O ressurgimento dos pelos durante o isolamento: a relação que temos com a depilação é saudável?


Durante a pandemia do novo coronavírus, nos vimos afastados de todos os nossos familiares, amigos e principalmente os nossos crushes. É nesse momento que eles apareceram sem que nós percebêssemos e tomaram conta de tudo: nossos pelos! Eles vão surgindo pelo nosso corpo e quem nem sequer os via antes do período de isolamento começou até a criar uma certa simpatia por eles. Mas você já parou pra pensar se o simples ato de se depilar é algo que você faz por uma vontade própria? Ou se é uma pressão social imposta a nós mulheres, para estarmos sempre depiladas e livre de qualquer pelo em nossos corpos?


Ilustração: Ayqa Khan

A depilação


Sempre que eles aparecem, a gente nem dá bola e logo trata de acabar com a alegria deles. Seja com cera, lâmina, creme ou laser, desde quando nascem nossos pelos já tem um final certeiro, a depilação. Esse ritual de retirar os pelos do corpo surgiu no Antigo Egito. Naquela época as egípcias faziam o uso de argila, mel e sândalo para remover os pelos da axila, dando assim origem às técnicas de depilação com cera. Já na Grécia, era comum arrancar os pelos com as próprias mãos e, para suportar a dor, as mulheres bebiam muitos goles de vinho.


Mesmo com as mais variadas técnicas de se livrar dos pelos, de acordo com a historiadora Mary Del Priore, esse desejo ficou um tempo adormecido na sociedade. Segundo Mary, os pelos pubianos e da axila tinham um potencial erótico muito grande e representavam um símbolo máximo de feminilidade. Mas, com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, tudo mudou. As roupas perderam as mangas e exibir os pelos, que eram um elemento muito erotizado, seria uma indecência sem tamanho. Com isso, começou a ser aconselhado para as “moças de família” retirarem os pelos.


Anúncio na Harper’s Bazaar de 1922.

A partir dos anos 30, quando apareceram nas farmácias os cremes depilatórios e aparelhos específicos para extração de pelo, se depilar passou a ser visto como um ato de higiene e elegância entre as mulheres. Com o passar dos anos, a depilação foi acompanhando a moda, já que, ao surgir saias e shorts, criou-se o hábito de depilar as pernas também. Hoje em dia, uma mulher que não se depila muitas vezes é vista como menos feminina, suja e desleixada. Mas será que o ato de não se depilar as torna de fato menos mulheres?


Minha experiência com pelos


Desde pequena fui ensinada a retirar meus pelos, já que minha mãe trabalhava em um salão de beleza como nada mais nada menos que depiladora. Cresci com o mesmo pensamento que todas as mulheres, ou, pelo menos, com o que a maioria possui: se depilar é uma ato de higiene. Já na questão estética, isso nem era algo tão forte assim, já que a coloração dos meus pelos era loira e muitos achavam bonito que minhas pernas e braços tivessem a presença deles, mas jamais a minha axila.


De tanto ouvir isso, acabei de fato levando isso pra minha vida. E sempre quando por algum motivo não conseguia depilar minha axila, usava blusas de manga para que essa área do meu corpo não ficasse à mostra. Era como se, em todos os lugares que eu fosse, alguém perceberia e me julgaria. Além das axilas, com o passar do tempo, mesmo achando bonito ter pelos loiros nas pernas, passei a depilá-las de quinze em quinze dias numa tentativa de fazer com que eles desaparecessem daquela e de outras regiões do meu corpo.


Foto: Reprodução Pinterest

No isolamento social eles venceram!


Se antes do isolamento social eu depilava minhas pernas frequentemente, depois de passar todo esse período em casa, minha perna voltou a ser o que era antes: completamente cheia de pelos. E foi nesse momento que percebi que até gosto delas assim, e passei a me questionar o motivo de me depilar. O isolamento de fato trouxe, a várias mulheres, esses questionamentos sobre a depilação. Ana Beatriz*, estudante de serviço social, e Melissa Luz, estudante de biologia, pararam de se depilar durante o isolamento social e concordam que depilação não é um ato de higiene, e sim uma forte questão de padrão estético.


“Não sei exatamente por que parei de me depilar na quarentena, talvez preguiça ou por perceber que eu acabo me depilando por sair mais e pela forma que as pessoas enxergam a gente na rua com uma perna mais peludinha. Durante o isolamento, eu não deixei de ser limpa e cheirosa, já que muitos acham que a aparência dos pelos dá uma ideia visual de sujeira e não ter pelo nenhum traz a ideia de algo mais limpo. Minha irmã mesmo ficou reclamando comigo sobre isso, eu expliquei pra ela como enxergava, que não era um problema ter pelos. Me afeta me chamar de suja, acho uma visão muito fechada. Entendo que, no começo da pandemia, a gente teve um primeiro momento mais estressante, cansativo e o autocuidado acaba ficando meio "sem importância", com tanta ansiedade e coisas desse tipo, mas passou e agora não me sinto mais assim.” Ana Beatriz*

“Antes era sempre "meu deus, vou depilar minha axila, o que vão pensar..." isso mostra o quanto as pessoas cobram da gente uma coisa que é natural né?! Depilação é uma questão total de estética e padronização, nunca me senti suja em não me depilar. Minha mãe mesmo comenta sempre, eu não me importo muito, então nunca foi um constrangimento pra mim, vindo dela ou de outras pessoas. Mas ainda é uma luta gradual pra tentar ficar totalmente "nem aí" para o que as pessoas pensam sobre isso. Ainda sim, rola a sensação de desconforto em relação ao que a pessoa vai achar.“ Melissa Luz

Julgamentos da sociedade


O medo de ser julgada por ter pelos à mostra é algo visto diariamente. Mesmo quem nunca sofreu nenhum tipo de pressão sobre o assunto é bombardeado por notícias de que muitas mulheres influentes, ao optarem por não se depilar, sofrem julgamentos por isso. Suja, desleixada, porca, feia, nojenta, “feminazi”... são diversos os adjetivos usados para “diminuir” uma mulher que ESCOLHE não se depilar. Afinal, a depilação é uma escolha pessoal que abrange todos os sexos — ou pelo menos deveria, né?


Um dos casos mais recentes aconteceu no mês de maio com a ativista e influencer Hana Khalil, ao postar uma foto em sua rede social em que seus pelos da axila estavam à mostra.


Hana sempre se posiciona nas redes sociais e é considerada uma das influenciadoras brasileiras que mais fala sobre feminismo e veganismo. Em seu Twitter, ela fez questão de expor sua opinião sobre os comentários que andou recebendo nas redes sociais:


“‘Eu respeito mulher que tem pelo no suvaco mas não acho bonito’. Eu queria ver se você cria essa problemática quando você vê a foto de qualquer famoso homem no seu feed com suvaco cabeludo numa foto normal. Se você não problematiza isso pra ele, por que tá problematizando pra mim? aff n f***”. Quando é um homem postando uma foto NORMAL dele com pelo no suvaco, vc não vai ver um comentário provocando ou falando sobre isso na foto ou no Instagram dele. É tão difícil assim ver que é uma questão de gênero? serio jurava que ate essa hora nao era mais tao difícil” completou ela.

Mulher x Pelo


Seja na quarentena ou fora dela, é notório que muitas mulheres não possuem uma relação muito boa com os pelos do corpo. Até mesmo as famosas, que quando são clicadas com a axila peluda andam com as outras partes do corpo depiladas, já que não existe sequer um rastro de pelo. O fato de estarmos mais em casa favorece que nossa depilação vá sendo cada dia mais adiada, assim como nos dias de inverno, quando não mostramos partes do corpo que normalmente são repletas de pelo, como braços, pernas e axilas por exemplo.


Ilustração: Mari Ilustra

Desde pequenas aprendemos que mulher com pelo é suja e que ter qualquer vestígio deles no corpo nos tornava menos femininas. Durante o isolamento, eles cresceram sem que nem percebêssemos e nos mostraram que, por mais que a gente insista em negá-los, eles ainda fazem parte das nossas naturezas. E, com tanta coisa acontecendo na nossa vida e no mundo, criar um ritual para retirá-los acaba não tendo tanta importância quanto antes e eles simplesmente vão ficando e ficando…


Esse é um momento para olharmos mais pra nós mesmas e apreciar cada detalhe da nossa natureza sem os tantos retoques que fazemos normalmente. Olhar para o nosso corpo sem tanta cobrança de se adequar ao que desejam ou de parecer algo que não somos. O que pra muita gente pode ser uma questão de desleixo ou falta de higiene é apenas a realidade e por mais que seja difícil entender, mulheres também têm pelos!


“A minha mensagem é de encorajamento. As mulheres devem se sentir confortáveis com seu corpo, cabelo e pelos, isso sim é natural” | Ilustração: Ayqa Khan

Talvez agora, com o isolamento social, seja uma boa hora para questionarmos a neura que temos com nossos pelos e a depilação. Será que nos depilamos porque é algo que gostamos de fazer? Ou será que tudo que fazemos para eliminar nossos pelos é apenas para tentar se encaixar num padrão estético? Não é que de uma hora pra outra a gente vá passar a amar os pelos e abolir a depilação de vez das nossas vidas. Mas quem sabe não seja um bom momento para começarmos a criar uma relação mais saudável com eles?


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