Machismo: o influenciador que mais afeta as criadoras de conteúdo

É impossível olhar a internet e não encontrar eles publicando os mais variados conteúdos. Seja em um Blog, Facebook, Instagram, Twitter ou em qualquer outra rede social ou site, os influenciadores, sendo homens ou mulheres, estão por toda a parte. Assim como qualquer outra profissão, ser criador de conteúdo digital também prova das mais variadas problemáticas da sociedade. O mercado de influenciadores digitais também reproduz desigualdade de gêneros, com homens ganhando, em média, 20,8% a mais que as mulheres, mesmo elas sendo maioria nessa área da economia criativa, segundo uma pesquisa realizada pela Squid.


Por esse motivo, no nosso “Vamos Polemizar?” de hoje, falaremos não somente da desigualdade mas também de várias outras questões que possui o machismo como raiz principal do problema.


Antes de mais nada, precisamos entender o significado real de três palavras para que os termos não se confundam no decorrer do texto:

Influenciador digital: é um termo utilizado para designar aquelas pessoas que formam opinião, tendência e influenciam outras pessoas pelas redes sociais.

Blogueiro: é um termo utilizado para designar indivíduo que publica em blog.

Criador de conteúdo: é um termo utilizado para designar toda e qualquer pessoa que produza e crie conteúdo na internet.


Seja em blogs, no Instagram, Facebook, Twitter ou Youtube, os criadores de conteúdo estão por toda a parte. | GIF: Dribbble

Onde tudo começou…


Os blogs foram os primeiros a surgir e quem escrevia nele se tornava automaticamente um blogueiro. De acordo com o site RockContent, o primeiro blog foi criado por um brasileiro lá em 1994. O nome dele era Claudio Pinhanez, um cientista do MIT Media Lab e criador de um site chamado “Open Diary”, com objetivo de contar um pouco sobre o seu dia-a-dia. Logo depois foram surgindo outros sites que não muito diferente do criado por Claudio, tinham como objetivo falar dos mais variados assuntos envolvendo lifestyle.


Mas foi nos anos 2000 que eles ganharam mais força. Escrever em um blog começou a se tornar uma tendência dos adolescentes do novo milênio. Naquela época as redes sociais ainda não não eram tão populares e com isso, as pessoas usavam os blogs para se comunicar e compartilhar um pouco sobre a vida.


O nicho Lifestyle começou junto com os blogs e hoje é uma das categorias mais usadas na internet. | GIF: Aslan Almukhambetov

Com o passar do tempo, os blogs começaram a ter também uma cara mais séria quando empresas dos mais variados setores, inclusive do jornalismo, passaram a trazer seus conteúdos para esse universo. Nesse mesmo período surgiu o termo “blogueiro”, para categorizar as as pessoas que escreviam em blogs, mas que em grande maioria eram mulheres. Elas falavam de tudo: Moda, Beleza, Entretenimento, Turismo, Saúde, Lifestyle e etc. Foi nesse momento que as marcas começaram a perceber o poder de influência que elas tinham com o seu público-alvo, e assim elas passaram a ser as novas queridinhas da publicidade.


A grande verdade é que depois dos blogs, toda e qualquer pessoa que passasse a produzir conteúdo na internet começou a ser chamada de “blogueiro” ou “blogueirinho” e isso era independente se esse conteúdo era divulgado em um blog, no Youtube, Instagram ou etc.


Internet é, infelizmente, um reflexo da sociedade


Não é novidade pra ninguém que as mulheres são a maioria no mercado de influenciadores digitais e que, também grande parte do conteúdo que elas produzem está ligado ao setor de moda e beleza. Infelizmente, por esse motivo, muitas criadoras de conteúdo - chamadas de blogueiras mesmo que de fato não sejam - são taxadas como fúteis por falarem de temas historicamente femininos e considerados “bobos” de acordo com a cultura do machismo.


Por que criadoras de conteúdo que falam de moda e beleza são considerados fúteis? | Imagem: Freepik

Essa categorização relacionada a futilidade, começou ainda nos blogs e veio acompanhando o avanço da internet. Por esse motivo, e talvez você nunca tenha pensado nisso, a palavra blogueira atualmente é ligada, além do seu significado real, a alguém que é fútil ou que produz algo fútil. Existem inúmeros de influenciadores digitais que preferem ser chamados de “Criadores de Conteúdo” do que de “Blogueiros” - inclusive essa aqui que vos fala.


Particularmente falando, desde que comecei a produzir conteúdo na internet e aqui no Telas Por elas (o que me torna uma blogueira, uma vez que escrevo em um blog), passei a perceber como às vezes a escolha de uma simples palavra pode fazer com que uma frase tenha sentido diferente. Mas o real problema não está nessa questão, e sim no fato de associarem moda e beleza a algo fútil.


Além disso, no começo do texto apresentamos um dado encontrado em uma pesquisa realizada em uma agência de influenciadores digitais chamada Squid. A pesquisa foi feita com 2.800 influenciadores, de 37 categorias diferentes de conteúdo, cadastrados na Squid e que residem no todo o Brasil. No levantamento, 78,4% se identificam como mulheres, 20,6% se identificam como homens e 1,1% se identificam como não-binários. Em todos os tipos de conteúdos, os homens criadores de conteúdo ganham a mais que as mulheres. Inclusive nas categorias que citamos acima, lembra? As que historicamente são consideradas femininas e “bobas/fúteis” pela cultura do machismo: Moda, beleza, maquiagem, cosméticos e etc.


Se nessas categorias os homens ganham mais, a gente já pode imaginar como acontece nas categorias que historicamente são masculinas né? De acordo com a Squid, em “Cultura Nerd/Geek” e “Tecnologia”, os homens que criam conteúdo na internet recebem o dobro que as mulheres.


Embora sejam dados que choquem e nos causem uma revolta, a internet infelizmente vem acompanhando o padrão da sociedade atual. De acordo com o IBGE, no mercado de trabalho brasileiro, as mulheres recebem, em média, salários 20,5% menores que os homens.


Uma outra problemática que nós mulheres enfrentamos ao criar conteúdo na internet é: o nosso corpo não é nosso. Segundo uma pesquisa do Data Folha em 2017 sobre assédio sexual na rua, uma em cada três mulheres (29%) declaram já ter sofrido assédio sexual, sendo que 25% sofreram assédio verbal e 3%, físico, além das que sofreram ambos. Quando fazemos um recorte para a internet, o número fica ainda maior. Seja por comentários “discretos” ou em mensagem escancaradas a mulher que trabalha na internet vivência assédio todos os dias.


Muitos assédios na internet acontecem de forma discreta em comentários nas publicações. | Imagem: Freepik

Esse ano tivemos uma denúncia coletiva por influenciadoras digitais no programa de televisão da Victoria Derbyshire, na BBC. Nesse caso, eram criadoras de conteúdo britânicas que relatavam receber constantemente propostas em dinheiro para ter relações sexuais com homens desconhecidos. Uma das mulheres era Tyne-Lexy Clarson, que recebeu a primeira proposta aos 19 anos de idade, e disse que seu Instagram se tornou uma espécie de catálogo sexual para os homens.


Sem falar nos inúmeros casos que vemos diariamente em todos os lugares do mundo. Fotos nossas são compartilhadas em grupos masculinos, comentários indecentes são feitos em nossas fotos, mensagens bizarras são enviadas para nossos perfis e infelizmente é daí pra pior…


Não somente a internet, mas qualquer outro setor acompanha o machismo presente na nossa sociedade. É como se ele fosse um influenciador que aos poucos, consegue influenciar todos os lugares a agir de forma misógina e opressora. A solução não é combater o machismo apenas nos sites e redes sociais, é necessário tirar ele de nossas vidas. O influenciador que não precisamos mais seguir é ele, o machismo.


Que tal parar de deixar o machismo nos influenciar todos os dias? | Foto: Telas Por Elas

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A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.