• Victoria Rohan

Por que grandes estúdios não investem em super-heroínas?

Acho que falo por qualquer criança brasileira nascida no final dos anos 90 que uma das melhores coisas da nossa infância era almoçar vendo “X-Men: Evolution” e “Liga da Justiça” no Bom Dia & Cia. Eu particularmente não perdia um episódio e era apaixonada pela Tempestade e pela Mulher Gavião. E sei que essa paixão toda contribuiu (e muito) para continuar acompanhando esse universo de super-herói até os dias de hoje. Mas me entristece ainda ter tão poucos filmes com mulheres heroínas e é por isso que o “Vamos Polemizar?” de hoje questiona: por que grandes estúdios não investem em super-heroínas?



Heroínas em números


Só desse novo universo da Marvel temos 29 filmes lançados e/ou previstos até 2022. Desses 29, apenas dois focam em protagonistas femininas: Capitã Marvel (2019) e Viúva Negra (2020). Isso é surreal. A DC não fica muito atrás não, tá? No total, tem “Mulher-Gato” (2004), “Mulher-Maravilha” (2017) e “Aves de Rapina” (2020). Enquanto isso as versões e mais versões de Homem-Aranha, Batman e Coringa são gravadas a rodo. O filme com o herói branco foi um fracasso de bilheteria ou a crítica caiu em cima? Não tem problema, é só gravar uma nova versão. Agora vê se a “Mulher-Gato” teve essa mesma chance.


Halle Berry interpretou a Mulher-Gato em 2004. | Foto: Reprodução

E a gente fatura, tá? Só para vocês terem uma noção: “Mulher-Maravilha” (2017) faturou US$ 821,8 milhões e “Capitã Marvel” (2019) conseguiu uma bilheteria de US$ 1,128 bilhão. Além disso, uma pesquisa feita pelo Shift7 em 2018 mostrou que filmes com mulheres protagonistas têm uma arrecadação maior do que aqueles sem. Ou seja, investir em heroínas é, sim, lucrativo.


Heroínas e representatividade


Pode já estar chato, mas é que basicamente todos os nossos textos caem nesse mesmo ponto: representatividade importa. Uma pesquisa feita pela BBC America e pelo Women's Media Center em 2018 sobre representação feminina nos gêneros sci-fi e super-herói trouxe dados que só comprovam isso. Quase metade das meninas disseram que a Mulher-Maravilha era o herói favorito delas, enquanto quase metade dos meninos disseram ser o Batman.

Mulher-Maravilha é a super-heroína favorita das meninas. | Foto: Divulgação

Essa falta de representatividade interfere nos exemplos de referência a seguir. Personagens heróis masculinos cumprem o papel de “role model” para 36% dos meninos de 5 a 9 anos e 12% de 10 a 19. Enquanto, para as meninas, as super-heroínas apareceram somente para 18% das meninas entre 5 e 9 e 3% entre 10 e 19. Isso é porque, se a gente não se vê nos filmes, não entra para a lista.


Por que não investir?


Ainda nessa pesquisa, todo mundo parece querer mais filmes com super-heroínas. Apesar do sentimento ser mais forte entre as garotas (mais de 85%), os meninos também desejam isso (69%). Com isso, volto à pergunta inicial: por que grandes estúdios não investem em super-heroínas? A resposta é simples: o público-alvo dos filmes de super-herói é o homem cis branco hétero.


Nerds: o empecilho para a representatividade


Aqui no Telas já vivenciamos isso. Toda notícia que envolve representatividade no universo de super-heróis a gente já espera pelo menos um comentário atacando ou falando que é mimimi. Porque a verdade é que a tal figura do “nerd” fica incomodada quando não se vê no centro de todas as produções que sempre foram voltadas para eles. Basta reparar quais filmes eles mais atacam.


Como eles são o principal público que consome esses conteúdos dos grandes estúdios, isso se reflete em todos os aspectos dos filmes. Não à toa “Aves de Rapina” e “Mulher-Maravilha” - ambos dirigidos por mulheres - trocaram os uniformes das principais e não tiveram um close de bunda. É sério, pode conferir. Mas bastou Gal Gadot aparecer em “Liga da Justiça” que, em menos de 20 minutos, já tínhamos visto dois closes de seu corpo. Não preciso nem falar das diferenças nas roupas da Arlequina em “Esquadrão Suicida” e no filme próprio, né? E, claro, nenhuma dessas mudanças veio sem um rebuliço dos nerds na internet.


Imagens promocionais de Arlequina em "Esquadrão Suicida" e "Aves de Rapina".

Eu não vou repetir a pergunta que dá nome a esse “Vamos Polemizar?” porque já entendemos muito bem a resposta. A verdade é que representatividade é lucrável até certo ponto e os grandes estúdios sabem muito bem disso - até porque eles mesmos são os tais homens brancos cis héteros. Mas deixo aqui registrado meu carinho pelos meus filmes de super-heroínas do coração e sei que falo por muita gente quando digo que queria mais.


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A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.