Fan service em anime: o que homens e mulheres desejam?

Fan service significa “serviço a(o) fã” em português e se refere, basicamente, a aquele momento em que você está acompanhando uma história e sente que tal coisa aconteceu apenas para te agradar. Sabe aquela cena favorita entre seu ship não-tão-cannon? Ou aquele ângulo que mostra algum personagem de uma forma mais lisonjeante? Pois é, tudo isso é fan service.


A ideia é cativar o público para que ele continue consumindo aquela série, livro, filme ou (entrando no mundo otaku) mangá e anime. Mas o que acontece quando o fan service não te atende? Quando aquela cena desnecessária só parece ser isso — desnecessária — para você? O “Vamos Polemizar?” dessa semana discute as diferenças entre o fan service voltado para homens e para mulheres, analisando o que cada gênero (supostamente) acha desejável, segundo as produções japonesas.


Uma (não tão) breve contextualização

Essa roupa era mesmo necessária? | Foto: Reprodução

O termo fan service em si vem do japonês (no original, ファンサービス: fansaabisu), mas a ideia de satisfazer a audiência entregando o que ela quer gratuitamente é bem mais velha que a cultura otaku e existe para além do universo de animes e mangás, estando presente também no Ocidente há bastante tempo. Pare um pouco para pensar: era realmente necessário que a Princesa Leia vestisse um biquíni metálico (minúsculo, diga-se de passagem) quando foi mantida em cativeiro por Jabba the Hutt? Eu acho que não. Taí um exemplo de fan service em um filme estadunidense de quase 40 anos atrás.


Além da Escuridão, segundo filme do reboot de Star Trek por JJ Abrams, é um exemplo de fan service que mais ofendeu do que agradou. A personagem Carol Marcus aparece trocando de roupa em um momento do longa, e é óbvio que a câmera faz questão de enquadrar seu corpo seminu por completo no frame. Tanto a cena quanto o ângulo são completamente desnecessários para a trama; aquilo está ali para dar prazer a alguém. A quem? Aos homens heterossexuais, claro.


A cena foi muito criticada, a ponto do roteirista Damon Lindelof pedir desculpas publicamente no Twitter: "Compreendi o fato de que deveríamos ter feito um trabalho melhor para não ser gratuita a representação de uma atriz em roupas de baixo". Óbvio que Leia de biquíni também é algo revoltante, só que os filmes foram lançados em épocas diferentes, de maneira que só há alguns anos que as pessoas vieram a criticar abertamente o fan service da princesa em Star Wars.

...E essa cena era mesmo necessária? | Foto: Reprodução

Resumo da ópera: várias produções que você adora, de beeem longe da Ásia, também contêm alguns dos traços desagradáveis que apresentarei a seguir, então não aponte dedos. A diferença vital é que o fan service é muito mais “naturalizado” no meio otaku, enquanto que o público das produções em inglês é mais fiscal e sua militância alcança um maior número de pessoas por ser a cultura dominante (lê-se: otakus também problematizam, mas fica tudo dentro do fandom porque os “outsiders” não acompanham os debates).


O que eu busco enfatizar com isso é: eu sou otaku e vou agora reclamar muito do fan service em animes e mangás porque é isso o que eu vivencio, mas nem por um instante pense em usar isso como pretexto para mascarar xenofobia ou justificar preconceitos contra fandoms. (Sim, otaku não vale nada, mas a gente se ofende entre si, beleza? Galera de fora não tem permissão para fazer o mesmo.)


Dito isso, vamos entender como o fan service aparece em animes e mangás.


Os garotos só pensam naquilo

Erza não tem mamilos | Foto: Reprodução

Quem vê anime sabe bem qual é o fan service masculino (ou seja, as cenas feitas para agradar homens): seios balançando e desafiando a gravidade, closes desconfortáveis de calcinhas e roupas reveladoras que são claramente desconfortáveis para as personagens. A ideia é que esses “brindes” sejam dados para a audiência de tempos em tempos para fidelizar os fãs e incentivar compras e (falando em português claro) a obsessão fanática.


A fixação por artifícios do fan service é tanta que virou um gênero próprio com a criação do ecchi. Em comparação com o hentai (que todo mundo conhece vulgarmente como pornografia desenhada), a proposta do ecchi é ser mais softcore e menos explícito, usando e abusando das conveniências do fan service para atiçar e provocar os telespectadores. Tome como exemplo Highschool of the Dead, que pode ser descrito como um The Walking Dead colegial — exceto pelo fato que a história é centrada em um garoto que acaba em um apocalipse zumbi comodamente cercado por gostosas. Se você não consegue imaginar isso, então aqui vai uma foto do menino apoiando um fuzil nos peitos de uma garota para atirar em mortos-vivos.

Sério | Foto: Reprodução

O ecchi é só fan service e basicamente não tem enredo. Isso não me implica tanto porque eu sei o que esperar de Highschool of the Dead, já que ele é bem honesto quanto a sua proposta. O que é frustrante para mim e tantas garotas otaku é assistir a um shounen (pick your fighter: Naruto, One Piece, Fairy Tail e cia.) e ter uma cena de luta interrompida por um zoom desnecessário em um par de seios.


O fan service masculino aparece assim, bem no meio da sua cara, e simplesmente não tem como ignorar ou fingir que não viu. Mas e o fan service feminino para mulheres? Onde ele aparece? Onde vive? O que come?


Do que as mulheres gostam


Se o fan service masculino tem zoom em silhuetas de peitos, então o equivalente no fan service feminino seria um close-up desconfortável no pau de um cara? Não. Naruto, Fairy Tail e os outros animes shounen que mencionei, apesar de tradicionalmente se voltarem para o público masculino, também trazem uns agrados para as meninas. Desde o Gray sem camisa mostrando o tanquinho até a cena mais icônica do Naruto clássico, que é o beijo SasuNaru.

Cena mais zoada do século | Foto: Reprodução

É nesse momento em que vocês perguntam, “então dois caras se beijando é fan service feminino??”, e eu respondo: sim. Os artifícios para prender a atenção de meninas em animes e mangás aparecem num plano muito mais sentimental e emotivo do que físico. Claro que curtimos ver uns caras gatos (afinal, é por isso que todo protagonista é um baita bishounen), mas o fan service feminino acontece, em sua maioria, de maneira discreta e que não se intromete tanto no enredo quanto o fan service masculino.


Verdade seja dita, o próprio beijo SasuNaru é um ponto fora da curva para o fan service feminino. Esses momentos dúbios entre personagens (em geral, ambos homens) costumam aparecer com disputas de olhares e toques breves — algo bem menos explícito do que o apertar de seios inconveniente do fan service masculino. A ideia é estimular a imaginação das fangirls para que elas produzam fanfics, doujinshis e consumam mais produtos daquela franquia.

Isso é fan service feminino | Foto: Reprodução

Claro que o fan service feminino não se limita a casais gays. Ouran High School Host Club é um ótimo exemplo para mostrar como os interesses de meninas podem ser variados no mundo dos animes. O harém conta o cotidiano de Haruhi, uma menina que estuda cercada por homens de diversas personalidades. Essa técnica busca satisfazer a todos os gostos: tem o menino quieto e atencioso, o calculista e frio, o barulhento e desastrado, o fofo e juvenil… E todos têm em comum a beleza, que é um típico fan service feminino que facilmente passa despercebido.


Mas nem sempre o fan service para mulheres é discreto, e Free! prova isso. A primeira temporada do anime foi lançada em 2013 pela Kyoto Animation (ou apenas KyoAni, para os íntimos), um estúdio conhecido por produzir animes slice of life com jovens mulheres bonitas e agradáveis como protagonistas. Aí entra a questão: Free! é diferente justamente por causa do fan service feminino. A história é centrada em um grupo de cinco amigos (homens; ou seja, sem mulheres no foco) que têm em comum o amor pela natação.

Bom... Não dá para nadar de terno, né? | Foto: Reprodução

O esporte serve de metáfora para várias divagações sobre amizade, futuro e propósito de vida. Você pode assistir às narrações emotivas e empatizar com Haru, o menino ultra mega inexpressivo, ou simplesmente rir da cara de porta dele. Requisitos para fan service feminino: conexão sentimental ✓


Haru enfrenta um dilema: ele é muito bom em natação e venceu seu amigo Rin em uma corrida, quando eram crianças. Rin não ficou muito satisfeito e Haru, em resposta, adquiriu um trauma e não nada mais competitivamente. Anos depois, Rin reaparece com a promessa de derrotar Haru de vez. Eles não são mais colegas, e rola muita ~tensão~ entre eles dois. Requisitos para fan service feminino: casal ambiguamente gay ✓

Não, essa não é uma fanart. Sim, é uma cena real do anime | Foto: Reprodução

Vamos cair na real: Free! é um anime de natação. Os caras são atléticos e praticam um esporte em que você está seminu na maior parte do tempo, então há muuuitas cenas de tanquinhos para agradar as meninas hétero. Requisitos para fan service feminino: caras sarados ✓


Feita essa apresentação, vamos retomar o padrão de animes da KyoAni: histórias do cotidiano centradas em meninas fofas. Ele é o estúdio favorito de muita gente justamente por isso (e os desenhos são bons! Vejam A Voz do Silêncio na Netflix!), só que Free! terminou se destacando no acervo de uma maneira desagradável para alguns fãs. E justamente quem não é atendido pelo anime — em outras palavras, homens heterossexuais — terminou criticando Free! com alegações como fan service excessivo, história ruim etc.


É do direito de qualquer um assistir a Free! e criticar, claro. A questão é não enxergar o quadro completo: quantos animes ecchi e quantas histórias são feitas só para entregar fan service masculino? Quem tem telhado de vidro não atira pedras ao do vizinho.


O público masculino vs feminino

O que mais chama sua atenção nessa cena? | Foto: Reprodução

Quais são os prejuízos do fan service? Criar expectativas irreais, com certeza. Ser saturado por corpos e rostos idealizados pode afetar otakus tanto quanto fãs de qualquer cultura comercial, apesar dos personagens 2D realmente não existirem. Reforçar estereótipos de gênero também é um risco, e dá para ver bem isso com as mulheres gostosas que aparecem no ecchi.


Isso também denuncia a diferença da sexualização de corpos masculinos e femininos: a presença da mulher no fan service para homens é quase que como um mero objeto, e a câmera é o serviçal do voyeur para explorar a vista da maneira mais conveniente possível para o público. Também é comum, para “alívio cômico”, inserir cenas desconfortáveis em que o protagonista homem pega nos seios e em outras partes do corpo da mulher sem pedir permissão. É assédio que se chama, né?

Gou apenas assiste em "Free!" | Foto: Reprodução

Em comparação, a personagem Gou de Free! representa a menina atendida pelo fan service feminino do anime. Ela aparece frequentemente “apreciando” a beleza dos garotos e participa de discussões emocionais para incentivá-los a concluir seus respectivos arcos de história. Gou não toca, Gou não se aproxima: ela apenas assiste. O fan service feminino é bem menos violento do que o masculino nesse sentido — o que pode ser bom ou ruim: seria isso uma forma de reforçar a imagem da mulher como passiva, e do homem como responsável por tomar a iniciativa?


Fica o questionamento: o fan service masculino realmente representa o que os homens desejam? Ou é apenas uma projeção do que a sociedade idealiza serem os anseios de “homens de verdade”? Se analisarmos o cerne do conceito de fan service, notamos que ele só faz sentido se agradar. Um cara sem camisa pode ser desinteressante para você e, se for condizente com o enredo, você sequer encararia esse elemento como fan service. O oposto também pode acontecer: alguém com fetiche pode achar um zoom breve no pé de uma personagem como um baita presente.

Da série: figurino desconfortável | Foto: Reprodução

Então o que mais nos incomoda no fan service é reconhecê-lo ao longo da história. Isso denuncia que a tática caiu em uma fórmula de sempre que é aplicada a animes e mangás diferentes, o que torna a experiência batida. O problema do fan service é que ele busca uma audiência bem específica e — bom —, no final das contas, essa audiência pode não existir como os roteiristas imaginam.


É para decretar o fim do fan service? Eu acho que não. Dá, sim, para fazer fan service (feminino e masculino) de maneira responsável, sem alienar o público. E, o mais importante: reconhecendo que os telespectadores são diversos e que estereótipos de gênero não são uma boa base para estipular o que as pessoas desejam.

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A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.