"Os 7 de Chicago": 4 fatos que realmente aconteceram no julgamento histórico

Se você, como a gente, ainda está na maratona para os Oscar - que acontece no próximo domingo (25) - provavelmente já assistiu ao longa "Os 7 de Chicago" (2020). Digo isso porque, além de ser um filme com três artistas de peso no elenco - Sacha Baron Cohen, Eddie Redmayne e Joseph Gordon-Levitt -, é uma das produções da Netflix que está concorrendo à estatueta de Melhor Filme - o que faz com que o acesso à obra seja facilitado, né?


É uma recomendação perfeita para quem gosta de trabalhos que discutem questões políticas importantes, como o Oscar (por livre e espontânea pressão) vem valorizando cada vez mais. Todo enredo principal é baseado em fatos reais. O grupo realmente era conhecido pelo nome "7 de Chicago" e todos os personagens de grande relevância realmente existiram. Mas sobre o que exatamente fala o longa americano e, mais importante, o que é representado no filme realmente aconteceu daquela maneira? Além de explicarmos rapidamente a sinopse e a confusão que foi estopim para o julgamento dos sete homens, vamos apontar cenas importantes do roteiro que foram reais - daquelas que, quando a realidade é tão impactante, a ficção nem mexe.


Mas é importante salientar: o texto contém spoilers. Porém, levando em conta mais uma vez que se trata de uma história real, não há nada que você não descobriria em uma rápida lida na Wikipedia. E nenhum dos spoilers atrapalha o desenrolar do filme, já que a narrativa é muito mais sobre diálogos e posições do que, de fato, o que aconteceu.

Foto: Reprodução / Netflix

Sobre o que é "Os 7 de Chicago"?

Tudo começa com a Convenção Nacional Democrata de 1968, que aconteceu em Chicago, para escolher quem seria o representante do partido nas eleições presidenciais que aconteceriam em novembro daquele ano. Muitos líderes democratas, por dentro da dança política, queriam que Lyndon B. Johnson concorresse à reeleição. Porém, o ex-presidente tinha uma visão extremamente anticomunista e era favorável à continuação do conflito no Vietnã, que aconteceu entre 1955 a 1975. Por isso, muitos movimentos de esquerda, contrários à guerra, eram contra a indicação de Johnson pelo partido democrata e resolveram realizar um protesto.


Inicialmente, o objetivo era conseguir autorização da prefeitura para que os manifestastes pudessem marchar partindo do comércio central até o centro no qual ocorreria a Convenção. Além disso, buscavam aval para acampar no Lincoln Park, levando em consideração que grande parte do público não era de Chicago. Após diversas tentativas, todos os pedidos foram negados e tudo o que conseguiram foi a possibilidade de montar uma concha acústica no Grant Park, com um toque de recolher às 23h para quem estivesse no Lincoln Park - próximo ao local da convenção.

Os 7 de Chicago reais, com seus dois advogados | Foto: Reprodução / Netflix

Entretanto, a falta de autorização municipal não impediu os manifestantes. O comício autorizado, em 28 de agosto, reuniu cerca de 15 mil pessoas. Após o evento, grande parte dos ativistas tentaram marchar até o centro em que estava ocorrendo a Convenção, porém, foram barrados pela polícia. Na confusão, manifestantes foram empurrados e os policiais utilizaram gás lacrimogêneo e cassetetes para espancar diversas pessoas. Do outro lado, o grupo respondeu com pedras e garrafas, além de destruição de propriedades privadas.


Dezenas de pessoas - incluindo manifestantes, policiais e jornalistas - foram feridas. Como resposta, um júri federal indiciou oito manifestantes, acusados de provocar tumulto e incentivar violência. E a partir daí, temos a formação do julgamento que deu origem ao filme.

(Foto: Reprodução / Library of Congress; Lavra Palavras; Netflix)

Tratamento desumano de Bobby Seale

Um dos momentos mais impactantes do filme é quando Bobby Seale (Yahya Abdul-Mateen II) é amordaçado e amarrado em frente ao júri. O membro do Panteras Negras caiu de cabeça no julgamento, sendo o oitavo indiciado que, mais tarde, é retirado do processo. O que acontece é que o advogado de Seale teve que passar por uma cirurgia de emergência, deixando-o sem representante legal. O juiz Hoffman (Frank Langella) ordenou que Bobby fosse representado pelos advogados dos outros sete - entretanto, o homem não queria ser defendido por brancos. Assim, o Pantera Negra o chamava frequentemente de "fascista" e "racista".


Cansado de ouvir insultos, Hoffman manda dois policiais levarem Bobby a uma sala - na qual é espancado, amarrado e amordaçado. A ação, que comprova que as acusações estavam mais que certas, causou reboliço no tribunal. É uma cena que retrata o inaceitável, de embrulhar o estômago e que, não só realmente aconteceu, como foi atenuada na adaptação para o filme. No longa, Bobby permanece na posição degradante, podendo apenas acenar com a cabeça, durante um dia de julgamento - no momento seguinte, ele já é retirado daquele processo e volta a esperar julgamento por outro crime que estava sendo acusado (que, surpresa: ele também não cometeu).


Na vida real, Seale permaneceu durante três dias de julgamento amarrado e amordaçado até o momento em que William Kunstler (Mark Rylance), advogado dos 7 de Chicago, protestar que o tribunal tinha se tornado uma câmara de tortura. O episódio é narrado em detalhes no livro escrito pelo próprio Pantera Negra, "Seize the Time" (1970).

(Foto: Reprodução / Popsugar; Netflix)

Comportamento inadequado do juiz


A partir do momento em que descobri que o tratamento de Bobby foi real, não me surpreendi em absolutamente nada quando li que o comportamento do juiz Hoffman era tão inadequado quanto o filme retrata. Toda vez em que algum dos réus ia protestar sobre algo - mesmo que fosse pertinente e verdadeiro, como a falta do advogado de Bobby no tribunal -, Hoffmann acusava-os de desacato. Na vida real, as acusações individuais por desrespeito ao juiz ultrapassam a marca de 175. O advogado do grupo chegou a ser condenado à prisão por não se referir ao homem como "Vossa Excelência", mas apenas pelo sobrenome.


Como o próprio filme mostra, na época foi feita uma pesquisa entre americanos sobre a postura do profissional ao longo do processo. O resultado foi claro: 80% das pessoas desaprovavam as táticas utilizadas durante o tribunal. Mas, então, o que aconteceu ao juiz depois dessa polêmica? Basicamente nada. Chegou-se a conclusão de que o julgamento de Hoffman não foi imparcial e os cinco condenados - dois foram inocentados -, tiveram suas penas desfeitas. O juiz continuou trabalhando e até mesmo escreveu um livro sobre o seu trabalho, de forma geral.


Na década de 1980, um comitê executivo determinou que Hoffman não recebesse mais casos (por que ele não era preparado ou por que, ele próprio, já havia cometido crimes durante um tribunal? Não). O motivo era simplesmente sua idade - já se aproximava dos 88 anos. Portanto, ele continuou com os casos que já haviam sido iniciados até terminar o trabalho por completo. No ano seguinte, morreu de causas naturais, pouco antes de seu aniversário.

(Foto: Reprodução / Poster Museum; Netflix)

Provocações recorrentes


As provocações de Abbie Hoffman (Sacha Baron Cohen) e Jerry Rubin (Jeremy Strong), anarquistas e fundadores do Partido Internacional da Juventude, ao juiz são as partes cômicas do filme. E o melhor é que praticamente tudo é verdade - inclusive os dois vestidos com togas similares às do juiz e, por baixo, estarem com roupas de policiais - como você pode ver na foto à cima. Além disso, o ativista Hoffman vivia fazendo piada com o fato de ter o mesmo sobrenome que o juiz, o chamava pelo primeiro nome constantemente e lia poesias para o júri.


Rubin também afirmou algumas vezes, durante o julgamento que "a corte era uma piada" ("This court is bullshit") - quem também fez essa polêmica afirmação foi o companheiro de Hayden, Rennie Davis (Alex Sharp). Já Abbie que, assim como o outro Hoffman, era judeu, afirmou que o juiz teria servido Hitler durante o holocausto e disse uma frase que ficou marcada na história: "a sua ideia de justiça é a única obscenidade nesta sala" - em referência ao comentário do juiz sobre o comportamento dos ativistas.


Bem pesadas as falas, mas, quando você lembra do quão baixo o profissional chegou, faz todo sentido.

Tom Hayden e David Dellinger no filme | Foto: Reprodução / Netflix

Homenagem aos mortos na guerra


Esse último parágrafo contém um spoiler um pouco mais específico, por isso, caso queira parar a leitura por aqui, fique à vontade.


O filme, antes de cortar para mensagens sobre o que aconteceu aos participantes após o julgamento, mostra Tom Hayden aproveitando momento de fala para ler o nome de quase cinco mil soldados americanos, que morreram durante o conflito no Vietnã. É um momento bem marcante e emocionante, principalmente quando, logo depois, vemos que Abbie Hoffman cometeu suicídio anos depois do processo e que muitos deles se "converteram" ao lado capitalista da força. Ironicamente, sem contar com o falecido Hoffman, Hayden foi o que mais permaneceu fiel ao compromisso com o partido Democrata.


Enfim, sobre as leituras dos nomes. Isso de fato aconteceu, porém, com algumas modificações. Não foi Tom o responsável por esse ato corajoso e simbólico, mas sim, David Dellinger (John Carroll Lynch), o ativista representante do movimento pacifista. Além disso, a homenagem aos mortos também não aconteceu ao final do julgamento, antes do juiz pronunciar a pena dos condenados. Porém, na minha pesquisa, encontrei algumas versões possíveis.


Há quem diga que David fez essa leitura bem no início, no primeiro dia do julgamento, antes que o juiz chegasse. Há a possibilidade também do ativista ter feito a homenagem 11 dias depois do começo do processo, que durou alguns meses, e com a presença do juiz que, assim como no filme, teria interrompido Dellinger pela quantidade absurda de nomes na lista (de fato, quase cinco mil pessoas é muita gente para morrer, né).


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