Entrevista exclusiva: Eduarda Garcia fala sobre o lançamento de seu primeiro livro

“Une verso” é o livro de estreia dessa escritora que nos contou como foi o caminho que trilhou até a arte


Fotos: Matheus Batista

Petrópolis é a cidade natal de Eduarda Garcia, formada em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mas que sempre teve alma de artista. Foi durante a pandemia, em busca de novas experiências para ocupar o tempo livre, que ela decidiu se aventurar pelos desenhos. Sem ter feito nenhum curso técnico, começou a tentar fazer ilustrações minimalistas despretensiosamente. Nesse novo hobby ela descobriu um talento, e quando se deu conta já estava vendendo quadros decorativos com sua arte.


Como uma boa pessoa ansiosa que faz várias coisas ao mesmo tempo, Eduarda também deu início a um projeto junto com uma amiga chamado “Entre Versos e Você”. Escritora de poesias desde a adolescência, a intenção era compartilhar algumas delas com o mundo pelo perfil do Instagram e do Twitter do projeto. Com o tempo, ela também foi unindo seus desenhos junto as poesias.


Apesar disso, a vontade de escrever um livro sempre foi algo latente. E mais uma vez, nesse tempo de pandemia que Eduarda encontrou o seu lugar.


“Eu tinha vontade de escrever um livro, mas eu não sabia como. Eu já tentei escrever livros corridos, romances..., mas eu não saía do lugar. Eu falava para mim: ‘Como eu quero escrever um livro se eu não consigo?’ Eu não me encontrava. Aí, nessa época de pandemia onde eu me aproximei da arte, eu também me aproximei muito dos livros de poesia, porque livros grandes não prendiam a minha atenção. Não sou uma pessoa que tem facilidade de ficar lendo livro de 300 páginas. Eu sou ansiosa, começo a ler vários livros ao mesmo tempo, não termino nenhum. E percebi que nos livros de poesia eu conseguia me manter atenta e ter uma leitura muito mais fluída. Então eu percebi que era isso: o livro que eu precisava escrever era um livro de poesia. Foi quando tudo fez sentido para mim.”

Compreendendo isso, Eduarda começou a planejar o seu livro. E o primeiro passo era procurar uma editora. A única que estava com a temporada de originais aberta era a Editora Letramento. Mas o prazo para enviar era de 15 dias, e o livro estava longe de estar pronto. Foi no final de semana de entrega que ela escreveu mais de 100 páginas de uma vez. E em abril, Eduarda recebeu um e-mail comunicando que ela tinha sido selecionada pela editora.


No momento de assinar o contrato, a escritora percebeu que era um contrato de risco. Foi quando precisou refletir qual era o seu intuito ao publicar um livro: ganhar dinheiro ou dar um primeiro passo? E se deu conta que, na verdade, sua intenção era expor sua arte. Então, assumiu o risco de vender 100 livros na pré-venda ou arcar com os custos que faltarem.


Mas é claro que o contrato tinha suas vantagens, sendo uma delas a possibilidade de Eduarda fazer o mesmo que fazia no seu projeto de versos: unir suas ilustrações às suas poesias. Dessa forma, algumas páginas do livro contêm desenhos autorais da escritora, exceto pela capa que, apesar de seguir os seus traços minimalistas, é a única ilustração que não foi feita por ela.


Hoje, Eduarda tem 23 anos e é analista de marketing na ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos), que é o que ela chama de “seu trabalho formal”. Mas ela também é uma artista completa.


A inspiração que gerou “Une verso”


Foi em 2017 que Eduarda iniciou uma grande jornada de autoconhecimento, com o auxílio de terapia e meditação. Quando o mundo se deparou com o isolamento da pandemia, ela precisou encontrar uma maneira de lidar com essa situação sendo uma pessoa clinicamente ansiosa. Precisou descobrir modos de se reinventar, que ela diz ser um dos seus maiores poderes, como também diz em seu livro.


A Eduarda de 2020 começou a desenhar, a pintar, a fazer ioga todos os dias. E nesse momento de introspecção, no meio de uma enxurrada de sentimentos pairando no mundo e dentro de si, percebeu que era necessário ver a vida de forma poética para conseguir sobreviver. “Eu acho que a vida sem a arte é insuportável”, afirma Eduarda. Em tudo ela enxerga arte, é quase como uma epifania. E isso se dá tanto para lado bom quanto para o ruim. “Até falar da dor, pra mim, faz mais sentido falar de uma forma poética.”


Todo o tempo livre que o isolamento proporcionou, fez com que Eduarda pudesse explorar outras áreas dela mesma que já existiam, mas que estavam adormecidas. “Quando você não tem tempo pra nada, a sua vida segue normal. Mas quando você para e tem tempo, e você tem que encarar, as coisas começam aflorar”, conta a escritora. E foi lendo muitos livros de poesia, que esse universo poético foi desvendado diante de seus olhos. O livro que mais a inspirou foi “Tudo nela brilha e queima”, da Ryane Leão.


“As pessoas me perguntam

De onde vem a inspiração

Eu não sei de onde eu tiro inspiração

Na verdade, é ela que me tira”


Vivendo essa fase de introspecção e autoconhecimento, Eduarda decidiu falar em suas poesias sobre alguns ciclos da vida, dividindo-os em capítulos. Amor, fim, recomeço, autoconhecimento e arte são os assuntos que a autora aborda no livro, criando um caminho que foi o que ela mesma viveu. “Mas que a arte sempre me tire do fim.”


O desafio do marketing do livro


Desde quando fechou o contrato com a editora, Eduarda percebeu que seu maior desafio seria vender fora da sua bolha. Para isso era necessário criar uma identidade visual que a fizesse ser lembrada. Essa estética tem início nas suas ilustrações, que é focada na arte minimalista, se valendo muito das linhas. “A arte minimalista dá uma sensação de continuidade”, explica Eduarda.


Em segundo plano, podemos observar a paleta de cores, que transita pelos tons do pôr do sol, entre o amarelo e o laranja. Além da questão do seu gosto pessoal, Eduarda também levou em consideração a explicação da psicologia das cores para escolher um tom que indicasse liberdade.


A partir daí, ela fez uma sessão de fotos com o namorado para poder marcar essa nova fase em suas redes sociais e também marcar a forma que ela queria ser identificada. “As pessoas até então só me viam desenhando quadrinhos. Como que eu ia explicar pra elas que agora eu estou lançando um livro?” questiona. Para ela, a arte é ampla e multidisciplinar. Eduarda não só desenha e escreve, como também canta, toca violão... e é o ato de transitar tão bem por todas as áreas que faz da sua arte única.



Toda essa estética é transbordada na capa de seu livro, que segue uma cor alaranjada, com um desenho minimalista do rosto de uma mulher, que é o seu público-alvo. Entretanto, a ilustração também conta com o que ela chama de “alguns pontos de luz”, para remeter a galáxia e dar destaque ao título do livro.


A escolha do título


Com a intenção de manter a identidade de “versos” já criada pelo seu projeto, Eduarda tentou buscar algo que pudesse comunicar a sua verdade. Com base nisso, a sua irmã, Dafne, sugeriu esse título que encaixou perfeitamente com o que ela estava procurando. O universo em si sempre foi um assunto de grande interesse da autora, que já quis inclusive ser astrônoma. E ela trouxe isso para poesia.


Já o subtítulo que é “partes do todo” instiga a refletir como os capítulos, que são os ciclos, são as partes de um todo, que é o universo.


“Eu pensei no universo como uma forma de unir os versos, para formar o ‘uneverso’, que é o meu universo. (...) Eu espero que meu livro desperte o seu universo. Ou seja, todas as possibilidades do que você pode ser, porque eu acho que o nosso universo é infinito. Hoje eu consigo dizer que sou jornalista, eu desenho, às vezes eu canto, agora eu escrevi um livro, mas amanhã eu posso ser uma coisa completamente diferente. Eu acho que a gente não se limita, a gente é infinito também. Temos possibilidades infinitas enquanto a gente existir.”

O propósito de Eduarda é impactar a vida das pessoas de alguma forma, e descobriu que pode fazer isso através da arte, porque “a arte salva”. Isso pode acontecer publicando outros livros, ou realizando o sonho de expor suas ilustrações, ou explorando o jornalismo literário, ou ainda em qualquer outra área que a arte reservar. Independentemente de onde estiver, a artista deseja estar sempre em busca da sua melhor versão.


"Que meu corpo se revire todo

E eu sinta do confortável ao irreconhecível

E da queda, eu suba com as flores

Rumo a expandi-lo

Sem culpa

Sentir"


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A Duda não só é nossa escritora favorita como também foi nossa colega de turma e é nossa amiga, sobretudo dessa jornalista que vos fala. É um orgulho muito grande ter tido a oportunidade de conduzir essa entrevista. Um sonho da Duda é um sonho meu também. E como ela mesmo me disse durante a entrevista, a distância entre idealizar e realizar de fato é muito grande, e ela precisa ser comemorada, celebrada e vivida.


Hoje é o último dia da pré-venda de “Une verso”. Compre pelo link: bit.ly/uneverso. Apoiem e leiam escritoras independentes. E principalmente, apoie a arte de mulheres. Até porque, como sempre dizemos aqui, lugar de mulher é na cultura e onde mais ela quiser.