Mana do mês de Junho: Elza Soares | Parte II

No mês de Junho não teríamos personalidade melhor para destacar no Mana do mês se não fosse ela: Elza Soares. No dia 23 de Junho, a “mulher do fim do mundo” completa 90 anos de idade cheios de histórias e muita música. Com uma vida marcada por diversas alegrias e também tristezas, Elza coloca em suas canções os turbilhões de sentimentos que carregava pelas mazelas da vida e é assim que ela vem conquistando várias gerações de fãs. No post de semana passada, conhecemos um pouco sobre fatos marcantes que deixam a vida e a obra de Elza pra eternidade. E hoje, faremos uma viagem pelas músicas que marcaram a carreira da cantora do milênio.


A cantora do milênio. | Reprodução: Instagram

Dentre os maiores sucessos entoados por Elza Soares, separamos algumas canções que marcam a força e representatividade da cantora sobre diversos assuntos. Não que seja tarefa fácil diante das mais variadas músicas que jogam em nossa cara a realidade social do país e do mundo, mas separamos aquelas que com certeza você já ouviu e até já cantou sem nem se dar conta da história que todas aquelas melodias carregavam em si.


Racismo


Talvez tenha sido com essa música que você tenha escutado a voz irreverente de Elza pela primeira vez. “A carne” que foi escrita por Seu Jorge, ficou mundialmente conhecida na voz forte e grave de Elza e representa um grito de guerra para que todos os pretos.


“A carne mais barata do mercado é a carne negra!/ Que fez e faz história / Segurando esse país no braço / O cabra aqui não se sente revoltado / Porque o revólver já está engatilhado / E o vingador é lento / Mas muito bem intencionado / E esse país / Vai deixando todo mundo preto / E o cabelo esticado/ Mas mesmo assim / Ainda guardo o direito / De algum antepassado da cor / Brigar sutilmente por respeito / Brigar bravamente por respeito / Brigar por justiça e por respeito / De algum antepassado da cor / Brigar, brigar, brigar!”



A canção sempre é interpretada com força e indignação por Elza. Mulher preta e periférica que já sentiu na pele a dor do racismo. Um dos seus primeiros contatos com o racismo veio quando sua mãe “caiu” num fosso de elevador. Sua mãe havia chegado em casa mancando após um dia de trabalho. O elevador de serviço estava quebrado e o porteiro, pediu que Rosário usasse o social. Ao entrar, ela caiu no fosso pois o elevador não estava lá. Elza conta que sua mãe chorava muito com o ocorrido e dizia “Ele fez de propósito, por pura maldade”. Mesmo que sua mãe não tenha dito a palavra em si, Elza percebeu na hora que o que havia acontecido tinha sido um ato de preconceito, ou melhor, racismo.


Mil nações / Moldaram minha cara / Minha voz / Uso pra dizer o que se cala / O meu país / É meu lugar de fala”


Em “O que se cala”, canção de Douglas Germano, Elza questiona Pra que separar? / Pra que desunir? / Por que só gritar? / Por que nunca ouvir? / Pra que enganar? / Pra que reprimir? / Por que humilhar? / E tanto mentir?! / Pra que negar que o ódio é que te abala?”. Todas os versos fortes da canção são direcionados a todxs aquelxs que sofreram qualquer tipo de preconceito.



Elza, sentiu na pele diversas vezes o que é ser uma mulher preta no Brasil. Em 1950, Elza foi recusada pela gravadora RCA por ser “gente de cor”. Em 1960, foi impedida de se hospedar em hotéis pelo mesmo motivo. Mesmo com os mais variados momentos onde a cantora se sentiu diante do racismo, Elza diz que nada e nem ninguém a fará se diminuir por ser negra.


"Eu me sinto maravilhosa. Nasci negra, me orgulho de ser uma mulher negra, por ter vencido. Sou negra e maravilhosa. Elza Soares. A deusa, a negra."

Hoje, o discurso entoado por Elza na canção “A carne” mudou. Em sua biografia, escrita pelo jornalista Zeca Camargo, ela diz: "Se eu continuar repetindo o verso como ele era, vou estar reafirmando justamente o que a sociedade quer. Chega! Minha mãe é negra. Minha avó é negra. Minha voz é negra. Mas ela não é a mais barata do mercado -não mais. Nunca foi. Nunca deveria ter sido. Minha carne é cara, é valorizada". E é assim que ela canta na canção “Não tá mais de graça.”


“A carne mais barata do mercado não tá mais de graça / O que não valia nada agora vale uma tonelada / A carne mais barata do mercado não tá mais de graça / Não tem bala perdida, tem seu nome, é bala autografada.”



Religião


Elza também é conhecida por canções que criticam ideias impostas sobre religião. Sua voz grave faz com que qualquer canção ganhe força, mas quando munida da interpretação que só a cantora do milênio tem, vira algo arrebatador. Em seu álbum “Deus é mulher” Elza já começa trazendo a reflexão ao nome do disco, rompendo a representação imagética de Deus ser homem, porque não uma mulher? E em todo o álbum, há uma crítica sobre diversas questões religiosas

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Em “Exu nas Escolas”, o tema tratado é sobre a laicidade do Estado, promovendo um diálogo sobre religião que supere a supremacia das religiões cristãs e o desprezo pelas religiões de matrizes africanas. O estado é laico, ou pelo menos deveria ser né? “Na aula de hoje veremos Exu”, Exu é um orixá do candomblé considerado mensageiro e responsável pela comunicação entre os homens e os orixás. Na umbanda, embora também haja orixá, exu é cultuado como entidades.


“Na aula de hoje veremos exu / Voando em tsuru / Entre a boca de quem assopra e o nariz de quem recebe o tsunu / As escolas se transformaram em centros ecumênicos / Exu te ama e ele também está com fome / Porque as merendas foram desviadas novamente / Num país laico, temos a imagem de César na cédula e um "Deus seja louvado" / As bancadas e os lacaios do Estado / Se Jesus Cristo tivesse morrido nos dias de hoje com ética / Em toda casa, ao invés de uma cruz, teria uma cadeira elétrica.”



Em “Credo”, Elza peita a doutrinação e exigência de certas institucionalizações. Os versos saem da boca da cantora do milênio e ganham a força necessária que a crítica necessita.


“Minha fé quem faz sou eu / Não preciso que ninguém me guie / Não preciso que ninguém me diga o que posso, o que não / Minha crença eu te conto de cor / Não preciso que ninguém me ensine / Que o amor é o deus que não cabe na religião.”



“Você não pode ter um caminho religioso, você é o que você é, o que você quer ser. Você não tem que ser católica, você tem que ser o que tem que ser. Você tem liberdade!” Elza Soares

Violência Doméstica


Assim como os outros pontos levantados, a violência doméstica também fez parte da vida de Elza. A violência física em sua vida, começou com seu pai, quando a batia por ser “levada” demais. Elza conta em sua biografia, que aos cinco anos viu São Jorge e pediu ‘São Jorge, posso pedir pro senhor dizer para meu pai não me bater tanto assim? Eu prometo que vou ser uma menina boazinha, São Jorge, eu não vou ficar aprontando muito não…’. A cantora do milênio diz que a resposta do santo veio em forma de profecia, já que disse que ela ainda apanharia muito.


E de fato, ainda apanhou muito. Aos quinze anos, foi obrigada pelo pai a largar os estudos e casar com um homem mais velho. Onde durante anos, foi submetida a violência doméstica e sexual. Em seu segundo casamento, com o jogador Garrincha, a cantora também sofreu constantemente com agressões físicas, ciúmes doentios, traições e humilhações, onde o alcoolismo do atleta tornou-se insuportável.


No Brasil, a cada uma hora e meia uma mulher é morta. Segundo o Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil, as mulheres negras representam cerca de 66,7% do total de casos. “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim!”. Esses versos entoados por Elza na canção "Maria da Vila Matilde" (Porque se a da Penha é brava, imagine a da Vila Matilde!), retratam a força de uma mulher ao se encorajar a denunciar a violência doméstica. A música foi escrita por Douglas Germano, em homenagem a sua mãe, Maria e moradora do bairro Vila Matilde que sofreu inúmeras agressões do marido. A letra ganha poder com a voz grave de Elza, que canta os versos com propriedade já que assim como Maria, também sofreu com a violência doméstica.


“Cadê meu celular? / Eu vou ligar pro 180 / Vou entregar teu nome / E explicar meu endereço / Aqui você não entra mais / Eu digo que não te conheço / E jogo água fervendo / Se você se aventurar / Eu solto o cachorro / E, apontando pra você / Eu grito: Péguix guix guix guix / Eu quero ver / Você pular, você correr / Na frente dos vizim / Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim!”



“A violência contra a mulher é o mal do século. Aliás, é mal da vida toda.” Elza Soares

Empoderamento


Elza Soares é uma das maiores artistas do país e ícone da luta feminista. Diversas são as canções que empoderam e exaltam a força da mulher. Assim como outras músicas interpretadas por ela, quando as letras fortes se unem á voz de Elza, não há quem não se sensibilize.


Com um “Q” de empoderamento misturado a uma crítica religiosa, a música “Deus há de ser” afirma: “Deus é mãe!”. Assim como dissemos acima sobre o título de um dos álbuns de Elza, cujo o nome é “Deus é mulher”, a canção também faz um crítica à afirmação de que Deus seja homem. Além disso, a música é puro empoderamento feminino.


“Deus é Mulher / Deus há de ser / Deus há de entender / Deus há de querer / Que tudo vá para melhor / Se for mulher, Deus há de ser / Deus há de ser fêmea / Deus há de ser fina / Deus há de ser linda / Deus há de ser.”



Já em “Dentro de cada um” Elza amplifica o grito pelo feminismo. Feminismo para mulheres cis e trans, feminismo para todas as possibilidades de existência. A canção, fica ainda mais forte na voz de Elza, e como um grito que ecoa na boca de todas dizendo que a mulher “já cansou desse tempo” repleto de machismo e opressão.


“A mulher de dentro de cada um não quer mais silêncio / A mulher de dentro de mim cansou de pretexto / A mulher de dentro de casa fugiu do seu texto / E vai sair / De dentro de cada um / A mulher vai sair.”



Uma das canções que trouxeram Elza de volta aos holofotes foi a “Mulher do fim do mundo”. A música parece narrar uma vida repleta de altos e baixos, representados pelo carnaval.


“Na avenida, deixei lá / A pele preta e a minha voz / Na avenida, deixei lá / A minha fala, minha opinião / A minha casa, minha solidão / Joguei do alto do terceiro andar / Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida / Na avenida, dura até o fim / Mulher do fim do mundo / Eu sou e vou até o fim cantar / Meu choro não é nada além de carnaval / É lágrima de samba na ponta dos pés / A multidão avança como vendaval / Me joga na avenida que não sei qualé.”



Elza é chamada por muitos como a mulher do fim do mundo. Isso porque assim como na canção em qual ela interpreta fortemente, sua vida é marcada por altos e baixos. No começo de sua vida presenciou a pobreza e a necessidade de trabalhar desde a infância. Se casou aos treze e perdeu dois filhos para a fome. Ainda jovem, ficou viúva, criando cinco filhos sozinha e trabalhando como doméstica, mas sempre lutando pelo sonho de ser cantora. Quando alcançou a fama, ainda precisou enfrentar obstáculos. Recebeu críticas pela opinião pública por ser relacionar e casar com o jogador Garrincha. Sofreu agressão do segundo marido, perdeu mais um filho e chegou até a tentar cometer suicídio.


Sua história, desde suas dores às vitórias são símbolo de força. E é por isso que a cantora do milênio ultrapassa gerações, surgindo cada vez mais atual do que nunca. E mesmo sendo chamada de mulher do fim do mundo, quando perguntam a ela quem seria essa mulher, Elza diz:

A mulher do fim do mundo são todas as mulheres. A gente vai buscando, vai lutando até chegar ao fim do mundo, o fim do mundo de felicidade”.

____ 'Mana do mês' é a personalidade feminina influente escolhida para ser homenageada pelo Telas. Todo mês uma mulher importante e relevante é selecionada para contarmos sua história e legado