mil escravos, e menos de 500 mil afroamericanos livres (o que equivale a 11% dos pretos no país na época). O período em que é ambientado Relatos do Mundo garante liberdade aos 4,8 milhões de afroamericanos nos Estados Unidos. Onde estão os pretos no filme? Não o vimos. O conflito de interesses quanto à escravidão é mencionado de passagem, mas nunca com a devida importância — o que é curioso, considerando que o personagem de Tom Hanks é um “leitor de notícias” e termina sendo censurado em alguns momentos pelos escravistas por contar relatos inconvenientes.

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Conflitos com indígenas


Relatos do Mundo deixa bem evidente a perspectiva negativa enfrentada pelos indígenas. Mas qual é o contexto? Para isso, devemos puxar um pouquinho as aulas de História: o tal do Destino Manifesto incentivou estadunidenses a marcharem ao oeste e conquistarem (lê-se: roubar) territórios de indígenas, certo? Vamos voltar nesse ponto daqui a pouco.


O governo do presidente Ulysses S. Grant não só cuidou do fim da escravidão como também criou políticas de cuidado aos indígenas. O gabinete do projeto foi liderado por Ely S. Parker, um seneca e o primeiro indígena a assumir tal posto. Isso parece revolucionário, né? O auxílio do presidente aos indígenas baseava-se na ideia de que “Deus não colocou raças no mundo para que os mais fortes destruam os mais fracos”. Até aí tudo bem.

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Só que se lembra do Destino Manifesto? A ideia do presidente Ulysses e de quase todo branco na hora de “ajudar” indígenas era basicamente inseri-los na sociedade estadunidense, seguindo sua cultura e religião e abrindo mão de todos os ensinamentos da tribo (isso não te lembra de ninguém… tipo os jesuítas no Brasil?). É óbvio que os indígenas reagiram mal, e essa ação de “aculturação” acontece em vários momentos de Relatos do Mundo com Johanna, por ser uma branca que “acha que é indígena”. Contudo, como comentei acima, nenhum indígena tem fala no filme então ficamos limitados a Johanna como representatividade, o que é muito problemático e superficial.


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