O envelhecimento feminino no entretenimento, com Avós da Razão e Simone Mazzer

“A mulher tem que se esforçar mais que o homem em tudo na vida. E a mulher mais velha tem que se esforçar o dobro dos jovens para encontrar sua devida atenção”, reflete Sonia Bonetti, integrante de 82 anos do canal Avós da Razão, sobre os desafios impostos por uma sociedade machista às mulheres em todos os setores da sociedade.


Mas se homens e mulheres envelhecem da mesma forma e o tempo e a lei da gravidade agem iguais para ambos os gêneros, por que o peso do envelhecimento é maior sobre as mulheres? É inegável que a idade é um fator crucial para as mulheres socialmente e no mercado de trabalho, por exemplo.


É justamente sobre esse cenário dos preconceitos que envolvem o envelhecimento da mulher que o Vamos Polemizar se debruça neste domingo (26), Dia das Avós e dos Avôs. Mas não se engane ao achar que os tabus chegam apenas na terceira idade. Mulheres de 40 e 50 anos já sofrem boicotes, sobretudo no entretenimento, que tem como regra para o sucesso um padrão estético e jovial muito bem definido pelo machismo, como explica Simone Mazzer, atriz e cantora de 54 anos.


“Vivemos em uma sociedade machista, então, toda a padronagem de vida, de comportamento, de beleza é feita a partir de critérios masculinizados e em um padrão de exigência antigo, pouco empático, preconceituoso e discriminatório.”


Prazo de validade para mulheres no entretenimento?


Além do machismo que permeia a sociedade com padrões equivocados do que é correto e do que é belo, o consumismo é outro fator que fortalece a discriminação contra pessoas mais velhas. Afinal, somos estimulados a consumir o que é novo e, muitas vezes, corpos femininos são vistos como objetos na cultura de massa e pop. Ainda observamos o estímulo à competição feminina e a busca de números para comprovar o sucesso.


Simone, que lançou recentemente o single Nothing Will Be As It Was, propõe uma reflexão sobre como esses padrões de biotipo, estéticos e de faixa etária limitam o trabalho de quem está no audiovisual e na música, como o dela e de tantas outras artistas. Devemos estar atentos a obras que tenham mais representatividade e cobrar de produtores e diretores maior participação de pessoas de todas as formas, incluindo as mais velhas.


"Olha a Meryl Streep, olha a dona Fernanda Montenegro, que coisa maravilhosa, tanta lucidez de artista, de trabalho. Que prazer poder ter uma pessoa dessa trabalhando contigo. Para a Dona Fernanda, não existe essa limitação. Ela consegue, com sua excelência, caminhar pelos mais diversos tipos de personagens, mas vamos abrir um pouco, vamos ver a foto de um ângulo maior porque ainda existe um filtro para artista mais velha."

Limitar o protagonismo às pessoas que estão dentro do que é considerado padrão é limitar o que há de mais belo na atuação, o desafio de interpretar quem quiser e de gerar representatividade. Esse é o ofício do ator para Mazzer. Ela ainda aconselha roteiristas e produtores a escrever personagens protagonistas fora desse padrão estético-jovial imposto.


E isso serve também para empresários no mercado musical e patrocinadores. Em uma sociedade em que o engajamento e qualidade é medido equivocadamente por números nas redes sociais, vemos artistas do naipe de cantoras como Angela Ro Ro pedindo contribuição aos fãs na internet por não ter patrocínios para expor a sua arte em tempos de pandemia. Para Mazzer, isso é reflexo do descaso e do esquecimento por quem já fez tanto pela cultura do país e não está em tanta evidência hoje.


"Falta uma mentalidade menos voltada ao padrão do que vende, pessoas que não se interessem só pelo retorno financeiro, mas se preocupem também com o conteúdo. Particularmente, eu acho um desacato uma artista como Angela Rô Rô não ter patrocínio. Não só a Angela. A gente tem Cida Moreira fazendo live e financiamento coletivo para pagar os seus amigos. Poxa, gente, é a Cida Moreira. A cultura desse país deve muito para ela."

Simone Mazzer | Foto: Reprodução

Sexualidade acima dos quarenta, cinquenta...


Outro ponto que merece destaque no debate é a relação entre o corpo e a sexualidade. Existem tabus que circulam na sociedade como se ninguém soubesse que a gravidade age para todos e mudanças estéticas são naturais do ser humano, inclusive para homens que não são questionados quanto a sua aparência, nem repreendidos pelas suas vidas sexuais ativas. Pelo contrário, são zombados quando não a tem mais.


Mazzer explica que o tabu ocorre também com as próximas mulheres de 40 e 50 anos porque foram educadas a se acharem úteis até determinada idade somente. Depois disso, “você já é velha, você já está caindo, bunda caindo, peito caindo, já está flácida e a pele já não tem aquele viço”. Um padrão construído ao longo de muitos anos e colocado como empecilho para se atingir o sucesso.


Já Sonia, que brinca que está na faixa dos velhos + (acima dos 80), derruba a ideia de que as pessoas velhas são inativas e não fazem mais sexo, bebem e vão a bares, por exemplo. “Velho não trepa, velho não bebe, velho só toma sopinha”, diz ironicamente ao questionar o imaginário social, que é ainda mais forte contra as mulheres.


"Os atores mais velhos têm o direito de fazer papeis em que eles namoram jovens. Eles transam com pessoas que poderiam ser filhas dele, mas a mulher não pode fazer isso. Para mulher, isso é considerado ridículo. São preconceitos e tabus que a gente quer quebrar total."

Tivemos avanços nos últimos anos?


O avanço da luta feminista coloca em pauta os preconceitos e desafia os tabus vigentes ainda que haja muito para percorrer. Aos 54 anos, Simone relembra que, quando era pequena, as mulheres de 30 já eram senhoras e as de 40 velhas, o que vem mudando. E ela deixa claro que está longe de considerar “velha”. “Ok, eu sou uma coroa, mas a idade não me impede de fazer nada, de pensar nada”, disse.


Ela ainda percebe mais mudanças sutis na sociedade e mais representatividade na TV, graças à coragem de produtores e diretores que colocam personagens com mais de 40 e 50 anos em posições mais protagônicas e que propõem, inclusive, cenas sensuais. Afinal, por que atores e atrizes jovens podem fazê-las, mas uma artista mais velha não?


Também vemos artistas mais velhas se destacando na música ainda que sejam exceção e sofram boicotes nas rádios. Madonna é um desses exemplos. Mesmo não chegando aos números da década de 80 e 90, ela ainda consegue produzir novos hits pop na era digital aos 61 anos de idade. Em contrapartida, sofre preconceitos e comentários relacionados ao seu corpo e estética.


Avós da Razão e a quebra de tabus


Além de Sonia, Gilda Bandeira de Mello, de 79 anos, e Helena Wiechmann, que completa 92 em agosto, também fazem parte do canal Avós da Razão. Criado em 2018, ele vem ganhando muito destaque na internet por falar de temas como envelhecimento, sexo, preconceito e outros tabus sem meias palavras. “Não são perguntas forjadas, nossos fãs nos perguntam de tudo”, afirmou Sonia.


A ideia do projeto nasceu a partir das conversas das três nos botecos do Rio de Janeiro. Amigas a mais de 50 anos, elas sempre mantiveram o hábito de se encontrar, tomar uma cerveja, bater um papo e comentar os assuntos atuais. Em um dia, papo vai e papo vem, até que outra amiga, e atual diretora do canal, percebeu que a conversa tinha consistência e podia ser relevante para a sociedade.


"Ela percebeu que o canal podia ser aproveitado para levantar um pouco a bola dos mais velhos e poder dar uma voz a eles porque, agora, o velho dura muito, mas ainda é muito esquecido, ainda está no aposento. Ele não se faz ouvir como deveria e isso é importante para as políticas sociais, ele deveria ocupar o lugar."

Avós da Razão | Foto: Reprodução

São mais de 38 mil inscritos e 820 mil visualizações em vídeos bem humorados e com importantes reflexões, com público de todas as idades. Elas são seguidas por todas as faixas etárias e gêneros. Além disso, já deram entrevistas para jornais, revistas, sites e programas de TV, contribuindo para aumentar a representatividade de mulheres idosas na mídia. “O grande triunfo do nosso programa é falar de tudo, sem tabu, nada é fictício”, garantiu Sonia.


Elas mostram que não há prazo de validade para a mulher em nenhum setor da sociedade, incluindo no entretenimento e na internet. Sonia, inclusive, rebate esse pensamento. “Prazo de validade é quando a gente morre e pronto. Aí, acabou”, disse.


E ainda rebatem a ideia de que a pessoa idosa deve ser poupada por não ter capacidade de fazer o que lhe é proposto. Pelo contrário, as Avós da Razão mostram que é possível chegar a velhice com a mente aberta, atualizada com os meios digitais e pronta para muitos desafios.


"Esse fato de poupar o velho é preconceito. O velho não precisa de ajuda, ele sabe fazer tudo sozinho, exceto quando tem alguma doença, claro. O velho pode até fazer mais devagar, mas ele faz tudo e não está desabilitado. E se é uma pessoa mais velha que evoluiu, se modernizou, ainda pode ter uma bagagem que serve para muita coisa."

E isso serve para o mundo das artes e do entretenimento. Por que não dar papéis de destaque a mulheres mais velhas? Talento não se mede pela jovialidade, muito menos pelo padrão estético de beleza jovem-branco-magro, que põe atrizes mais velhas em papéis menos complexos, como “a avó de alguém ou só fazendo papel cômico, engraçadinha”. Uma das poucas exceções para Sonia também é a atriz Fernanda Montenegro, ultrapassou a barreira da idade pelo seu talento indiscutível.


Gilda, Helena e Sonia desafiam o pensamento de que a velhice é ruim somente pelas mudanças corporais. Elas comprovam que seguir a velhice de forma ativa pode ser bom a nível pessoal e social. Afinal, sem as Avós da Razão não teríamos reflexões, vivências e conhecimentos tão necessários disponíveis na internet.


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A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.