Precisamos falar sobre a erotização e padronização dos seios femininos!

O ano era 2011 e ouvimos pela primeira vez o meme dos mamilos: “Mamilos são polêmicos”. Certamente, assim como eu, você naquele momento riu e achou o vídeo um tanto quanto engraçado né? Mas a verdade é que sim. Os mamilos são polêmicos. Bem, os mamilos femininos no caso. Quer dizer, não só o mamilo, mas todo o seio feminino é polêmico. E por mais que a gente tente achar um motivo para todo esse tabu com os nossos seios ainda é difícil. No #Taburóloga de hoje vamos falar sobre esse assunto, ouvir depoimentos e tentar quem sabe, desconstruir um pouco essa ideia que temos sobre a erotização e padronização esperada nos nossos seios.


Chega de padrões! | Ilustração: Furta.co

“Seio de mãe” x “Seio de mulher”


De onde vem essa erotização do seio feminino? Se pararmos para pensar, uma das primeiras associações que temos quando nascemos é que do peito da nossa mãe que vem a nossa fonte de energia, o nosso alimento. Mas de acordo com a Maria Lucia Homem, psicanalista e professora do núcleo Diversitas da USP, é justamente por isso que o seio representa de um objeto primário de relação entre um ser humano e outro: “O seio é a primeira alteridade, revelação do desejo, e relação com algo além do próprio corpo. É atravessado por eros, no sentido do corpo, da naturalidade, da vida.”


Depois de uma certa idade o seio materno se torna algo interditado e é nesse momento que surge a diferenciação do que é o “seio de mãe” e “seio de mulher”. Sim, porque automaticamente é a partir daí que criamos uma definição involuntária em nossa cabeça: seio de mãe é mole e caído e seio de mulher é duro e firme. E é por isso, que a sexualização do corpo feminino anda de mãos dadas com a cultura machista da nossa sociedade. Nas duas associações o corpo feminino está relacionado à satisfação: primeiro é fonte de alimento e depois fonte de prazer.


E é claro que a cultura europeia também tem grande influência nessa associação. Em outras culturas como indígenas e africanas por exemplo, essa referência pouco existe, já que o corpo é visto como parte da natureza. O corpo é natural para eles, sendo assim o seio também.


A realidade


Eu tinha 12 anos quando questionei a mim mesma a ausência de seios. Naquela época já existiam várias meninas na minha sala que tinham peitos formados e quem tinha pouco ou tinha muito era motivo de bullying. É claro que em 2009 o nome não era esse, mas sim, o simples fato de não ter seios volumosos me fez ser zoada no colégio, principalmente pelos meninos. É engraçado pensar como sempre escolhem o nosso corpo para atacar e nos fazer sentir inferiores a eles.


O desejo de ter seios, muitas vezes faz com que meninas usem objetos para dar mais volume. | Foto: Masha Mel

Foi quando meu seio começou a crescer que vi uma chave virar na cabeça dos meninos da minha turma. Eu não era mais a “despeitada” e magricela. Agora eu tinha algo a mais e isso fez com que os olhares mudassem. E é ai que começa a nossa problemática com os nossos peitos. Na grande maioria dos casos o desconforto por tê-los à mostra cresce, usar uma blusa onde nossos mamilos apareçam em evidência nem pensar e andar sem sutiã na rua se torna algo totalmente desagradável.


Assim como eu, Jady Sacalem de 20 anos, também se sente desconfortável quando o assunto é ter seus seios em evidência e até já ouviu comentários bem desagradáveis por isso.


O desconforto vem dos olhares e até mesmo cochicho. Uma vez uma conhecida falou p mim “nossa, vai colocar um sutiã. Seu bico está marcando muito, fica feio”.

Já Maju Alves, bailarina de 21 anos, precisou de tempo para aprender a lidar com esses comentários e até parar de se importar com esse tabu envolvendo os seios femininos.


Quando eu era mais nova eu quase não tinha seios porém mesmo assim usava sutiã por conta dos comentários e por achar que toda mulher era obrigada a usar, né. Depois que fiz uns 17 comecei a me questionar do porque os seios femininos eram sexualizados. Então comecei a trabalhar em mim para não usar e me aceitar, até pelo tamanho dos meus seios, a minha aceitação veio mais quando completei 18 anos e me senti mais mulher. (...) Acho que a indústria pornografica influencia muito, pois geralmente os homens esperam que tenhamos seios grandes e "durinhos" é essa realidade é longe em diversas mulheres. então demorei a me aceitar por conta desse padrão mesmo que criaram.

Devolvam os corpos femininos para as mulheres!


Por incrível que pareça, o corpo da mulher como um todo é praticamente uma propriedade pública. A gente não pode optar, porque desde o início dos tempos optaram por nós. No ano passado por exemplo, o senado havia aprovado uma multa para as mulheres que amamentarem em público. E como a gente falou no começo deste texto, a amamentação tá ligada inteiramente com nutrição e fonte de energia para um outro ser. Qual o motivo de tanto tabu com o seio feminino?


Já o topless não é proibido legalmente, mas é moralmente julgado. Quantas vezes você já viu episódios com seios à mostra na televisão ou nas praias que geraram polêmica nos últimos anos?


Para reverter a erotização com o seio feminino, é preciso dissociar a ideia do corpo da mulher ser fonte de pecado. É preciso devolver o direito pelo corpo feminino á mulher. É preciso entender que não nascemos para ser fonte de prazer para o homem. E que ter nossos seios á mostra ou nossos mamilos em evidência através de uma roupa, não é crime e sim algo natural.


Nós somos diferentes e nossos seios também! | Ilustração: Anne Ulku

E para as leitoras do Telas Por Elas, faço um convite para que começamos a ter uma relação mais amorosa com nossos corpos. Não existe padrão para o nosso corpo. No caso dos seios, não precisamos que eles sejam grandes e firmes como muitos homens esperam por aí. Aprenda a olhar com mais carinho para o seu corpo. Acredite, ele é lindo e única pessoa que precisa acreditar nisso é você!


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Já pensou como a vida seria muito mais simples se a gente falasse mais sobre alguns tabus? Esse é um dos objetivos da categoria “Taburóloga”, que conta com textos quinzenais!