Doação de órgãos: uma conversa necessária

Em 26 de maio de 1968, o médico paulista Euclydes Marques Zerbini realizava o primeiro transplante de coração do Brasil e da América Latina. Exatamente 52 anos depois, em 26 de maio de 2020, meu pai recebia um coração novo, de um doador de apenas 16 anos. Esse foi um dos 173 transplantes cardíacos realizados no Brasil, entre janeiro e julho desse ano, 25% a menos, se comparado ao mesmo período do ano anterior, de acordo com o Ministério da Saúde.

Zerbini e sua equipe | Foto: B. J Duarte (Revista Veja, 1968)

A doação de órgãos é algo complicado e a pandemia conseguiu tornar ainda pior. Dificuldade na logística de transporte, diminuição considerável de doadores e poucos leitos completamente livres de Covid entram na lista de motivos. Hoje, 27 de setembro, é o Dia Nacional de Incentivo à Doação de Órgãos - e, mais do que nunca, precisamos falar sobre isso.


Para a família de quem recebe o órgão...


Não faço ideia de quem é a família do doador do meu pai. Também não sei o que é a dor de perder alguém tão jovem, em um acidente em casa. Mas eu penso bastante neles e no menino. Só que, por não fazer parte da experiência do outro lado, não posso falar sobre isso. Não sei o que é para uma mãe assinar os documentos que autorizam a doação de órgãos do seu filho, mas não precisa de muito para imaginar que é uma das piores coisas que alguém possa viver.


Por outro lado, eu sei bem como é a ligação de que chegou um órgão. "Tem um coração compatível pro seu pai!". E aí vem o medo... Se os médicos chegarem lá e encontrarem algum problema no coração? É uma cirurgia complexa, vai dar tudo certo? E o medo eterno de rejeição? Mas, principalmente, pensei muito em quem era o doador. Doação de órgãos é algo extremamente complexo e quando falamos de órgãos que o doador deve estar morto para sua retirada, é ainda mais difícil.


O médico do meu pai comentou algo bem interessante. Ele disse: "não precisou alguém morrer para você ter um coração. Pessoas morrem o tempo todo. Precisou que uma família fizesse uma boa ação, em um momento de muita dor". E eu nunca esqueci disso. Fazer essa invertida na perspectiva é essencial para conseguir lidar com todos os sentimentos que vêm de receber um coração de outra pessoa.



Eu sempre fui extremamente a favor de doações de órgãos e, desde nova, deixo claro para minha família: doe o que puder doar. Eles compartilham do mesmo sentimento. Mas, agora, isso se tornou ainda mais forte para gente. Já achava uma causa nobre de longe, agora que sei que meu pai só vai conseguir me ver completar 23 anos semana que vem por causa da doação de órgãos - tudo fica ainda maior, ainda mais especial. E ganha as devidas proporções: doação de órgãos, realmente, salva vidas.


Mas não é todo mundo que encara com tanta certeza à temática. Ainda é um tabu grande no Brasil e, por isso, muitas pessoas não comentam com os familiares sua vontade de ser um doador. Porém, isso pode ser um erro...


Como ser um doador de órgãos?


A legislação brasileira só permite a doação de órgãos de um doador morto com autorização da família. Ou seja, você pode gritar aos quatro ventos que é um doador, ir até um cartório e assinar um documento autenticado salientando sua vontade... Se sua família falar não, é não. Por isso é tão importante ter um diálogo sobre doações de órgãos! É um assunto que ninguém quer falar - afinal, temos ainda muita dificuldade em lidar com nossa mortalidade. E, provavelmente, alguma mãe, pai ou irmão pode querer desconversar - "para com isso, você ainda é novo", você talvez escute.


Mas a verdade é que, infelizmente, a gente nunca sabe o dia de amanhã. Eu aposto que o doador de 16 anos do meu pai não esperava morrer tão jovem. As coisas acontecem e o máximo que podemos fazer é deixar nossa vontade de ser doador bem clara. Assim, pelo menos, se acontecer alguma coisa, a família não terá dúvidas sobre qual seria sua decisão. "Será que era isso que ele iria querer?", é preciso informar que, caso você deseje ser um doador de órgãos mesmo, SIM.


De novo, pode ser um assunto difícil. E ninguém acha que nada vai, de fato, acontecer com a gente - e eu sinceramente espero que não aconteça mesmo! Mas o assunto é sério. A Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) afirma que de cada oito potenciais doadores, apenas um, de fato, doa os órgãos. E cada corpo tem capacidade de salvar várias vidas. Só do caso do meu pai, por exemplo, além do coração, sei que o fígado foi dividido para duas pessoas e cada rim foi para alguém. Só aí, são cinco vidas que foram salvas porque, aquela família, no meio de uma dor imensurável, resolveu tomar essa decisão. E, por isso, eu sou eternamente grata!


Precisamos falar sobre doação de órgãos | Foto: Alexey R. (Getty Imagens)

Mitos sobre doação de órgãos

Como já falei, os seres humanos não lidam bem com a morte, de forma geral. Mas quando falamos da cultura brasileira, isso acaba sendo ainda mais forte. Por isso, não temos diálogos abertos sobre enterros, velórios, seguros de vida e, claro... doações de órgãos. Não gostamos de pensar sobre morrer ou imaginar nossos entes queridos morrerem.


Faz todo sentido, realmente não é nada fácil ou legal. Mas evitar a todo custo o assunto é um dos principais motivos que fazem com que sensos comuns equivocados corram soltos sobre doações de órgãos. E isso é grave, uma vez que pode afastar uma família de tomar essa decisão. Então, aproveito para tirar algumas dúvidas sobre a temática, depois de realizar algumas pesquisas no site do Ministério da Saúde e da ABTO.


Para o doador...


A família do doador deve pagar para que haja a doação?

NÃO. A família do doador não paga absolutamente nada pelo processo. Os sites do governo afirmam que, assim como não irão gastar nenhum centavo, não poderão ganhar também nada por isso. A doação de órgãos é completamente voluntária e gratuita. Caso contrário, se enquadra como tráfico de órgãos - proibido por lei no Brasil.


É possível doar vários órgãos?

SIM! No Brasil, atualmente, trabalhamos com doação de coração, fígado, pulmão, rins, pâncreas, pele, ossos e córneas.


O corpo fica deformado após a doação?

NÃO. Todos os órgãos são removidos cirurgicamente e, depois, o corpo é cuidadosamente fechado pelo cirurgião. Não há necessidade de ter enterro com caixão fechado ou qualquer coisa do tipo.


É possível que haja confusão entre morte encefálica e coma?

NÃO. Mas antes, do início. Para ocorrer a doação de órgãos, em casos de doadores mortos, a grande maioria das vezes trata-se de morte encefálica. Ou seja, o cérebro não tem mais atividade nenhuma, mas o corpo continua vivo, com o coração bombeando sangue para os órgãos. Esse cenário é o ideal, uma vez que o órgão não pode ficar muito tempo sem funcionar antes de ser inserido no corpo de quem irá receber. No caso do coração, por exemplo, são apenas algumas horas. Isso também reduz o local no qual o doador deve estar, já que, se for uma viagem muito longa, não será possível fazer o transporte a tempo. DITO ISSO, para ser registrado uma morte cerebral é seguido um protocolo de verificação de atividade do cérebro - assim, só é realizado a doação quando a pessoa, definitivamente, não irá voltar à consciência.


Para quem recebe...


É possível passar na frente na lista de espera?

NÃO. A lista de espera de pessoas necessitadas de órgãos é montada por meio de um grande protocolo. Analisa-se idade da pessoa, o quão grave ela está, quanto tempo consegue sobreviver sem esse órgão novo, quais são as chances de ter uma vida saudável após o transplante, entre diversas outras variáveis. A partir desses quesitos, se monta uma lista. A todo momento ela muda, pessoas entram na sua frente e pessoas que estavam em cima, falecem, fazendo com que todos subam posições - o que torna tudo bem tenso. Mas, de forma alguma, o paciente tem algum poder sobre sua colocação. Tudo é feito com muita responsabilidade e de forma justa.


Posso escolher de quem será o órgão?

NÃO. De certa forma, não. É claro que em caso de doadores vivos, muitas vezes são os próprios familiares que, ao se descobrirem compatíveis, doam para quem precisa. Mas, no caso de doador morto, não tem muito o que fazer. Dependendo da sua colocação na lista, e de detalhes como peso, idade e tipo sanguíneo, é feito a combinação do paciente com o próximo órgão disponível. É possível escolher apenas algumas detalhes, como se você aceita órgãos de um paciente com sífilis, com HIV... Mas cor, gênero, time, posição política - você provavelmente nem vai saber.


Posso mudar de personalidade com a doação de órgãos?

NÃO. Pode parecer muito estranha essa pergunta, mas, de verdade, ouvimos alguns comentários receosos de meu pai receber o coração de um criminoso, por exemplo. Acho que principalmente por ser um órgão tão relacionado aos sentimentos, isso se acentua. Mas não, características da personalidade do doador não podem, de maneira nenhuma, interferir no corpo do receptor. Por exemplo, você pode ser um racista babaca e receber o coração de uma pessoa preta. Vai continuar sendo um merda, se você, por si só, não quiser mudar. A vida tem dessas ironias...


Para mais informações sobre doações de órgãos, visite o site da ABTO!

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