O que te assusta? Racismo e intolerância religiosa em filmes de terror

Por Beatriz Cardoso e Luísa Silveira


Filmes de terror são, em geral, extremamente brancos — seja no aspecto de produção, direção ou elenco. Felizmente, o cenário tem mudado nos últimos anos, com o surgimento e aclamação de talentos pretos, como o diretor Jordan Peele (responsável pelos perfeitos Corra! e Nós) e a estreia da série Lovecraft Country. Mas é impossível reconhecer que o gênero transparece aspectos racistas justamente por essa falta de representatividade, que termina ofendendo minorias raciais e religiosas.


O “Vamos Polemizar” deste sábado (31) comemora o Dia das Bruxas de maneira consciente com a pergunta: do que você tem medo? Seus temores refletem preconceitos? Nós te respondemos com uma análise sobre a representação de minorias no filme de terror estadunidense Jessabelle (2014).

Uma contextualização, antes de tudo


Eu e Luísa somos muito fãs de terror, do tipo que já sabe tudo o que vai acontecer no filme só de ler a sinopse, porque o gênero tem umas conveniências clichês e repetitivas que qualquer um pega depois de assistir a alguns longas. A ideia de analisar Jessabelle surgiu numa noite de tédio em que estávamos vendo Netflix, ocupadas demais procrastinando para fazer trabalhos da faculdade. Encontramos esse filme depois de fuxicar a seção de terror do catálogo e, olha, a gente se arrependeu muito de perder nosso tempo assistindo a Jessabelle.


O lado positivo da experiência é que aproveitamos a situação para transformar nossas críticas em um trabalho acadêmico. Esse “Vamos Polemizar” é o resultado de uma discussão e análise que Luísa e eu tivemos que abriu muito os meus olhos. Nosso ponto de partida é o questionamento: do que você tem medo? O gênero brinca principalmente com aquilo que tememos, já que assistimos a filmes de terror para levar sustos e ter aqueles surtos bons de adrenalina.


O vilão pode ser lobisomens, espíritos, assassinos, o psicológico… Entretanto, basta ver alguns longas para notar que há um claro padrão no que é considerado uma “ameaça desconhecida” no terror. Por exemplo, na franquia Atividade Paranormal (2007-2015), as domésticas latinas estão ligadas à presença de espíritos malignos na casa. Já em Cemitério Maldito (1989), as presenças demoníacas assumem os corpos mortos quando o protagonista decide enterrar membros da família em um antigo cemitério indígena. Enquanto isso, A Chave Mestra (2005) traz como inimigo toda uma religião: o hudu, crença criada por africanos escravizados nos Estados Unidos.


Vemos aí que o terror tende a colocar povos e religiões não brancas como malignas e, consequentemente, antagonistas no filme. E é aí que Jessabelle entra: a principal razão por Luísa e eu odiarmos a história é porque ela é intolerante sem perdão, perpetuando preceitos racistas sobre alguns povos e religiões de matrizes africanas — basta dar uma olhada no enredo para notar isso.


Explicando Jessabelle


[Aviso de spoilers! Mas realmente não recomendamos ver esse filme… Então tanto faz.]

Foto: Reprodução

A história começa quando Jessabelle Laurent (Sarah Snook), mais conhecida como Jessie, sofre um acidente de carro e perde o marido e o filho que estava esperando. Desamparada em uma cadeira de rodas, Jessie deve morar com seu pai, Leon (David Andrews), com quem não fala há anos. Na casa em Louisiana, ela se hospeda no antigo quarto de sua mãe, que morreu de câncer logo após o nascimento de Jessie.


Explorando sua nova casa, Jessie encontra uma caixa com fitas da mãe, Kate (Joelle Carter). Na filmagem, Kate fala como se Jessabelle estivesse fazendo 18 anos e decide ler tarô para prever o futuro da menina — uma prática ensinada pelo seu líder religioso, Moisés (Vaughn Wilson). Quando lê as cartas, a mãe percebe que a casa está assombrada por uma alma indesejada. Jessie logo concorda, pois vem sentindo a presença de uma mulher de cabelos escuros (Amber Stevens) ao seu redor. Enquanto tentava entender melhor a mensagem da mãe, Jessie é interrompida pelo pai, que decide queimar todas as fitas que acha, para afastar a menina das “mensagens malignas” de sua mãe. Porém, forças misteriosas o impedem e acabam matando Leon, o jogando em um galpão em chamas.

Foto: Reprodução

Durante o funeral de seu pai, Jessie reencontra um amigo de infância, Preston Sanders (Mark Webber), e juntos tentam descobrir mais sobre os mistérios que cercam a protagonista. Logo no dia seguinte, os dois atravessam o rio próximo à residência da família, pois Jessie afirmava ver brilhos e luzes estranhas naquela direção. Ao chegarem ao outro lado do rio, descobrem ícones vodu e um túmulo com o nome de Jessabelle — e, lá, guardava o esqueleto de um bebê.


Buscando compreender melhor as pistas, Jessie e Preston vão à casa da Srª. Davis (Fran Bennett), uma velha senhora que trabalhava para a mãe de Jessie e conhecia Moisés. A idosa, desorientada e confusa, apenas repete falas de cantigas que aprendeu em seu país de origem, Haiti. Mas isso é o bastante para assustar o casal. Então, partem em direção a um santuário nas florestas da cidade, destinado a Moisés. Lá, acham flores, velas e restos de sacrifícios de animais. Não conseguem explorar mais o ambiente, pois são atacados por um grupo que protegia a homenagem sagrada.


Finalmente sozinha em casa, Jessie encontra uma fita que o pai não havia conseguido destruir. Nela, vê sua mãe desorientada, gritando “Jessabelle, você já está morta”. Tentando acabar com o mistério de uma vez por todas, Jessie chama o espírito da mulher de cabelos negros que a vigia. Em vez disso, encontra o espírito de sua mãe, que a explica toda história.

Foto: Reprodução

Sua mãe, enquanto ainda era casada com seu pai, Leon, se envolveu romanticamente com o líder religioso preto Moisés. Quando Kate pariu a filha, percebeu que a bebê era, na verdade, preta — confirmando que Leon, branco como a esposa, não era o pai da criança. Em um ataque de raiva, Leon mata a bebê ilegítima e vai até Moisés, o matando queimado — da mesma forma que acabou morrendo, anos depois.


Em uma tentativa de honrar a memória de seu líder e de seus descendentes, os devotos do vodu enterram o corpo de Jessabelle do outro lado do rio — que Preston e Jessie achariam mais tarde — e fazem um santuário para Moisés. Enquanto isso, para não atrair fofocas e não ser associado ao crime, Leon adota uma bebê branca para ser então sua filha, Jessabelle.


Nesse momento, Jesse percebe que a presença indesejada da casa era, portanto, ela mesma, já que não pertencia de fato à família. Como vingança, Moisés e Kate atiram Jesse no rio para que, então, a verdadeira Jessabelle — preta e assassinada — pudesse tomar seu corpo e viver a vida que merecia. Ao retornar a superfície, Jessabelle domina o corpo branco de Jesse e encontra Preston, que a esperava para ficarem juntos.


Quem é o vilão em Jessabelle?

Foto: Reprodução

Jessabelle segue o padrão de filmes de terror de provocar suspense ao representar a protagonista em disputa com uma entidade desconhecida. No entanto, ao adotar como antagonista o espírito da "verdadeira" Jessabelle e sua conexão com o vodu, o longa traz à tona implicações de julgamento de valor quanto a crença e raça.


O roteiro acompanha o ponto de vista da Jessabelle branca, de maneira que ela ocupa uma posição privilegiada e "autêntica" no enredo ao ser retratada como uma heroína, ou a "boazinha" da história. Por exemplo, ao mexer no altar de Moisés, Preston leva uma coronhada da arma de um grupo de fiéis. A cena ilustra Preston como uma vítima injustiçada, só que o bom senso dita que não é respeitoso revirar elementos religiosos de desconhecidos. Assim, a revolta dos homens era justificada.


As "Jessabelles" do filme disputam por serem tão diferentes: uma está viva, a outra morta; uma é branca, a outra preta; uma é legítima, a outra bastarda. Mas o filme se foca principalmente em mostrar o que provoca o medo pelo obscuro na audiência: a religião mística por trás das aparições do espírito de Jessabelle.

Foto: Reprodução

Preston e Jessie impõem sobre o vodu (e sobre a Jessabelle assassinada) a imagem de loucura, surrealidade, mentira. Eles se assumem o papel de vítima e julgam os demais personagens como vilões, então quem assiste ao filme não tem a oportunidade de sentir empatia pela Jessabelle original e sua história trágica, pois a personagem posa como adversária desde o início, sob perspectiva da Jessabelle adotada.


Como consequência, Jessabelle traz uma retratação negativa da cultura vodu e dos “vilões” da história. Em suas aparições, a Jessabelle preta assume uma postura animalesca, emitindo rugidos, grunhidos e gritos. Com exceção à mãe de Jessabelle (que, vale mencionar, é branca), os demais envolvidos com a religião aparecem como pessoas pretas agressivas e violentas.


No vídeo em que a mãe de Jessabelle anuncia a gravidez durante uma festa de Natal, é possível ver que todos os pretos na filmagem vestem uniforme de serviçais. Ou seja, os pretos retratados no filme ou são vistos como agressivos ou como servos. O filme reflete preconceitos presentes para além da tela do cinema, e perpetua a imagem de religiões minoritárias como "equivocadas", ou malignas.

Foto: Reprodução

A cereja no topo do bolo para mostrar que Jessabelle é um filme bem racista aparece no final da história. O desfecho mostra a Jessabelle original invadir o corpo da irmã adotada para retomar a vida, voltando à superfície do lago como caucasiana. É impossível não concluir que tornar-se branca é o objetivo principal da Jessabelle preta — seu final feliz é poder reviver, mas mais do que isso, reviver em um corpo caucasiano. E estamos falando de um filme (em outras palavras, uma obra de ficção), então bem que era uma opção assumir liberdade criativa para mostrar a Jessabelle preta no final da história, indicando que ela enfim conquistara seu destino.


A representação da religião africana deixa muito a desejar em Jessabelle. O enredo constrói uma visão negativa do vodu e de qualquer crença com vínculos africanos. A religião nunca é explicada a fundo, e aparece apenas como um artifício de horror ao filme. A ausência de explicações elaboradas e de um entendimento do vodu como algo complexo acaba invisibilizando ainda mais o povo e sua crença.

Foto: Reprodução

Precisamos do terror feito por pretos


O terror, em especial, por abordar a questão do "medo pelo desconhecido" termina se apropriando de culturas e crenças alheias, e falha em tratar o assunto com a devida responsabilidade. Podemos encarar filmes apenas como entretenimento e diversão, mas não tem como esconder que o preconceito nas telonas ressoa com a realidade. Afinal, quantos casos de intolerância sofrem devotos de religiões de matriz africana no Brasil?



O terror pode parecer inofensivo, mas histórias absurdas e desagradáveis como Jessabelle ajudam a propagar a estereotipação e discriminação de povos minoritários. É algo batido e já muito dito, mas não custa nada frisar: é preciso mais pretos na produção de filmes — seja de qualquer gênero.

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A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.