Indústria Americana é um documentário que propõe reflexões

Distribuído pela Netflix e eleito o Melhor Documentário no Oscar 2020, Indústria Americana acompanha a chegada de uma multinacional chinesa à Dayton, no estado de Ohio, em 2015. A Fuyao, empresa chinesa de vidros, ocupa um espaço obsoleto de uma antiga fábrica da General Motors, que encerrou suas operações no local em 2008 e, consequentemente, deixou milhares de desempregados e uma região em crise.


É neste ponto que começa o documentário dirigido por Steven Bognar e Julia Reichert. Mas, em seguida, já apresenta uma mudança drástica. De desolação dos americanos locais à perspectiva de futuro dos chineses recém-chegados à cidade. A partir desse cenário, as gravações se desenrolam e tocam em pontos de reflexão importantes para uma data como hoje, 1º de maio, o Dia Internacional do Trabalhador.



Não há a presença de um narrador e a história é contada pelos próprios entrevistados. Eles trazem à tona questões como o choque entre culturas, que se mostra presente no embate entre “o jeito americano de ser” e “a obsessão pelo trabalho dos chineses”, além do desmonte sindical nos Estados Unidos e a precarização do trabalho como alternativa ao desemprego.


É um documentário que, no mínimo, vai na contramão do pensamento trumpista, e não é só por ter o aval da produtora Higher Ground, de Barack e Michelle Obama. O filme desenvolve uma narrativa que não coloca os chineses como rivais dos americanos, pelo contrário, são eles que dão esperança a toda uma região.


Apesar disso, a situação muda com o avanço das cenas e os chineses são responsáveis por despertar uma reflexão sobre mão-de-obra barata aos trabalhadores da fábrica. Vale destacar que isso sempre ocorreu, mas ficou invisibilizada geralmente aos imigrantes (ou não “puros”) e trabalhadores de multinacionais dos Estados Unidos em outros países com leis trabalhistas e ambientais menos rígidas.



Visões culturais opostas

Após mostrar, de forma rápida, o fechamento da General Motors, o documentário salta para 2015, ao apresentar um casal de chineses que conversa sobre a vida na região. De cara, já vemos uma mudança de perspectivas. Há uma inversão de papeis: não é uma “indústria americana” que vai trazer progresso, mas sim uma chinesa.


A partir deste momento, acontece a integração entre as duas culturas. Há, inclusive, aula para os chineses sobre o modo de vida dos americanos. Mas, logo, a visão oposta sobre os assuntos referentes ao trabalho mostra as diferenças que pulsam nas gravações, que não possuem interferência dos diretores. As barreiras linguísticas e culturais surgem naturalmente.


Para os chineses, os nativos “são lentos e possuem dedos grossos”, já os americanos se veem no meio da pressão entre velocidade de produção e exigência de qualidade dos novos chefes. Um trabalhador americano relata que, com o passar dos meses, houve “uma guinada a 180º” em relação ao otimismo.


Mas não há só embates entre chineses produtivos versus americanos improdutivos. Os diretores acertam ao humanizar essas relações. Chineses são convidados às casas dos trabalhadores locais e os americanos são bem recebidos pelos chineses quando levados para conhecerem a fábrica na China. Isso reforça que as forças que causam rivalidade são maiores a esses trabalhadores, existe uma questão estrutural do capitalismo.



Consciência de classe e o desmonte sindical

O documentário estabelece um forte debate sobre consciência de classe ao dar ênfase na sindicalização dos trabalhadores e mostrar como há um desmonte nos Estados Unidos atualmente (o que não é diferente aqui no Brasil também). Na festa de lançamento da fábrica, o senador Sherrod Brown chega a reforçar a necessidade de engajamento sindical dos funcionários.


Como acompanha muito bem todas as partes inseridas nas gravações, o documentário pega a reação do alto escalão da empresa. "Se um sindicato entra, a fábrica fecha", diz o presidente. Por outro lado, eles falam aos empregados que reconhecem a necessidade de serem justos.


De fato, não é o que acontece tanto que, ao longo dos dois anos de gravações, cerca de três mil pessoas já pediram para sair ou foram demitidas. E, para isso surge uma campanha, com cartazes que ditam “UNION YES”, para a criação de uma organização sindical.


O documentário mostra os dois lados em reuniões. Os funcionários americanos, que traçam metas para a eleição de uma nova organização sindical, e os líderes chineses que buscam medidas para esvaziar essa mobilização. Dentre elas, demitir funcionários mais engajados e contratar uma consultoria laboral para evidenciar impactos negativos de greves, por exemplo.



A inversão de papeis e precarização do trabalho

Indústria Americana mostra os moradores locais em uma relação de dependência financeira dos imigrantes. Os americanos não ditam as regras. Se antes recebiam salários maiores trabalhando na indústria automobilística nacional que sucumbiu na crise de 2008, agora, precisam aceitar as tomadas de decisões dos chineses.


Além dos baixos salários, que fazem um trabalhador dizer “que está lutando para voltar a classe média”, os americanos ainda são expostos a situações laborais perigosas. Isso se deve ao fato de os empresários chineses não aceitarem algumas regras de Segurança do Trabalho impostas pelo governo dos Estados Unidos. A cultura chinesa preza pela produtividade e tudo que possa atrapalhar isso deve ser descartado ainda que os funcionários trabalhem 12 horas diárias e tenham poucas folgas, como acontece na fábrica na China.



Com isso, podemos ver a face mais perversa do capitalismo que causa uma tristeza geral que homogeniza os trabalhadores já que americanos e chineses são explorados. Por isso, os diretores do documentário acertam ao mostrá-los não só como personagens dentro da fábrica, mas sim como pessoas com vidas fora dela.


No entanto, poderiam ter tratado de forma mais incisiva como a estrutura do capitalismo oprime ambos trabalhadores: os americanos que repetem o “american way of life” e os chineses que geralmente vivem sob o lema de "o objetivo da vida é trabalhar". Esta é uma frase dita pelo presidente da Fuyao após breve reflexão se tudo o que ele construiu fez bem para sociedade ou destruiu vidas e o meio ambiente, por exemplo.


O documentário também peca por manter tom institucional ao abordar um caso específico sem ambientar outras questões gerais. No documentário, vemos uma indústria chinesa em busca de mão-de-obra barata nos Estados Unidos, mas a recíproca também é verdadeira. Multinacionais americanas buscam outros países para driblar leis mais rígidas. Algumas fábricas americanas ainda são acusadas de infringi-las dentro do próprio Estados Unidos. Poderia ser mencionado para não permitir pensamentos de que só os chineses são “vilões” e que a indústria americana é um pilar a ser seguido.



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