Crítica: “Três Verões” e a crítica social de um Brasil absurdo

Regina Casé é Madalena, ou Madá para os mais chegados. Caseira de uma família rica, ela comanda os demais empregados domésticos da mansão em área nobre da costa fluminense, mais especificamente em Angra dos Reis. A protagonista de “Três Verões” sonha em ser dona do seu próprio negócio – um quiosque na estrada – e conta com a “boa vontade” do patrão para pagar o investimento necessário, que é descontado em pequenas parcelas do salário.


Em diversos momentos, reproduz o modo de vida dos patrões, como ao ensinar aos demais empregados como se deve fazer um brinde com classe, mas passa longe de compactuar com as falcatruas dessa elite egoísta. Apesar de ter sido usada como laranja nos esquemas sujos do patrão, é inteligente, carismática, empática e tem muito jogo de cintura.


Regina Casé em Três Verões, de Sandra Kogut.

E por que começar esse texto falando especificamente da Madá? Porque ela é o que mais vale a pena conferir no filme Três Verões, da diretora Sandra Kogut, que divide roteiro Iana Cossoy Paro e estreia nesta quarta-feira (16) no Telecine e Telecine Play.


Em um primeiro momento, o filme pode parecer ser sobre a queda de uma família rica formada por Edgar (Otávio Müller) e Marta (Gisele Fróes). Isso porque investigações contra a corrupção, no estilo da Lava-Jato, atingem o casal. Mas, na verdade, é sobre o olhar que Madá tem sobre a queda dessa família rica e corrupta.


É sobre o olhar dessa personagem “quase da família”, que se veste até de Mamãe Noel no Natal da família (dos patrões), sobre a vida e o seu redor. Vivenciamos a rotina da Madá nas últimas semanas dos anos de 2015, 2016 e 2017. Dessa forma, o filme produz elipses temporais e podemos ver mudanças claras em relação a todos os personagens e ao desgaste do cenário.


Carisma de Regina Casé


Possivelmente você se perguntará “mais uma empregada realizada pela Regina Casé?”. Sim, de fato, é mais uma empregada doméstica que a atriz e apresentadora carioca dá a vida nas telas. Mas, como ela disse em recente entrevista ao jornal O Globo, isso está longe de ser negativo, pois mostra que a dramaturgia não se prende mais somente a sala de visitas.


De figurantes em papéis de novelas e filmes, elas passaram a dar o tom e a direção das narrativas. No caso de “Três Verões”, o roteiro é inteligente ao propor uma personagem tão carismática, que ainda é potencializada pelo carisma da própria atriz. Casé chegou a ganhar prêmios de melhor atriz no Festival do Rio, na Espanha e Turquia pela sua Madá.


Em diversos momentos, podemos visualizar em Madá traços de personalidades de pessoas que gostaríamos de ter por perto. Além disso, ela é responsável por momentos cômicos e pérolas como “eu tô a maior stalkeadora que existe. Trago a pessoa amada em três cliques".


Regina Casé e elenco de Três Verões │ Foto: Divulgação

Dobradinhas


A parceria de Regina Casé com Rogério Fróes é ótima. Ele interpreta o Seu Lira, o pai de Edgar que é preso durante a investigação. Inclusive, os encontros dos personagens rendem diálogos inteligentes e uma das cenas mais emocionantes do filme. A parceria podia ter sido melhor explorada desde o princípio já que o personagem praticamente ficou esquecido no primeiro verão, antes que o Edgar fosse preso.


A cumplicidade de Madá e Vanessa, interpretada pela Jéssica Ellen, também é outro ponto alto. Dessa vez, a relação é de “supervisora” e “empregada”, diferente da relação de mãe e filha da novela “Amor de Mãe”, que teve exibição interrompida na TV Globo devido a pandemia do novo coronavírus. As duas mostram que possuem sintonia e sabem comover tanto no cinema como nos folhetins.


Regina Casé e Rogério Fróes em Três Verõe, de Sandra Kogut.
Regina Casé e Rogério Fróes em Três Verões │ Foto: Divulgação

Onde Três Verões quer chegar?


Três Verões é um filme que merece ser assistido pelas suas críticas sociais e por colocar em debate a exploração do trabalho doméstico, a dualidade entre classes e a corrupção de parte da elite – e aqui é importante não generalizar. É inegável que retrata parte da realidade do nosso país dos últimos anos, mesclando drama e comédia.


Apesar disso, é uma produção que não mostra onde quer chegar de fato, além de deixar questões em aberto – muito disso devido às elipses de tempo. É um filme que parece querer ser apenas “ok” e cumpre essa proposta.


O filme tem aspectos técnicos bem feitos, mas nada que se destaque, nada que seja inovador. Poderia, por exemplo, ter trabalhado mais a trilha sonora e potencializar a relação imagem e som para comover.


Se os pontos positivos são as críticas sociais de um Brasil que não deu certo e a atuação de Regina Casé e elenco, o longa peca ao manter a temperatura morna e não apresentar tudo o que poderia mostrar, como amarrar melhor a história e apresentar um desfecho a ela.



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