Mana do Mês de agosto: Madonna | Parte 2: as inovações da Rainha do Pop

Chegamos à segunda parte do Mana do Mês e, sendo este sábado (15) a véspera do aniversário de 62 anos de Madonna, é importante relevarmos a idade da cantora para aclamar como ela se mantém recente e inovadora na música pop, mesmo sendo um gênero tão etarista.


Claro que não podemos pautar Madonna apenas por sua idade: a autonomia da artista em suas produções musicais e sua experimentação constante e ousada mostram uma mulher sempre à frente de seu tempo. Confira a seguir os aspectos mais disruptivos de Madonna em seus 40 anos de carreira, e como ela influenciou o pop como o conhecemos hoje em dia.


Foto: DIvulgação

62 é a idade do sucesso


“As pessoas falam que eu sou tão controversa. Mas eu acho que a coisa mais controversa que já fiz foi manter minha carreira”, disse Madonna em discurso ao receber o prêmio de Mulher do Ano da revista Billboard em 2016. Essa declaração pode parecer pouca coisa, mas ela vem da mulher que, nos anos 1990, posou nua para um livro de fotografias sensuais. Da mulher que simulou masturbação feminina na coreografia de Like A Virgin na turnê Blond Ambition. Da mulher que comparou a imagem de Jesus Cristo a um homem preto injustiçado, e foi figurativamente crucificada pela Igreja Católica nos anos 1980.


Resumo da ópera: Madonna já fez muita coisa controversa. Mas por que participar do cenário pop até hoje seria tão absurdo? É aí que entra o misto de etarismo e machismo presente no entretenimento (e em mais esferas da vida), que já discutimos em um Vamos Polemizar aqui no Telas. Ao completar 60 anos, Madonna desabafou à Vogue UK:


As pessoas sempre tentaram me silenciar por alguma razão, porque “eu não sou bonita o suficiente”, “eu não canto bem o suficiente”, “eu não sou talentosa o suficiente”, e agora porque “eu não sou jovem o suficiente”. Então elas só querem encontrar algum motivo para me criticarem por perseverar. Agora eu estou lutando contra o etarismo e sendo punida por fazer 60 anos.

Para além da opinião do público, instituições de importância para pessoas do ramo da música também apresentam uma atitude etarista que afeta Madonna e outros artistas. Desde 2018, o Grammy não indica alguém com mais de 40 anos para a categoria de Álbum do Ano. Em 2019, críticos notaram a ausência de alguns nomes grandes da música na cerimônia: Bruce Springsteen (70), Sheryl Crow (57) e Madonna tinham lançado álbuns de destaque, mas foram completamente ignorados nas principais categorias da premiação.


Em Bitch, I’m Madonna (2015), a artista canta: “Nós vamos beber, e ninguém vai nos parar/Nós vamos beijar qualquer pessoa por perto/Eu só quero me divertir nessa noite”. A música é acompanhada por um clipe colorido ambientado em uma festa badalada, recheada de aparições especiais de celebridades como Rita Ora, Katy Perry e Beyoncé. Na época do lançamento, não demorou para surgirem paródias debochando de Madonna, usando sua idade “avançada” como principal argumento para criticar a imagem festeira supostamente “forçada” da cantora.


Por que o clipe de "Bitch, I'm Madonna" incomodou tanto? | Foto: Reprodução

Se você acha estranho descobrir que alguém de 60 anos ainda é capaz de se divertir e festejar, Madonna te explica o óbvio: “É ultrapassada e patriarcal a ideia de que uma mulher para de ser divertida, curiosa, aventureira, linda ou sensual depois dos 40. Isso é ridículo. Por que apenas homens têm permissão de serem assim, e de se divertirem até o dia em que morrerem? Por que isso é apenas liberado para homens? Como podemos lutar contra isso? Podemos resistir nos impondo contra homens e questionando padrões sociais que nos impedem de fazer essas coisas”.


E Bitch, I’m Madonna é só uma das formas em que a artista responde com um grande “foda-se” às críticas etaristas. Contudo, mais do que envelhecer sob o holofote, a questão que não cala é: como Madonna se manteve sob o holofote? Ela não apenas permanece no pop, ela ainda hita. Na verdade, ela hita há 40 anos, o que é bastante coisa — artistas novatos sonham em emplacar tantos sucessos em seguida, feito ela. E é aí que entra o controle de Madonna sobre sua arte.


Ela faz o destino dela


Madonna assumiu, no papel, as rédeas de sua carreira com a fundação da Maverick em 1992. A empresa faz parte de um acordo de US$ 60 milhões entre a estrela e a Time Warner (hoje conhecida como Warner Music Group), o que deu a Madonna controle financeiro e artístico sobre sua produção — tanto que seus primeiros lançamentos sob o selo foram os polêmicos (e comercialmente arriscados) Erotica e Sex.


Isso pode parecer pouco impressionante hoje em dia, mas pare um instante para pensar na disputa de direitos autorais de Taylor Swift com sua antiga gravadora, por exemplo. Se hoje em dia é difícil possuir o que você produz, imagine como era 30 anos atrás, quando não havia nenhuma mulher do ramo para te apoiar. Madonna abriu caminho para que outras artistas mulheres fizessem o mesmo nos anos seguintes. Ao romper relações criativas com seu pai para a produção independente do álbum 4 (2011), a própria Beyoncé comentou a importância de Madonna nesse aspecto:


Eu penso em Madonna e em como ela pegou tudo o que conquistou e começou um selo [a Maverick] para desenvolver mais artistas. Não existem mulheres assim o suficiente. Você vê Puffy, meu marido [Jay-Z] e todos esses artistas homens que se tornaram magnatas… Artistas mulheres podem se tornar lendas, mas poucas de nós se tornam magnatas.

Madonna é listada como co-produtora de quase todas suas músicas desde 1985, com raras exceções. Martin Solveig, produtor do MDNA (2012), contou em entrevista que ela realmente se envolve na elaboração das faixas e se compromete com o produto: “Eu pensei que ela fosse passar só umas duas horas no estúdio comigo e dizer do que gostava ou não, mas ela realmente escolhe os sons e produz as músicas”.


Madonna inspirou Beyoncé, que inspira mais outras artistas. Precisamos de mais mulheres assim | Foto: Reprodução

É inegável que Madonna sabe muito bem o que faz: ela é a única artista a ter colocado 50 músicas no primeiro lugar de qualquer parada da Billboard. Madonna é listada no Guinness Book como a compositora mulher mais bem-sucedida nos Estados Unidos e no Reino Unido, devido à quantidade de hits que chegaram ao topo dos rankings musicais. Detalhe: apenas Paul McCartney e John Lennon são os compositores com mais faixas nº 1 na Inglaterra do que Madonna.


A autonomia criativa também possibilitou que Madonna se expressasse verdadeiramente por sua música. Então toda aquela juventude rebelde e ousada de que tanto falamos na primeira parte do Mana do Mês se manifesta em suas canções. Vogue (1990), por exemplo, remete ao tipo de dança originada dos clubes LGBTQIA+ que ela frequentava em Nova York. Já Like A Prayer (1989) foi uma clara tentativa de releitura da paranoia religiosa de sua família, tão presente em sua infância.


Além das temáticas polêmicas, os ritmos musicais usados por Madonna também são muito marcantes e “futuristas” no sentido de preverem as próximas tendências. 2020 parece reviver os anos 1980 com lançamentos tipo Future Nostalgia, de Dua Lipa, e After Hours, de The Weeknd, mas Madonna já resgatou a música disco inúmeras vezes em sua carreira — e muito antes disso virar “moda”. Confessions on a Dance Floor (2005) e a faixa God Control, de Madame X (2019), são só alguns exemplos disso.


Pois é, a Madonna já se jogou no country | Foto: Reprodução

O mundo pode ter ficado obcecado por reggaeton com Despacito a partir de 2017, mas La Isla Bonita completou 33 anos de lançamento em fevereiro. E Old Town Road pode ter reinventado a música country em 2019, mas Madonna fizera o mesmo na virada do milênio, com Don’t Tell Me (2000) — com direito até a botas e chapéu de caubói. São músicas como essas que mostram como Madonna está sempre dez passos à frente dos demais.


Madame X pode ter sido esnobado pelo Grammy, mas é um puro caldeirão de culturas e influências: você tem disco (God Control), música latina (Medellín), reggae (Future), funk (Faz Gostoso), batuque (Batuka) e umas misturas mais que nem dá para definir o gênero musical. As experimentações provam que Madonna é uma completa camaleoa e sabe como acompanhar o que está em alta, de forma a continuar relevante na música.


A rainha dos visuais


Qual é a primeira coisa que vem à sua mente diante do nome Madonna? Muito provavelmente é uma imagem icônica da cantora, como seu visual P&B em Vogue, os sutiãs cônicos ou o visual à la Marilyn Monroe em Material Girl. Essas figuras demonstram como ela sempre cuidou de sua imagem, fantasias e cenários de clipes e shows. Detalhes como esses parecem óbvios hoje em dia, mas Madonna surgiu durante uma recém-formada MTV, quando a indústria ainda estava em adaptação aos vídeos musicais.


Os clipes de Madonna sempre foram megaproduzidos: o MV de Express Yourself (1989) teve um orçamento de US$ 5 milhões e é o terceiro videoclipe mais caro de todos os tempos. É fácil notar que valeu a pena desembolsar tanto dinheiro com filmagens, já que boa parte da videografia de Madonna terminou clássica e icônica, rendendo referências pop até os dias de hoje.


"Express Yourself" lançou a moda de lingerie sob roupa social | Foto: Reprodução

Apesar de suas músicas mais recentes não conquistarem o status de cult como as antigas, a produção de MVs segue de vento em popa para Madonna: em Madame X, God Control conta uma longa história sobre controle de armas, e Medellín narra como Maluma se apaixona pela instrutora de cha-cha-cha até culminar em seu casamento.


Na biografia Life With My Sister Madonna (2008), seu irmão mais velho Christopher sugere que Madonna buscou reinventar apresentações ao vivo e se focar em seus visuais devido à sua insegurança com o canto. A teoria não parece tão infundada, considerando que a crítica rechaçou Madonna no início da carreira por sua extensão vocal limitada — e ela própria tem ciência de como é vista: “Eu sei que não sou a melhor cantora e nem a melhor dançarina. Mas eu consigo incomodar as pessoas para caralho e ser tão provocante quanto quiser”.


Foi com essa declaração que Madonna se referiu à turnê Blond Ambition (1990). Como com qualquer coisa relacionada a sua arte, a cantora não estava de brincadeira quando decidiu montar a performance. Ela contratou o estilista francês mundialmente famoso Jean-Paul Gaultier para idealizar mais de 60 figurinos, dentre eles o icônico sutiã cônico. O cenário e vestimenta requisitaram um longo estudo de Madonna e de sua equipe criativa sobre moda e arquitetura das décadas de 1920, 1930 e 1940, já que o show contava uma história em cinco seções diferentes: Metropolis, Religious, Dick Tracy, Art Deco e um bis.


Impossível esquecer dos icônicos sutiãs cônicos | Foto: Reprodução

A ideia de apresentar uma narrativa em turnê surgiu daí: até então, concertos consistiam apenas em artistas tocando instrumentos e/ou cantando no palco, em frente ao público. Por mais que Madonna faça as duas coisas (seu acompanhamento ao vivo de guitarra em Hung Up sempre me mata) até hoje, ela foi além com a turnê Blond Ambition, trazendo temáticas e estabelecendo uma conexão entre cada música. Lembra toda aquela história da “Lady Gaga alienígena” na turnê Born This Way Ball (2011-2013)? Pois é, ela talvez não existiria hoje em dia se não fosse por Madonna.


A inovação de Blond Ambition ultrapassa aspectos visuais e abrange até mesmo questões tecnológicas que normalizamos atualmente. Essa foi a primeira turnê em que alguém usou um headset (aquele microfone que “paira” sobre a boca e envolve a nuca da pessoa, preso à orelha), e Madonna é a responsável pela popularização do aparelho no showbiz — a tal ponto que ele é conhecido alternativamente como “microfone da Madonna”.


O dispositivo transmite a voz por ondas de rádio, o que acabou com o embaraço de fios e microfones de mão, facilitando a realização de coreografias enquanto canta. Isso, somado aos revolucionários truques de iluminação e projeções de tela no palco, apenas provam a herança deixada pela turnê de Madonna para nós, fãs do pop.


E pensar que esse microfone é tão simples hoje em dia | Foto: Reprodução

Na última semana foi o aniversário de 30 anos do encerramento de Blond Ambition. De lá para cá, muita coisa mudou e muito tempo passou. Mas será que Madonna continua inovando? Claro que sim. A turnê do Madame X passou por alguns entraves e teve seu encerramento cancelado por causa da pandemia de Covid-19, mas deixou um grande marco.


A cantora capaz de lotar estádios optou por performar em teatros pequenos e proibiu o registro de fotos da plateia, buscando uma atmosfera intimista com o público. Meses depois, Madonna confessaria que não lucrou com a turnê devido aos ingressos caros e demais obstáculos. Porém quem se daria ao luxo de fazer um experimento artístico sob risco de prejuízo? Só Madonna mesmo.

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"Mana do mês" é a personalidade feminina influente escolhida para ser homenageada pelo Telas. Todo mês uma mulher importante e relevante é selecionada para contarmos sua história e legado.