Por que romances lésbicos nos desenhos incomodam tanto?

Dia 29 de agosto foi o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica e é óbvio que a data não poderia passar batida por aqui, né? Para o “Vamos Polemizar? de hoje a gente resolveu se perguntar onde estão as personagens lésbicas nos desenhos animados e, ao mesmo tempo, por que a existência delas incomoda tanto.



Se ver na TV importa


Que representatividade é importante já sabemos. Não à toa meus desenhos favoritos sempre foram os que tinham protagonistas femininas - e sei que para muitas meninas também foi assim. Os grandes estúdios internacionais há alguns anos já trazem produções com protagonistas femininas, como "Três Espiãs Demais", "As Meninas Superpoderosas", "O Clube das Winx", "Kim Possible" e por aí vai. Mesmo que ainda presas a personagens majoritariamente brancas e a estereótipos de gênero, elas estão ali.


Mas a representação LGBTQIA+ nos desenhos animados ainda parece ser uma questão delicada para os estúdios. Recentemente o criador de “Gravity Falls”, Alex Hirsch, disse no Twitter que a Disney o proibiu de colocar qualquer representação LGBTQIA+ no desenho porque “aparentemente o ‘lugar mais feliz do mundo’ é o ‘mais hétero’”. Isso sem falar no Bob Esponja, que só agora em 2020 a Nickelodeon foi assumir que ele faz, sim, parte da comunidade LGBTQIA+ (sem especificar exatamente).


Ok, mas cadê as lésbicas?


Como já falamos aqui no Telas, há um evidente apagamento lésbico tanto no movimento LGBTQIA+, quanto na sociedade de maneira geral. Vivemos em um mundo machista e homofóbico e, por isso, ser uma mulher que se atrai por mulheres é quase uma sentença de silenciamento social. Mas há quem desafie essas normas e consiga trazer um pouco de representatividade para as pequenas meninas (ok, e meninos também).


Desenhos recentes vêm abraçando mais a diversidade LGBTQIA+ e isso é muito importante. Entre alguns dos mais famosos temos o tão suspeitado Princesa Jujuba e Marceline em "Hora de Aventura", Arlequina e Hera Venenosa em seu longo histórico nos quadrinhos e séries animadas (e, quem sabe, em filme) e um dos mais recentes confirmados na série "She-Ra e as Princesas do Poder".


Hera Venenosa e Arlequina engatam um relacionamento amoroso. | Foto: Reprodução

Noelle Stevenson é criadora da nova versão de She-Ra e assumidamente homossexual. Ela já disse em algumas entrevistas que sempre teve vontade de fazer o romance Catradora (Adora e sua “frenemy” Catra) se realizar - até que conseguiu. “Meu maior medo era mostrar meu objetivo muito cedo e eles [os produtores] me dizerem que eu não poderia fazer isso”, disse em entrevista e que, por isso, seu plano era fazer o romance aparecer aos poucos. “É muito vulnerável, especialmente sendo uma criadora homossexual, chegar e falar ‘isso é o que eu quero fazer, eu quero pegar She-Ra, a Princesa do Poder, uma clássica personagem icônica com muito legado e dar a ela um interesse amoroso feminino e um romance final’”.



O tão aguardado beijo Catradora. | Foto: Reprodução

E por que o amor incomoda?


Acho que todo membro da comunidade LGBTQIA+ e aliados já se perguntaram: por que o amor fora do padrão heteronormativo incomoda tanto? Por que as pessoas se sentem ofendidas de verem um casal gay num desenho animado? Não há nada de impróprio ou imoral em ser gay ou bissexual ou assexual ou qualquer outra orientação sexual. E é isso que deveríamos ensinar às nossas crianças.


Nenhum desses desenhos (cujo público alvo é o infantil, mas traz uma legião de fãs mais velhos também) conseguiu representar um casal lésbico sem ser alvo de críticas e boicotes. Ainda no começo dos anos 2010, os criadores de “Avatar: A Lenda de Korra” deram um passo gigante para essa representação - talvez sem saber do peso que isso teria. Ao longo dos livros acompanhamos a evolução da relação de Korra e Asami para, no final, comprovar que sentimentos amorosos de fato surgiram. Mas, acredite, mesmo com toda a clareza, ainda teve gente que não acreditou no romance ou que criticou.

Cena final de Korra e Asami. | Foto: Reprodução

Após toda a repercussão do último episódio, um dos criadores, Bryan Konietzko, escreveu uma carta pública em seu blog para tirar todas as dúvidas e explicar como chegaram a esse final. Basicamente, a ideia do romance entre as duas surgiu naturalmente no fim do primeiro livro, mas, por medo do estúdio negar, eles postergaram a relação o máximo possível. Até que decidiram lutar pelo romance e, com algumas ressalvas, conseguiram o final romântico que queriam.

“Mas essa decisão em particular não foi feita só por nós dois [Bryan e Michael Dante DiMartino, co-criadores]. Nós fizemos por todos os nossos amigos, família e colegas queer. Já faz muito tempo que a mídia (incluindo a mídia infantil) precisa parar de tratar pessoas não-heterossexuais como não-existentes ou como algo para ser ridicularizado. Eu apenas sinto muito que levamos tanto tempo para ter esse tipo de representação em alguma de nossas histórias”.


Lésbicas existem, sim!


Meu ponto com esse texto todo foi fazer você revisitar sua memória e procurar quantas personagens lésbicas em desenhos animados você cresceu vendo. E, sabendo que a resposta vai ser poucas ou nenhuma, te fazer questionar: por que personagens lésbicas nos desenhos incomodam tanto? Por que o amor não-heterossexual e, principalmente, o amor entre mulheres não é tão representado em desenhos infantis? O que há de tão impróprio em uma relação lésbica que não pode ser mostrado para crianças? No mais, te convido também a ver os desenhos que citei, como She-Ra. Veja você, mostre para crianças próximas (se tiver) e vamos viver o amor.



*Uma ressalva importante de se fazer é que os criadores de Avatar assumiram que Korra é bissexual. Apesar de o texto focar na visibilidade lésbica, achei justo mencionar seu caso com Asami por saber que abriu caminho para outros romances femininos.


Leia também: "Lista: vai ter sapatão em série e filme, sim, e se reclamar vai ter mais"


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