Masculinidade tóxica e passação de pano em “De férias com o ex”

Essa semana acaba mais uma temporada de um reality brasileiro e, de quarentena, eles têm nos ajudado a vislumbrar uma vida pré-corona. As pessoas realmente podiam se aglomerar juntas numa casa, dividir o mesmo copo, beijar todo mundo e ficarem próximas o suficientes até para separar uma briga? Sim, por incrível que pareça! Acho que essa descrição já foi suficiente para saber que o “Vamos Polemizar?” de hoje vai falar sobre o “De férias com o ex”, né? Mais especificamente, vou listar tudo que foi problemático nessa edição - e procurar o verdadeiro culpado.

Queria deixar um aviso antes de continuar o texto. Eu sei que o programa “De férias com o ex” por si só já é (muito) problemático e repete os mesmos padrões desde a primeira edição. Mas eu acredito que dá sim para o programa continuar nos entretendo sem necessariamente perpetuar todo o machismo e rivalidade feminina que se fazem presentes desde o início. E a produção, a edição e o casting do programa são, também, culpados. Dito isso, vamos aos problemas da atual edição.


Ex abusivo para todo mundo ver

Para começar, a presença de um ex específico: Victor. Ele entrou no terceiro episódio já protagonizando a primeira grande briga da edição por ciúmes da ex (que não devia nada a ele). Mas antes mesmo dessa discussão ridícula já dava para perceber que ele não deveria estar ali. A expressão e linguagem corporal de Flávia ao vê-lo já deixou claro para qualquer mulher do que se tratava: Victor é um ex abusivo.



O medo (sim, medo) de Flávia ficou explícito: a cabeça abaixada perto dele, o corpo curvado, o tom de voz. Eu falei com algumas amigas e amigos sobre isso e ficou evidente o que eu já suspeitava: as mulheres perceberam o mesmo que eu, enquanto os homens não entenderam sobre o que eu estava falando “até porque depois ela já tava deitada com ele”. E eu entendo a edição querer mostrar isso - porque é a proposta do programa ver pessoas voltando com ex-, mas a escolha de Victor para participar foi extremamente irresponsável por parte da produção. E bato meu pé firme quanto a isso.


Cortes excessivos na edição

Como estudante de Jornalismo e amante do audiovisual é meu lugar de fala! Eu sei que toda versão finalizada de um programa exige cortes, principalmente de realitys shows que ficam 24 horas filmando pessoas numa casa. Mas os cortes foram excessivos e ficaram evidentes com as relações na casa.


A começar com Mina. Em um episódio ela falou sobre como vinha conversando com os homens da casa sobre sexualização e objetificação dos corpos femininos e como eles estavam se mostrando mais abertos com o passar do tempo. E nenhuma cena disso foi mostrada. Nenhuma. É legal mostrar uma mulher branca padrão feminista participando de um programa desses, mas o feminismo mesmo não. Deixa para a próxima, né MTV?


E agora a mais recente polêmica: Mina e Scarlat acusam a edição de passar pano para o participante Igor Adamovich e não mostrar uma situação grave que aconteceu. Segundo relato das duas nas redes sociais, Igor tentou insistentemente ficar com Camila e, quando não conseguiu, começou a xingá-la e ofendê-la. Mas a edição não mostrou isso e deixou de uma forma que parece que as meninas estavam loucas e fazendo tempestade em copo d’água. Típico, né?


Participantes gays: bom, né?

Essa foi a primeira edição do programa com homens bissexuais/gays. É claro que isso é importante e pode demonstrar, sim, um avanço. Mas fiquei com a impressão de que foi mais para causar e “lacrar” do que qualquer outra coisa. Seja pela confusão que repercutiu nas redes sociais sobre a cena de sexo gay cortada da edição, seja pelo próprio tempo em tela.


Rafa e Jarlles, os primeiros bissexuais da edição. | Foto: Reprodução

Verdadeiro vilão?

Bem, uma das minhas intenções com esse texto era tentar fazer ver um padrão para além dos “machos escrotos” que são convidados para o “De férias com o ex”. É claro que eles são tudo que eu jamais desejaria para nenhuma mulher que conheço. Mas se eles têm um palco para aparecer é porque alguém construiu e os convidou para serem a atração principal - e porque tem uma audiência que vai defendê-los.


A equipe por trás do programa “De férias com o ex” - e aí incluo produção, direção, edição, roteiro e casting - deve carregar também boa parte da culpa de vermos tantos homens com egos inflados perpetuando tanto machismo e incitando tanta rivalidade feminina há algumas temporadas já. Enquanto a mudança de atitude não vier também por trás das câmeras, o reality vai continuar com os mesmos problemas e sendo a mesma má influência de masculinidade tóxica para tantos jovens.


Eu sei, um entretenimento fútil e vazio sempre cai bem, principalmente nos tempos em que estamos vivendo. E, acreditem, eu não vejo “De férias com o ex” esperando ver casais felizes e críticas sociais f*das. Mas é sempre bom manter o olhar crítico e ter em mente que são esses programas que influenciam gerações. No mais, viva a futilidade!


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