Documentário de Michelle Obama mostra uma outra faceta da ex primeira-dama

“Éramos uma provocação apenas por estarmos lá”, diz Michelle Obama em seu novo documentário, lançado semana passada na Netflix, Becoming: A Minha História.


O longa, dirigido por Nadia Hallgren, é baseado no livro autobiográfico de mesmo nome, escrito pela ex primeira-dama. Lançado no Brasil pela Editora Objetiva, Minha História fala de momentos íntimos, nunca antes vistos, de Michelle. Pelas páginas sabemos mais sobre sua criação, sua família rígida mas amorosa e sua relação de carinho e implicância com seu irmão mais velho, Craig Robinson.


Michelle Obama e seus pais, anos atrás | Foto: Divulgação

Além disso, Michelle nos conta sobre sua ida às melhores faculdades do país, Princeton e Harvard, o começo de sua carreira profissional, seu encontro com Barack e, claro, sua chegada à Casa Branca. E esse caminho foi tão difícil quanto parece, como Michelle nos conta em seus relatos. Preconceito, violência e muito apoio de amigos e profissionais são alguns dos destaques que a ex primeira-dama mostra.


Minha História: o filme


O filme, além de abordar belamente esses pontos, com direito a imagens e vídeos analógicos tanto da própria Michelle quanto de sua família, mostra também o impacto que o livro causou em todo o país.


O sucesso foi tanto, que Obama e sua equipe decidiram lançar uma turnê, passando por 34 cidades nos Estados Unidos. Em cada evento, mediadores famosos entravam no palco para entrevistar Michelle. A turnê contou com nomes como Oprah Winfrey, que realizavam a entrevista em teatros e arenas lotados de pessoas de todas as idades, gêneros e raças.


Algo muito interessante que o filme traz é, novamente, a forma como o livro tocou as pessoas - coisa que a própria obra escrita, obviamente, não poderia fazer. Em dois momentos super interessantes, o longa tira o foco da própria Michelle, contando um pouco mais sobre a vida de duas leitoras adolescentes. Durante o documentário, as meninas falam um pouco sobre sua história e como o livro de Obama as ajudou.


A ex primeira-dama emocionou muitas pessoas com seu livro | Foto: Divulgação

Além disso, há cenas emocionantes de Michelle em grupos de debates, com mulheres e homens de diversas idades - porém, a grande maioria dos presentes são do público feminino. Em um momento, uma jovem pergunta à ex primeira-dama como é possível vencer a invisibilidade que é imposta às mulheres pretas.


Michelle então diz que nunca se sentiu invisível e essas meninas precisavam achar uma forma, dentro de si mesma, de se fazerem visíveis: “Não podemos esperar pela igualdade do mundo para começar a nos sentir vistos. Estamos longe disso”.


Michelle e o mundo político


Michelle não se interessava pelo universo político e isso não era segredo para ninguém. Esse amor vinha apenas de seu marido, que desde novo se interessava por questões como desigualdade de renda e o futuro do movimento preto.


Entretanto, é impossível não perceber que a esposa de Barack foi peça chave para sua campanha, sendo muito mais do que uma simples primeira-dama. Apesar de não se interessar tanto pela política de partidos, essas questões afetavam Michelle e eram igualmente importantes para ela. E isso logo foi percebido pelo público eleitor.


Michelle foi essencial na campanha de Barack Obama para a presidência | Foto: Divulgação

Ainda em sua época como namorados, Michelle percebeu que Barack aspirava coisas grandes. E algo extremamente interessante é vê-la falando sobre isso e sobre como precisava entender quem ela era, para não ser engolida pelos grandes planos do marido.


Apesar de saber dos graves problemas do governo Obama, principalmente no que se refere à política de guerra no Oriente Médio, a narrativa encanta e consegue mostrar o lado amigável e divertido do casal, construído estrategicamente ao longo de dois mandatos.


É impossível também não pensar no valor simbólico do presidente que assumiu o posto depois de Barack. Termos Donald Trump depois da vitória do primeiro homem afro-americano nos Estados Unidos é para se pensar. Assim como no Brasil. Depois da primeira presidenta mulher, caminhados para um impeachment, Temer e, no fundo do poço, temos Bolsonaro.


A comparação e a agonia vem naturalmente. E é difícil não senti-la. Apesar de tentar trazer uma perspectiva de otimismo, de esperança com o público jovem, acredito que o documentário faz isso de forma superficial. Quando Michelle fala que mulheres, pretos, latinos, pessoas mais pobres devem lutar para fazerem sua história, é automático pensar em tantos casos que esse esforço não foi recompensado. Em histórias que esse esforço foi massacrado por todo ódio e preconceito da sociedade.


'A Minha História' consegue emocionar e divertir | Foto: Divulgação

Mas, de toda forma, Michelle é um caso à parte. E que inspira, e não de forma apenas meritocrática. A ex primeira-dama é carismática e muito engraçada (sério!). O filme não se preocupa tanto em defender partidos e posições, mas sim, mostrar a história de uma menina preta, de uma família de classe média baixa, que alcançou um dos maiores postos dos Estados Unidos.


Gostando ou não dos Obama, é um documentário que vale a pena ser visto! Michelle é encantadora e é difícil não se interessar mais sobre sua história.


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