Machismo: O grande campeão no esporte

Neste domingo, 19 de Julho, comemora-se o dia nacional do futebol, um dos esportes mais populares do mundo. Assim como o futebol, inúmeros esportes possuem a capacidade de unir pessoas, afinal, quantas vezes você já viu alguém abraçar um desconhecido ao comemorar uma vitória? Mas assim como em muitas outras coisas na vida, nem tudo são flores. Se você é mulher, certamente já ouviu algum tipo de comentário extremamente machista apenas por gostar ou praticar um esporte. Seja na quadra, na grama, nas águas, areia ou no tatame, o machismo infelizmente está presente. E é por isso, que no “Vamos Polemizar?” de hoje, iremos falar não somente do machismo no futebol, mas também do machismo no esporte.


Não é só um jogo! | Ilustração: Pevê Azevedo

Talvez você nunca tenha parado pra pensar em como esse assunto é recorrente e o motivo de nomearmos esse texto dando a ele o título de campeão no esporte. Mas sim, o machismo SEMPRE está presente. Se você pensar bem, certamente vai lembrar da típica frase que muitos homens e até mulheres falam pra tentar nos tirar a liberdade de fazermos o que sentimos vontade. Aquela famosa frase “Lugar de mulher não é aqui” quando querem nos dizer que por sermos mulheres, não deveríamos praticar esporte ou qualquer outra coisa. Sem contar as inúmeras vezes que acharam que a mulher gostar de esporte é uma tática para conquistar homem. Então sim! O machismo sempre está presente e infelizmente o grande campeão em qualquer esporte ainda é ele.


A luta pela inclusão feminina no esporte


Essa história de que “esporte não é coisa de mulher” vem desde as primeiras Olimpíadas em Atenas, quiçá até antes disso. Em Atenas, as mulheres eram privadas de participar tanto ativamente quanto passivamente, ou seja, tanto quanto competidoras como torcedoras. Os vitoriosos da competição eram selecionados de acordo com ideais da época de força, competitividade, agilidade, velocidade e outras qualidade físicas que naquele período, acreditavam serem exclusivas do sexo masculino. Os campeões das Olimpíadas eram considerados heróis e tinham direito a grandes honras e privilégios.


As mulheres eram privadas de assistir ou participar dos Jogos Olímpicos, sob pena de morte. O que restava a elas era o direito de se dedicar inteiramente à vida doméstica e a maternidade. A justificativa para tal proibição era fundamentada através da “fragilidade” dos corpos femininos, já que se participássemos de Jogos como aqueles, poderíamos ter danos físicos. Então para nos proteger, era permitido até nos matar. Irônico isso né? Daí já percebemos que ser mulher, desde os tempos da antiguidade, não era algo que fornecia privilégios e que por isso, não tínhamos o direito de escolher o que fazer, porque a sociedade já fazia isso por nós.


Nos Jogos Olímpicos de 1900 as mulheres podiam participar em jogos considerados “belos”, os que não tinham contato físico como golfe e tênis, por exemplo. Na foto Charlotte Cooper da Inglaterra. | Fonte: Romanzoti (2012)

A cada nova edição das Olimpíadas, a liberação ia aumentando e aos poucos as mulheres eram inseridas no esporte. A participação das mulheres nos Jogos Olímpicos, anda de mãos dadas com a participação da mulher na vida econômica, social e política, com a maior inserção na educação, mercado de trabalho e conquista de direito ao voto. Mas é importante deixar registrado que nenhuma dessas conquistas veio de forma natural, todos estes avanços foram frutos de muita luta e reivindicação por igualdade. Seja na antiguidade ou na modernidade, o machismo sempre foi um tema vivenciado pelas mulheres e a luta pela igualdade tá longe de terminar.


Mas afinal, como o machismo acontece no esporte?


Talvez você nunca tenha reparado, mas muitas vezes as categorias masculinas recebem muito mais visibilidade do que a feminina. Para pra pensar, quantos campeonatos femininos você acompanhou inteiramente pela TV aberta? Agora inverte e pensa nos masculinos? Consegue notar a diferença da visibilidade?


Mesmo que existam canais de TV fechada que compartilhem esses campeonatos, o número ainda é pequeno e certamente muito inferior ao campeonato onde os atletas são homens. Isso pode parecer algo indiferente mas não é. Em algum lugar pode existir uma menina que sonha em praticar algum esporte e que sempre ouviu que aquilo “não era coisa de menina”. O fato dela não conseguir tem nenhuma representatividade de fácil alcance, só ajuda a corroborar essa frase de que mulher não pode praticar esporte. Então sim, a representatividade importa!


Deixa ela ser o que quiser! | Arte: #DeixaElaTreinar

Além disso, existe uma forte resistência contra qualquer corpo feminino no esporte. Nas Olimpíadas do Rio isso ficou bem claro. Quando a seleção masculina (e milionária) não apresentou um futebol convincente, os olhares se voltaram para as mulheres que ganharam com tranquilidade os primeiros jogos. Mesmo sem o incentivo necessário, elas brilharam como sempre e pela primeira vez tiveram a mídia e torcida fortemente com elas. Mas bastou uma derrota, apenas uma, para que o sonho terminasse. Milton Neves, um dos jornalistas esportivos com mais visibilidade no país, direcionou comentários machistas e sexistas sobre as jogadoras.


Milton Neves faz comentários machistas no Twitter. | Imagem: Reprodução

Um estudo conduzido entre setembro de 2017 e março de 2018, pela ONG Britânica Woman In Sport, a maior instituição do ramo na Inglaterra, constatou que 40% das mulheres no esporte enfrentam discriminação de gênero. O número foi apresentado no "Beyond 30 per cent: Workplace Culture in Sport" ("Além dos 30%: A cultura do local de trabalho no esporte", em tradução), ao ouvir 1.152 homens e mulheres do meio esportivo. Vamos aos dados?


  • Cerca de 20% vivenciou situações semelhantes

  • 40% das mulheres acreditam que o próprio gênero tem impacto negativo na maneira como são valorizadas em suas carreiras.

  • 30% delas já foram alvo de comportamento inapropriado de um membro do sexo oposto no ambiente de trabalho. Enquanto 10% dos homens disseram o mesmo.

  • 72% dos homens ouvidos acreditam que homens e mulheres são tratados de maneira igual e justa no mercado do esporte. Enquanto 46% das mulheres concordaram com essa afirmação.


O dado da pesquisa em que 72% dos homens disseram que homens e mulheres são tratados de maneira igual e justa pode ser claramente argumentando, porque sabemos que não é bem assim que funciona né? Em um mundo dos sonhos, gostaríamos muito que essa fosse a realidade, mas no planeta Terra em pleno século XXI, não é bem assim que acontece viu?


No ano de 2018, mesmo ano em que a pesquisa foi finalizada, aqui no Brasil aconteceu o campeonato Oi Park Jam, uma competição de skate em Santa Catarina. O que chamou a atenção no campeonato foi o valor discrepante do prêmio da categoria feminina e masculina. Yandira ASP foi a vencedora da categoria entre as mulheres e levou pra casa um prêmio de R$ 5.000, nada mal né? Sim, se não fosse o fato de que o vencedor masculino, Pedro Barros, levou R$ 17.000. Apenas 12 mil reais de diferença por ganhar a mesma competição, pouco né? (contém ironia)


Yandira e Pedro no pódio da premiação. | Foto: Reprodução

A diferença dos valores presente na foto publicada pelo evento, fez com que muitas pessoas se posicionassem sobre o assunto. Frases como “os homens estão nisso há mais tempo” ou “a categoria feminina chegou agora e já quer sentar na janela?” ajudam a provar que a desigualdade ainda é grande no esporte e o machismo maior ainda. Os responsáveis pelo Oi Park Jam se posicionaram e disseram que as premiações foram diferentes porque levavam em consideração o número de praticantes ainda entre os gêneros. Alegando que foram 23 homens profissionais e apenas 10 mulheres, sendo maioria “amadora”. A grande questão é que como podemos promover a igualdade de gênero e incentivar que mulheres pratiquem esporte se as premiações e patrocínios dão mais visibilidade e incentivo aos homens? Afinal de contas, por que as mulheres não são profissionalizadas e os homens são? Por que o trabalho delas é tratado em uma categoria inferior?


E isso não ocorre só no skate. Quantas vezes esse debate foi levantado por tantas outras mulheres no esporte? Quantas Martas, Hortências, Rondas, Cristianes, Maureens, Rafaelas, Chloés, Fabianas, Serenas, Simones e tantas outras atletas, já gritaram pedindo igualdade no esporte? Porque essa recusa toda em ouvir?


Mulher x Esporte


Eu particularmente posso dizer que a frase de que “lugar de mulher não é no esporte” já me foi dita muitas vezes e tenho certeza de que ainda vou ouvir muito. Quando eu tinha 6 anos de idade, adorava brincar na rua da vila onde minha tia morava. Lá, brincávamos de queimado, pique bandeirinha, pau na lata e às vezes, futebol. Um dia, meu tio chegou e com o tom de voz bem grosso me mandou entrar, disse que “futebol não era coisa de menina” que eu deveria estar dentro de casa brincando de boneca. Pode parecer bobo, mas para uma criança ouvir aos 6 anos de idade que não pode brincar do que gosta porque aquilo a faria menos menina, é um tanto quanto confuso. Aos 11 anos, vi um amigo meu andando de skate e disse aos meus pais que queria ganhar um de presente. Mas… acho que não preciso terminar a história, porque certamente vocês já sabem o que eu ouvi deles né? Várias vezes ouvi também que o único motivo de querer acompanhar as competições de qualquer esporte era pra chamar atenção de algum homem, ou ainda para conquistar alguém.


“Esporte não é coisa de menina!” | Ilustração: Dika Araújo

Frases como “Nossa! Você joga bola? Não sabia que mulher levava jeito com bola!”, “Você entende de futebol pra jogar bola?” “Pra mim lugar de mulher não é na quadra!” “Você é muito bonita pra jogar bola!”, foram ouvidas pela carioca Christine Diniz, de 24 anos e que joga futsal desde os dezoito. Para ela o machismo no esporte é o reflexo de uma sociedade que propaga a cultura do machismo, fazendo com que frases como essas se tornem infelizmente comuns.


“Eu acho que as mulheres ainda vivenciam situações como essas porque ainda temos o machismo enraizado. E esse machismo que sempre foi enraizado na sociedade, ele sempre deixou isso né? Que as mulheres não conseguiriam praticar esportes ou que as mulheres não conseguiriam praticar as mesmas coisas que os homens. E eu acho que isso que acaba fazendo com que as mulheres passem por essas situações sabe? Dos homens sempre se acharem mais importantes ou melhores do que as mulheres nesse sentido profissional e nesse sentido da prática do esporte.” Christine Diniz

Christine Diniz ocupa a posição goleira no futsal. | Imagem: Reprodução

Assim como Christine, a paraibana Yasmin Tenório, de 18 anos e atleta de voleibol desde os nove, também acredita que esse tipo de posicionamento vindo de homens é pautado através de uma sociedade que propaga atos machistas e retrógrados.


“Eu acho que a mulher sofre pelo fato do homem se achar superior a ela, então, ele acha que pode falar o que quiser e fazer o que quiser. E muitas vezes a sociedade, faz com que isso aconteça também né? Algumas coisas que a sociedade impõe, de antigamente, alguns costumes, faz com que o homem pense isso também. Que o mundo e as mulheres não mudaram, que a gente é inferior e tudo mais.” Yasmin Tenório.


Yasmin Tenório é atleta de voleibol desde os 9 anos. | Foto: Reprodução

Fora das quadras, o machismo infelizmente também está presente. A carioca Magda Araújo, de 21 anos e atleta de Judô, já precisou ouvir poucas e boas em competições do esporte.


“Eu já passei por várias situações machistas dentro do judô, dentro do esporte vamos dizer assim. Eu estava em uma competição fora do rio, uma seletiva, daí tinha alguns meninos bobos e idiotas eles viraram pra mim e falaram “O que você tá fazendo aqui?”, porque eu era muito magrinha “Você é magra desse jeito. Você deveria estar em casa brincando de boneca! O que você tá fazendo aqui?”. Ai eu virei e falei “Amigo, eu tô aqui pra competir igual você!” aí ele “Lugar de mulher não é dentro do tatame!” e eu falei “É? Vou te mostrar diferente!”. Eu até ganhei essa seletiva, graças a Deus.” Magda Araújo


Magda Araújo foi campeã no Judô em 2017. | Foto: Extra

Verdade seja dita, para a sociedade a mulher não deve praticar e nem gostar de esporte. Fernanda Pizzotti, Gabriela Rossi e Jade Carvalho, compartilham a mesma paixão: o amor pelo esporte e pelo futebol. Desde pequenas herdaram esse amor da família e acompanham competições das suas modalidades preferidas.


Além de conviver com o machismo no esporte por gostar de acompanhar futebol e basquete, Gabriela Rossi de 22 anos, precisa lidar com os obstáculos de ser mulher e trabalhar na cobertura esportiva de eventos de futebol.


“Principalmente quando você é jornalista, que é o meu caso, você tem que provar 80 vezes mais que você é boa. Tem que provar que você sabe do que você tá falando, que você sabe do que você tá cobrindo, que você tem credibilidade. A sua pauta precisa ser 2 vezes melhor para ser aprovada. Fora do trabalho e até dentro também, tem a questão do fetichismo. Que quando o cara vê que você sabe, o cara começa a te ver como um bicho, sabe? Ter um fetiche porque acha que você ta fazendo isso pra impressionar homem ou chamar atenção, sendo que você só quer curtir seu esporte de boa sabe? E aí os caras acham, que por você conversar sobre esporte, futebol, basquete, whatever com eles, é porque você tá dando mole ou quer alguma coisa.” Gabriela Rossi

Gabriela Rossi além de amante do esporte, é repórter esportiva. | Foto: Lucas Figueiredo.

Assim como Gabriela, Fernanda Pizzotti, de 39 anos, também acompanha futebol e trabalha no ramo esportivo. Repórter no Damas do Esporte, um programa de rádio focado em transmissão esportiva totalmente feminina, conta que por serem mulheres e trabalharem no esporte, a equipe do Damas no Esporte precisou enfrentar situações delicadas mas que ainda assim acredita que o machismo no ramo vem diminuindo com o passar dos anos.


“Então no início foi muito difícil, porque ninguém tá acostumado a ver uma mulher narrar, por exemplo. E é realmente diferente pra uma coisa que você nunca ouviu e a gente sofreu muito no início. Hoje não, as as pessoas respeitam e gostam do nosso trabalho. Também teve uma outra amiga minha no Damas que a gente tava na festa de premiação do brasileiro e ai ela tava toda arrumada, maquiada, enfim a que a ocasião pedia. E veio um cara e virou pra ela e falou que aquilo ali não era desfile de moda. Ela tava lá trabalhando e o cara mandou essa pra ela. Então assim, existe ainda! Isso foi em Novembro Dezembro do ano passado quando o cara falou isso pra ela. (...) Tem muita coisa ainda que acontece, tem muita coisa velada, mas também tem uma grande parte que gosta, que aceita, que curte e que apoia.” Fernanda Pizzotti


Fernanda Pizzotti é repórter no Damas do Esporte. | Foto: Felipe Duest

Jade Carvalho de 21 anos, também acompanha futebol e costuma ir a estádios com frequência. “Você gosta de futebol? Então o que é impedimento?”, “Fala a escalação do seu time!”, “Mas como você vai pro estádio sozinha? Não tem medo? Seu pai deixa?” são frases que Jade já ouviu inúmeras vezes por acompanhar as competições do esporte. Ela acredita que mesmo passando por situações desconfortáveis e machistas, a mudança está vindo e as mulheres estão conseguindo aos poucos conquistar o tão sonhado espaço no esporte.


“O lado bom é que vejo que cada vez mais as mulheres estão conquistando o seu lugar na arquibancada, vejo cada vez mais mulheres no Maracanã e tendo boa influência na torcida. Hoje em dia os clubes também tem feito muitas campanhas que lugar de mulher é no estádio. Isso ajuda muito a conquistar nosso espaço.” Jade Carvalho


Jade Carvalho é Flamenguista e costuma ir ao Maracanã acompanhar o time. | Foto: Reprodução.

Lugar de mulher é sim no esporte!


Mesmo diante de tantos episódios machistas que muitas mulheres precisam passar apenas por gostar de esporte, é preciso admitir que estamos caminhando em direção à uma mudança. Talvez demore anos ou séculos, mas ela irá chegar. Enquanto isso a luta continua!


Continuaremos denunciando os assédios, a desigualdade salarial entre homens e mulheres, a falta de incentivo ao esporte feminino, seja através dos patrocinadores ou campeonatos e os comentários machistas vindos de quem quer que seja. Nós nos incomodamos mesmo e continuaremos nos incomodando. Seja no esporte, na rua, no trabalho ou onde estivermos.


Nossa luta continua! | Ilustração: Luv

Nós do Telas Por Elas adotamos um slogan que diz: “Lugar de mulher é na cultura! E onde mais ela quiser”. Por isso acreditamos que sim, o lugar da mulher é no esporte!


Aos homens leitores, deixamos aqui um recado: O mundo não gira em torno de vocês! As mulheres não passam a gostar de um esporte pra chamar sua atenção ou conquistar seus pobres corações. Na vida, as coisas não se resumem a um jogo de conquista onde precisamos nos enquadrar ao padrão que vocês, homens, consideram perfeito. Então não! Nós não nos moldamos para vocês e nem passamos a acompanhar um esporte só porque você gosta. Que tal começar a pensar que a vida não gira em torno do seu umbigo?


_____


A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.