Crítica: Enola Holmes é bem mais do que um filme bobinho da Netflix

Você com certeza conhece – nem que seja só por nome – o notável detetive Sherlock Holmes. O personagem que ganhou vida nas obras de Arthur Conan Doyle sempre foi bem reservado e, pelo o que eu me lembre, nunca li ou vi nenhuma menção à sua família. Mas, e se eu te contar que ele tem uma irmã mais nova e que suas capacidades de dedução podem ser ainda melhores do que a do famoso Sherlock. Ou melhor, por que você não deixa a Netflix te mostrar um pouco mais sobre a incrível Enola Holmes?


O novo filme do serviço de streaming estreou há uma semana e traz uma adaptação do livro “Enola Holmes: O Caso do Marquês Desaparecido”, de Nancy Springer. No primeiro, de uma série de seis contos, a autora apresenta a personagem e a insere em uma trama um pouco dramática. O filme, é claro, não poderia ser diferente.



Avisinho básico: essa crítica é completamente livre de spoilers. Então pode ler, reler, mandar para aquele amigo que você quer que assista ao filme etc, etc :)


Qual a história do filme?


Depois de uma infância nada convencional em que aulas de etiqueta e história foram substituídas por lições de luta, jogos de xadrez e muita leitura, Enola (Millie Bobby Brown) acorda no seu aniversário de 16 anos e percebe que a sua mãe, interpretada pela Helena Bonham Carter, desapareceu. Sozinha, ela decide chamar seus dois irmãos mais velhos, Sherlock (Henry Cavill) e Mycroft (Sam Claflin), para ajudar na busca pela sua mãe.


Enola e seus irmãos Sherlock (Henry Cavill) e Mycroft (Sam Clafin) | Foto: Reprodução

Entretanto, a chegada dos seus irmãos vem acompanhada de um futuro sombrio. Mycroft decide mandar Enola para uma escola interna somente para garotas para ela ser educada conforme as tradições da época. Nem preciso dizer que esse é o ponto de partida para ela sair rumo à uma aventura sozinha para encontrar sua mãe. Mas como nem tudo é como planejamos, ainda na primeira fase do seu plano, Enola tromba com o Visconde Tewksbury (Louis Partridge).


O jovem, herdeiro de uma nobre e importante família inglesa, foge de casa após a morte do pai e a chegada das tão temidas responsabilidades. O que ele não esperava, entretanto, é que havia uma trama bem montada cominando para o seu assassinato. É aí que os conhecimentos de dedução, investigação e luta de Enola se tornam ponto principal do filme. A garota, que vê seu irmão Sherlock como um modelo, precisa entrar de cabeça em duas investigações que podem custar a sua vida e a de seu novo amigo.


Estou sentindo um cheirinho de romance no ar? | Foto: Reprodução

Quebra da quarta parede


Logo no início do filme – é sério, nos primeiros segundos – Enola fala a história do seu nome. Feito a partir de um anagrama, se lido de trás para frente “Enola” vira “Alone” – sozinha, em inglês. Ela fala que ganhou esse nome porque sua mãe acreditava que ela precisava saber se virar sozinha. E bem, o enredo te faz pensar que essa é uma grande aventura de uma pessoa só, mas a verdade é que Enola conta a ajuda de mais uma pessoa: o telespectador.


Assim como ela confidencia a história do seu nome, ela também fala sobre os seus planos, suas impressões, medos e o futuro da investigação. Nós acompanhamos toda a história através de um ponto de vista que engloba o que vemos na tela e o que a personagem está pensando. Só sei que, assim como várias pessoas, a primeira coisa que me veio na cabeça foi “Fleabag” (2016-2019). Ok pessoas, essa não foi a primeira e nem será a última produção audiovisual a quebrar a quarta parede, mas é praticamente impossível não lembrar desse trabalho sempre que essa prática é mencionada.


Até mais quarta parede! | Gig: Reprodução

E bem, “Enola Holmes” e “Fleabag” estão mais conectadas do que vocês podem pensar. O diretor Harry Bradbeer foi responsável pela direção de quase todos episódios do seriado escrito por Phoebe Waller-Bridge (o primeiro tem direção de Tim Kirkby). Por isso, talvez, essa construção de uma inclusão que em nenhum momento parecia forçada, ganhou a sutileza necessária para entreter quem estava assistindo nas mais de 2 horas de filme.


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Muito mais do que um filme de “Sessão da Tarde”


É fácil de imaginar uma chamada para esse filme contando as diversas trapalhadas de Enola Holmes na voz daquele narrador característico? Vou te dizer que é bem fácil sim, mas o filme tem um quê a mais.


Além de ter o combo “mil gêneros em um” – tem comédia, ação, aventura, suspense e romance – o filme coloca todas essas aventuras vividas por uma personagem feminina. E mais interessante ainda, ele não coloca a Enola como uma aprendiz do Sherlock e, sim, como uma pessoa auto suficiente que aprendeu tudo o que sabe com a sua mãe.


Enola aprendendo à lutar com sua mãe Eudoria (Helena Bonham Carter) | Foto: Reprodução

Além de fazer provocações importantes, no plano de fundo do longa, vemos o desenrolar do movimento que ficou conhecido como “sufragista”, que aconteceu no final do século XIX e início do século XX. É interessante ver que as ações da personagem central, mesmo que não envolvida diretamente nessas questões, refletiram positivamente sobre o movimento.


Em poucas palavras, o filme foi inteligente em integrar o público a história, dar autonomia para a personagem principal e, de fato, colocar ela em um lugar de destaque durante toda a duração do longa. Por isso, se você esperava um “Enola Holmes e seu irmão Sherlock” pode esquecer. O título “Enola Holmes” em letras garrafais já o descreve bem demais.


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