"I Trust" de (G)I-DLE mantém nível de qualidade do grupo

“I Trust”, terceiro mini-álbum do (G)I-DLE, mal estreou e já se tornou o EP com melhor desempenho nas vendas na breve existência de dois anos do girl group. O disco traz Oh My God como faixa-título e LION como single, e ambas músicas ganharam MVs belíssimos de se ver. Todas as cinco faixas do lançamento foram escritas por Soyeon e são melodias dançantes ideais para curtir naquele momento de distração.


Capa das versões físicas do EP lado a lado. Foto: Divulgação

“I Trust”: o conceito


“I Trust” é a terceira etapa do caminho traçado pelo (G)I-DLE nos lançamentos anteriores, com os EPs “I Am” e “I Made”. Depois de ser e produzir, é a hora das garotas confiarem em si mesmas. A confiança mencionada no título remete a determinação, segurança e autoafirmação. O mini-álbum físico tem duas versões: Lie (branca) e True (preta).


Isso tem relação direta com a tentativa de Soyeon de expressar, com o mini-álbum, os sentimentos bons e ruins que alguém é capaz de sentir. Como a boa otaku que é, Soyeon também alega que o anime KonoSuba foi sua inspiração para a elaboração do concept de “I Trust”.


Uma intervenção, antes de tudo


Você diria não para esse bebê? Mas a Cube e a Soyeon dizem... Foto: Divulgação

O questionamento que todo neverland está fazendo agora é: cadê a Shuhua? A distribuição de versos de “I Trust” foi mais justa que nos discos anteriores no sentido de que Soyeon não roubou o tempo de todas as integrantes em todas as músicas, mas… Se por um lado Soyeon finalmente entendeu que não é para compor melodias que favoreçam apenas sua voz (amém, né, afinal tem mais cinco meninas no grupo), por outro lado ela ainda não sabe onde meter a Shuhua nas canções.


E isso é uma injustiça, já que Shuhua mais que provou sua capacidade de canto. Seu verso em LION é ótimo e consiste em um dos momentos mais longos da aparição dela no álbum. Sua presença de dois segundos em Luv U dá pena. Shuhua tem literalmente um verso em Maybe. Sua parte em Oh My God é bem diferenciada e agrada os fãs, mas ao mesmo tempo parece que ela foi limitada àqueles versos, e não canta mais nenhuma estrofe da faixa-título.

Muitos levantam a teoria de que Shuhua não ganha mais versos porque ainda não tem confiança no seu coreano. Se essa é de fato a razão, fighting e ficamos na expectativa de que ela aprimore seus estudos. Agora, sendo essa uma questão de produção, eu particularmente tenho esperanças que esse quadro melhore nos lançamentos futuros, já que Soyeon deu indícios de que ela segue em desenvolvimento para compreender o potencial de cada integrante e elaborar músicas mais justas.


“I Trust”: a tracklist



A faixa-título Oh My God pode parecer que simplesmente evoca a expressão cotidiana “meu deus”, mas os sinos de igreja na melodia e menções a pecado e tentações (“Ah, Deus, como você pode me impor essa tentação, seria isso um chamado do inferno?”, canta Soyeon) denunciam que o significado do “oh my god” no refrão é muito mais profundo.


Oh My God traz palavras em inglês nos momentos certos para os fãs internacionais cantarem e curtirem a música. Porém, o que mais chamou a atenção foram os versos “Oh my god/She took me to the sky/Oh my god/She showed me all the stars” (Ai meu Deus/Ela me levou aos céus/Ai meu Deus/Ela me mostrou todas as estrelas), que provocaram piadas no fandom sobre lesbianismo. Talvez seja uma música de amor para outra mulher? Mas sabemos que sempre haverá uma longa explicação oficial (longe do amor paixão) para isso.


E, de fato, há: segundo o site da CUBE, Oh My God “expressa a temática ‘eu posso ser confiante simplesmente por acreditar em mim mesma’ enquanto sofro rejeição ou confusão”. Nessa lógica, a “ela” mencionada no refrão seriam as próprias garotas do (G)I-DLE. Mas é bem mais divertido achar que é uma música para outra mulher, né?



Oh My God soa semelhante a LION para alguns fãs, muito provavelmente pela estrutura parecida. Ambas as músicas começam com versos lentos e aceleram o ritmo à medida que a melodia avança. E, apesar da progressão de velocidade, concluem a canção com o retorno aos versos lentos do início.


Acredito que o silêncio poderoso antes do refrão em Oh My God, e a desaceleração extrema que a música sofre nessa parte, sejam suficientes para notar que, não, Oh My God e LION não são parecidas. O refrão de LION é forte para ilustrar a realeza do leão, enquanto Oh My God tem uma batida mínima e se foca no clamor de arrependimento com “ai meu deus”.


Yuqi e Miyeon merecem uma menção honrosa pelo pré-refrão. Ele traz uma grande impressão de urgência que te pega, e as vozes delas só melhoram a sensação. Entretanto, uma coisa que faltou em Oh My God foi uma batida mais poderosa na conclusão do refrão na última parte, cantada após o (único) verso de Shuhua. Aquele também poderia ser o momento perfeito para adicionar um dance break bem forte e enérgico — se a música não fosse fechar com os versos lentos do começo, claro.


A versão em inglês de Oh My God é a última faixa do álbum. O sotaque das meninas do (G)I-DLE já era mais que esperado, porém parece que a letra em inglês perde a fluidez do coreano por motivos além de pronúncia — alguns versos dão a impressão de ter “sílabas a mais” que impedem de manter o ritmo da versão original. No mais, a música é boa para quem quer cantar tudo e entender a letra — e parabéns para a Soyeon por gravar o seu rap todo em inglês!



Luv U se destaca logo no começo com o ritmo ditado por estalos de língua. A música se baseia em baixo e bateria, que compõem a batida durante a progressão da melodia. A energia do rap inicial de Soyeon é quebrada por uma ponte mais lenta com um quê de balada, até concluir com o refrão estilo trap com repetidos “eu te amo”.


Considerando que a letra descreve a sensação de se apaixonar sem querer e ser sobrecarregada pelo sentimento, o refrão de Luv U culmina na entrega à pessoa amada com um efeito bem impactante aos ouvidos, apesar da batida repetitiva. Além disso, o trap da música traz um estilo “laidback” que combina bem com as garotas, e é bem alinhado com o conceito girl power frequente de (G)I-DLE. Contudo, a escolha de gênero (com um pezinho no hip hop) fez com que, obviamente, Soyeon se apoderasse da maior parte dos versos — e de Shuhua nem se fala, tadinha.


Maybe supostamente “representa a confusão que uma pessoa encara ao acreditar em si mesma”. Na prática, a letra dá a entender que o eu lírico quer deixar a pessoa amada, mas não tem coragem de fazê-lo e sua relutância é expressada pelo “talvez” do refrão, que é acompanhado por uma batida eletrônica bem minimalista.


A progressão de Maybe é inesperada, como é de praxe na discografia do (G)I-DLE. A batida inicial, seguida pelo rap de Soyeon, cria o clima de incerteza que é fortalecido pelo crescimento dos próximos versos. A ponte “Don’t worry baby/I love you baby” (Não se preocupe, querido(a)/Eu te amo) traz uma asseguração que é logo quebrada pela resposta do refrão de uma só palavra: talvez.



LION, o single queridinho de todo neverland e vencedor do prêmio de Melhor Apresentação Feminina do Golden Disc Awards de 2020, foi inspirado no Rei Leão após Soyeon assistir ao live-action. A ideia é abordar a “rainha leoa” como majestade e selvagem e, bom… Elas conseguiram bem isso, com direito a rugidos de leão na música.


Para além da combinação de figuras como garras e cortes com tronos e coroas no MV, LION demonstra a selvageria com raps acelerados de Soyeon e versos lentos e ameaçadores no começo e no fim. E ainda temos a Shuhua, lindíssima, cantando a parte cheia de finesse sobre a realeza leonina. O significado profundo da canção é intensificado pelo fato que, uma por uma, todas as integrantes cantam o refrão “I'm a queen like a lion” (Eu sou uma rainha feito um leão).


Cara de quem sabe que vem comeback bem-sucedido por aí. Foto: Reprodução

O veredito final


O EP só tem cinco músicas (ou três se desconsiderarmos a versão em inglês de Oh My God e a já conhecida LION)? Sim, mas ouviria todas de novo. “I Trust” é bem consistente no objetivo de distrair e curtir batidas variadas no bom e (não tão) velho girl power do (G)I-DLE.


“I Trust” mantém o nível de qualidade do grupo e aumenta expectativas para um full álbum ainda mais diverso ritmicamente falando. O trabalho em cima do concept foi muito bem executado, e o MV e a batida de Oh My God são um prato cheio para os olhos e os ouvidos. Seria uma música que tocaria em festas? Não, mas essa não era a meta do (G)I-DLE com esse lançamento. Quer baladinha? Então vai curtir LATATA ou Señorita.


O (G)I-DLE tem um longo caminho para seguir a fim de diversificar sua discografia (sem soar esquizofrênica tipo as veteranas CLC), mas isso acontece de lançamento em lançamento, sem pressa e de forma coerente. Uma única ressalva: Soyeon, minha linda, você é a líder do grupo mas não trabalha solo. Bora aprender como aproveitar os talentos das outras integrantes para montar distribuições de versos mais justas.


____

Quer saber nossas impressões sobre diversas obras das mulheres na cultura? Cinema, música, literatura, teatro e muito mais. Tudo isso, duas vezes por semana, na categoria 'Crítica'.