O dinamismo e a verdade em "Valéria", nova produção espanhola da Netflix

O seriado Valéria chegou na Netflix na sexta-feira passada, 8, sem nenhum alarde. A série espanhola é uma adaptação da saga de mesmo nome da escritora Elísabet Benavent. Com oito episódios, Valéria ganhou um dinamismo excelente que também é resultado do entrosamento entre o elenco principal.



Confesso que nunca fui muito fã de assistir séries, os filmes sempre foram o conteúdo audiovisual que mais assisti por ter o início, meio e fim em apenas algumas horas. Por esse motivo, tenho uma lista interminável de séries que abandonei antes de chegar ao segundo episódio. Isso, felizmente, não aconteceu com Valéria.


O seriado nos conta a história da Valéria (Diana Gómez), a Tatiana de “La Casa de Papel”, uma aspirante a escritora que está passando por um bloqueio criativo enquanto tenta superar uma crise no seu casamento de seis anos. Mas, para além da história da Valéria, somos apresentados ao seu grupo de amigas. Lola (Silma López), Carmen (Paula Malia) e Nerea (Teresa Riott) integram a história e ganham, ao longo dos episódios, um lugar de destaque da narrativa.


O dinamismo e a verdade em "Valéria", nova produção espanhola da Netflix
Carmen, Lola, Valéria e Nerea. | Foto: Reprodução

O que vai te cativar?


Assim como em boa parte da séries espanholas, Valéria se passa em Madrid e essa foi uma das coisas que mais me encantou. Fui completamente envolvida pelas locações e por reconhecer lugares que eu tinha visitado quando viajei para a cidade. E, além desse apelo sentimental para mim, a série optou por mostrar (e muito) a cidade. As personagens andam por Madrid e estabelecem uma conexão com o ambiente.


O dinamismo e a verdade em "Valéria", nova produção espanhola da Netflix
Cena gravada no "El Templo de Debod", ponto turístico em Madrid. | Foto: Reprodução

A saída da casa da Valéria, a janela do apartamento da Lola ou a vista do escritória que a Carmen trabalha, por exemplo, todos esses lugares começam a fazer parte da cenografia da série e te ajudam a construir um universo em que aquelas personagens se tornem, no fim de tudo, pessoas que você poderia conhecer a qualquer momento.


Essa aproximação das personagens com a realidade também é algo que me chamou a atenção. As situações que o grupo de amigas vivem podem ser vivenciados por qualquer um de nós: o fim de um relacionamento, um bloqueio criativo, problemas familiares e/ou com o trabalho, afirmação da orientação sexual e, também, da sua sexualidade. Tudo isso é retratado no seriado de uma maneira que aproxima a vida das personagens com o real.


Tudo isso só foi possível devido a valorização das quatro amigas que integram o núcleo central dessa história. Assim como acontece em Eu Nunca..., série que já ganhou crítica aqui no Telas, Valéria explora a história de cada personagem de forma a integrá-los a história e a, de certa maneira, justificar as suas ações e seus pensamentos. Isso traz mais complexidade e, inevitavelmente, profundidade para as personagens.


O dinamismo e a verdade em "Valéria", nova produção espanhola da Netflix
Cena de Valéria. | Foto: Reprodução

O som da série, passando pela trilha e pela edição, também é um ponto forte. As músicas se integram ao momento e, durante várias cenas, deixam de ser um som de fundo e passam a contar a história. Uma das cenas mais emocionantes da série foi acompanhada pela faixa lovely, parceria de Billie Eilish com Khalid.


Direção Feminina e Cenas de Sexo


As cenas de sexo são algo muito presente na série, em todos os oito episódios. Com uma equipe de adaptação e de direção da série formada apenas por mulheres, María López Castaño foi a responsável pela adaptação enquanto Inma Torrente e Nely Reguera foram as responsáveis pela direção dos episódios, a expectativa criada em mim era que as cenas fossem menos explícitas, mas não é bem isso que acontece.


As cenas são o que são. Não há nenhuma maquiagem ou metáfora quando ao sexo na série. Entretanto, embora essa descrição possa fazer parecer que as cenas são exageradas, eu não me senti incomodada com a presença das mesmas na história porque elas fazem sentido na trama criada. Todas as personagens, que estão próximas de completar 30 anos, já possuem uma vida formada, com pensamentos e vivências estabelecidas e, portanto, tratam esse assunto como algo cotidiano.


Embora, em alguns momentos, é possível ver uma supervalorização do ato “transar” em relação à própria Valéria, isso se encaixa no arco da personagem e, de certa forma, faz sentido com o momento em que ela está vivendo. As cenas são tão normalizadas dentro da série que se tornam, em um dos episódios, um artifício para a gente conhecer mais as personagens e seus pensamentos.


O dinamismo e a verdade em "Valéria", nova produção espanhola da Netflix
Cena de Valéria. | Foto: Reprodução

Valéria me deixou viciada. Eu que quase nunca passo do primeiro episódio me vi fazendo uma pequena maratona em plena madrugada para descobrir onde essa história iria terminar. A série e as personagens são envolventes e você ama, odeia, sente raiva e volta a amar. E, a melhor parte, eu consigo ver uma segunda temporada se desenhando à partir do que foi o “fim” desta primeira e não poderia estar mais animada!


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