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Não é só cintura baixa! A volta dos anos 2000 e a necessidade de ser magra

O que a "geração da saúde", o retorno da moda dos anos 2000 e a ascensão de idols de K-pop e nomes como Olivia Rodrigo têm em comum? O culto inegável, violento e muitas vezes mascarado à magreza. E, só para começar, isso não é um ataque às magras - vou usar no feminino porque, quando falamos de pressão estética, de mulher pra mulher, sabemos que o buraco é mais embaixo. Enfim... Magras, nada aqui é sobre vocês, mas é uma discussão que todo mundo pode contribuir.


Você com certeza deve ter se deparado com posts e textos sobre a volta da estética dos anos 2000 e como os visuais e looks incentivam aquela magreza extrema, que raramente vem acompanhada de uma rotina saudável. Isso tudo é verdade mas, muitas vezes, acabamos presos em um discurso falho, que age como se a maior inimiga da mulher gorda fosse a cintura baixa. Mas não, estamos falando sobre algo muito mais impactante: uma sociedade que tenta, a todo custo, humilhar e invisibilizar o corpo gordo.



No texto de hoje vamos ver algumas provas da volta dos que não foram - idealização da magreza -, por que os anos 2000 têm esse poder tão destrutivo na moda e, é claro, o que podemos fazer sabendo de tudo isso... Segura minha mão e vamos lá!


Taylor Swift falou sobre "ser gorda" em novo clipe - e deu ruim, claro (Foto: Reprodução / Youtube)

Tchau body positive, olá modelos magérrimas


Lembra a cultura body positive em que todos deveríamos amar nossos corpos, do jeitinho que ele é? O Instagram até que enganou a gente direitinho. No fundo, bem no fundo, o mercado não está nem aí para seu discurso de autoaceitação e só se aproveitou dele quando era lucrativo. Bastou a magreza dominar mais uma vez seu espaço "de direito" no mundo da moda, que todo o pensamento body positive foi atropelado por um caminhão que só leva a um destino: ser magra.


E isso não é culpa de uma pessoa ou grupo. É um conjunto de fatores que operam para que as coisas funcionem assim. Olivia Rodrigo - uma das cantoras mais magras das últimas décadas - virou uma sensação na música. Por que ela era magra? Claro que não! Mas fez com que muitos fãs jovens, que não têm absolutamente nada a ver com ela, aspirassem aquele corpo. Mesma coisa com as idols de K-pop, que falam abertamente sobre o seu medo de engordar e gritam frases gordofóbicas até mesmo em músicas, que estão fazendo muito sucesso.



O domínio sempre foi das magras mas, nos últimos anos, figuras cada vez menores vêm dominando um espaço - tão pequenininho - que tinha sido ocupado por corpos mais diversos. E aí não falamos necessariamente magros, mas pretos, com deficiência ou com alguma característica mínima que foge do padrão.


Kim Kardashian e a cultura do transtorno alimentar


Mais uma vez, não é de hoje que o mundo é das magras. Mas quer uma prova de que estamos dando passos para trás, após pequenos avanços? Relembre o cenário no Instagram há alguns anos. As Kardashians, com corpos voluptuosos, eram os grandes nomes do momento. Corpos não naturais e extremamente sexualizados, mas, com certeza, diferentes das modelos que dominavam as telas nos anos 2000.


Atualmente, nem as próprias Kardashians têm tanta bunda e peito e isso é uma tendência geral! A Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica afirmou que só em 2020, tivemos 25 mil explantes mamários (ou seja, retiradas de silicone) no Brasil - mais de 10 mil casos do que em 2018. É possível argumentar que isso tenha a ver com a autoaceitação das mulheres e até um desejo de parecer mais natural. Talvez sim, mas, é fato também que o número de procedimentos estéticos no país cresceu 140% entre os jovens, segundo a USP.


E, falando nas Kardashians, é impossível falar sobre o assunto e não citar o desserviço de Kim ao usar vestido de Marilyn Monroe no Met Gala 2022 - item pelo qual ela perdeu cerca de 8 quilos em poucos dias para caber. "Eu vestia um sauna suit [peça cobrindo todo o corpo] e ia correr na esteira. Cortei totalmente qualquer açúcar e carboidrato", afirmou a empresária, orgulhosa, no tapete vermelho.


O que poderia ter sido ainda mais criticado há alguns anos, foi admirado por algumas pessoas. Afinal, haja "força de vontade", né? A gravidade disso tudo fica ainda mais evidente, quando analisamos a frase de Lauren Cadillac, citada por @nutricaorsini:


"É difícil reconhecer que você sofre de um transtorno alimentar quando as pessoas aplaudem seus comportamentos disfuncionais".

Kim Kardashian e o vestido do "sacrifício" no Met Gala 2022 (Foto: Reprodução / Getty Images)

Não é só sobre a cintura baixa


Chegamos ao que, pra mim, é o ponto central de tudo isso: a cintura baixa. Não pela sua existência e o seu retorno inegável às passarelas e aos feeds das fashionistas, mas sim, pelo o que ela representa e como as pessoas lidam com esse comeback polêmico. Com isso, quero dizer que a cintura baixa, por si só, não é um problema. E, caso não esteja claro, pessoas gordas podem usá-la, se quiserem.


Na perseguição à trend, muitos argumentam como se o corpo gordo rejeitasse a cintura baixa, o cropped apertado ou decotes profundos. Não é nada disso! E quando a "revolta" vem de uma pessoa claramente magra, mais parece que é um desejo de esconder o corpo gordo do que protestar conta a cintura baixa e a consequente valorização da magreza.


Então, a grande questão da cintura baixa e de outras tendências dos anos 2000, é que elas não são confortáveis para quem tem mais gordura, principalmente gordos. Pensa bem, a barriga fica sobreposta ao tecido e muito provavelmente vai te apertar e até te atrapalhar no movimento do dia a dia. O corte mais alto não é só uma questão de "esconder a barriguinha", mas sim, de conforto e liberdade de movimentação - que a cintura baixa, na maioria das vezes, nos tira.


Isso sem contar que as lojas de departamento não pensam em pessoas que vestem mais do que 46. Até mesmo quem tem manequins até 44 podem ter grandes dificuldades de achar itens adequados, então, imagina as pessoas que realmente precisam contar com o "plus size". A moda pode ser cíclica e os anos 2000 podem ter roupas e estilos incríveis, mas nada é adaptado aos novos contextos e, principalmente, a outros corpos.


E qual é o próximo passo?


Eu falei, falei e falei, mas e aí? O que podemos fazer com tudo isso? O primeiro passo acredito ser recuperar a noção de que a moda, a cima de tudo, é uma ferramenta de resistência quando utilizada de forma respeitosa e correta. E, é claro, temos que nos policiar constantemente e entender porque, de fato, uma trend te irrita.


Tem a ver com a origem da moda, quem costuma usá-la, o que ela representa na sua experiência pessoal? Porque não é raro tendências muito usadas por pessoas pretas bombarem quando brancos começam a adotá-las, por exemplo. E, voltando nelas, as Kardashians são as maiores percursoras disso, com os lábios bem grossos - que não são "tendências", mas traços físicos comuns em negros, sempre renegados, que viraram febre nas clínicas de preenchimento "do nada".


Pode ser uma questão de gosto só, tipo "não gosto e pronto". Mas, cá entre nós, acho que isso quase nunca é o caso. Então, basicamente, temos que refletir, pensar e sempre exigir que as novas e antigas trends voltem e saíam de moda, mas com a condição de que comportem todos os corpos, com conforto. Afinal, os anos 2000 tem coisas boas, mas eu prefiro ficar com meu 2022 mesmo.


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A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.


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