Música e terapia: um caminho para o bem-estar e autoconhecimento

Do pop e MPB ao sertanejo e funk, a música é um item presente no cotidiano do brasileiro. Uma pesquisa da Opinion Box divulgada em 2019, que não considerou os efeitos da pandemia, apontou que cerca de 80% da população do país ouve música todos os dias.


Esse consumo é variado e em diferentes suportes. As plataformas de streaming, como Spotify e YouTube Premium, crescem a cada ano, mas os downloads pagos e gratuitos de músicas ainda são feitos por parcela da população, assim como o rádio, que atinge mais de 80% dos lares brasileiros, também é um potente difusor de música.



A verdade é que a música nos acompanha no trânsito, no home office, na faxina em casa e em diversas outras situações. Mas, ela vai além de simplesmente nos fazer companhia. A música também traz pontos positivos a nossa saúde física e mental, como o relaxamento e a ativação da memória.


Inclusive, pesquisadores da Universidad Autónoma de Madrid, liderados pela Dra María Jesús del Olmo, concluíram que a musicoterapia foi uma ferramenta poderosa em tratamentos realizados com crianças em uma UTI pediátrica de um hospital na capital espanhola.


Os resultados foram notados tanto a “nível físico como emocional, melhorando, sobretudo, o bem-estar”. Eles ainda relataram que o processo ajudou os familiares e os próprios profissionais que cuidavam das crianças diariamente.


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Música e psicologia


A cantora e psicóloga Suzany Brandão explica que ao escutar uma música, ou fazer qualquer atividade prazerosa, uma pessoa ativa as sinapses no cérebro, ou seja, ativa a comunicação entre os neurônios. Ela enfatiza que essa é uma ação necessária para que as pessoas tomem qualquer ação. Por isso, estimulá-las constantemente é importante.


Ela ainda destaca que a memória musical é a última a ser perdida, tendo em conta diversos problemas que podem acarretar nessa questão. Em determinadas doenças, inclusive, a música pode ajudar a resgatar áreas do cérebro e memórias perdidas como apontam estudos recentes da neuroplasticidade.


Quanto a doenças em que isso não é possível como o Alzheimer, a música pode ser um trabalho de estímulo para tardar o processo de perda total da memória do paciente. Inclusive, auxilia o bem-estar do idoso ao trazer autoestima quando ele se lembra das músicas do seu passado.


“Escutar música eleva o nosso humor, atinge o nosso cérebro e cria sinapses. Quando as ativamos, estamos ampliando a área do nosso cérebro. Inclusive, a gente pode retornar algumas atividades, pois pode estar ampliando a área do nosso cérebro

O canto como terapia


A psicoterapia cognitivo-comportamental acredita que ao mudar sentimentos e pensamentos, o indivíduo pode mudar uma situação de conflito, algo que não esteja funcionando muito bem interna ou externamente. Suzany propõe essa mudança por meio de um novo comportamento: o canto.


Ela desenvolveu a Cantarterapia, um método que une a técnica do canto a essa vertente da psicologia. Ela trabalha com a audição, o canto, ou somente a vocalização de sons, além de exercícios musculares e alongamento, trazendo benefícios físicos e mentais para qualquer paciente que queira se autoconhecer e se autodesenvolver.


“Cantar pode ser um comportamento novo que o paciente se propõe a fazer e, a partir disso, mudar um pensamento a respeito dele. Se é muito tímido e começa a cantar, por exemplo, ele vai começar a gostar mais da sua voz, vai ter mais autoestima, ou seja, vai mudar um sentimento a respeito de si”

Ainda segundo a psicóloga, “a neuroplasticidade vai acontecendo e moldando uma parte do cérebro”. Esse trabalho é eficiente com pessoas em algum estágio de depressão ao fazer com que ela reflita sobre si a partir de sua própria voz, mudando ações negativas e diminuindo até pensamentos suicidas.


Como é o processo?


A cantarterapia ajuda a organizar o discurso de qualquer paciente e pode ser utilizada em hospitais psiquiátricos também, pois permite que o paciente organize um discurso na sua cabeça e fale mais naturalmente. "Eu tenho um paciente que não falava nada coerente e as pessoas me perguntavam como eu me comunicava com ele. Eu respondia: ‘eu canto’”.


E o processo desse trabalho se dá em três etapas: a respiração, a emissão da voz e a ressonância. Isso trabalha o autoconhecimento, a diminuição da ansiedade, o relaxamento e o bem-estar corporal e mental.

1º) Respiração


Suzany pratica a respiração diafragmática com os pacientes, a mesma que fazemos quando somos bebês, mas que "nos esquecemos devido a ansiedade do dia a dia”. Passamos a respirar com a caixa torácica e, desse modo, utilizamos somente 1/3 da capacidade respiratória do pulmão, trazendo mais cansaço.


O diafragma, junto ao músculo intercostal, é o principal músculo da respiração. Quando respiramos corretamente, fazemos a oxigenação adequada do cérebro, o que traz calma e relaxamento, ou seja, melhora o bem-estar do paciente.

2º) Emissão da voz


Para se transformar em voz, a coluna de ar produzida chega às cordas vocais e elas vibram. Para Suzany, nesse momento, o paciente se autopercebe a partir da sua própria voz. Parte de um estranhamento ao se ouvir em uma gravação, onde nossa voz costuma ser mais aguda, até se ambientar com ela e se acostumar.

3º) Ressonância


Em seguida, no cérebro, cria-se uma ressonância. É um processo que massageia a nossa cabeça ao chegar na caixa craniana, produzindo bem-estar, pois traz calma e colocando o paciente no momento presente. Elimina ou diminui a percepção de ansiedade que faz as pessoas focarem no futuro ou em ações passadas.


A psicóloga ressalta o quão terapêutico é formar som e palavras, pois as pessoas usam diferentes partes do rosto, como lábios, línguas e dentes. Para ela, usar essa articulação também é um autoconhecimento.


“Por que é estranho fazer careta, mas colocar o corpo de cabeça pra baixo na ginastica não é? Nós temos 1000 possibilidades com a nossa máscara facial. Por isso, eu peço para que os pacientes se olhem. Se você não se olha, como você vai olhar para o outro?”

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