• Victoria Rohan

Crítica: relacionamento, depressão e família no documentário de Billie Eilish

“As pessoas dizem que a música dela é depressiva… As crianças estão deprimidas!”. O documentário Billie Eilish: The World’s A Little Blurry mostra a vida pessoal e profissional da cantora de 19 anos que se tornou uma estrela mundial. Com menos de uma semana de lançamento, o filme fez aumentar em 33% a quantidade de novos assinantes do Apple TV+ e alcançou 98% de aprovação no Rotten Tomatoes. Mas, afinal, o que torna essa produção diferente de outros documentários sobre estrelas pop?



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Para começar, Blurry (sim, dei um apelido, ok?) não traz narração e entrevistas - é mais como se tivessem explorado a nuvem da família e da equipe de Eilish e montado um panorama de quem ela é. Mas isso não tira a complexidade e sensibilidade da produção - que é um presente gigante para os fãs. Pelo contrário, acredito que é justamente isso que agradou a crítica. As imagens de arquivo são sem nenhum tipo de glamour, sem papo de “gênio incompreendido”. Billie é uma adolescente com medos, dramas e demônios pessoais e, ao mesmo tempo, uma super estrela com uma mensagem a passar e um público a unir.



E é nesse contexto que se passa o documentário. A jovem tendo que lidar com a ascensão da fama, problemas pessoais, uma turnê mundial, a pressão de escrever um novo álbum e a vontade de estar no controle de sua produção criativa. Quem já conhece e minimamente acompanha a cantora sabe que a família O'Connell tem uma presença muito forte e importante na vida da jovem. E o filme de duas horas (sim, é longo) deixou isso bem claro.



Família: um porto seguro


Infelizmente a gente sabe o que pode acontecer com jovens que se jogam no mundo da música e viram fenômenos mundiais. Essa é uma preocupação constante da família de Billie e isso fica bem claro com o documentário. Além de a família ainda morar na mesma casa desde antes da fama, os quatro trabalham juntos na carreira musical da jovem. É interessante como esse contraste das relações é trabalhado. Em um momento vemos a mãe, Maggie, nervosa porque a filha saiu para dirigir sozinha pelas ruas de Los Angeles e, mais tarde, comandando e cobrando a equipe pré-Coachella.


A família O'Connell é muito unida e presente na vida de Billie. | Foto: Reprodução

Não sei se é porque eu sou fã e já sei um pouco da relação, mas consegui ver e sentir o carinho e a preocupação da família, seja com Finneas escondendo a pressão da gravadora, com o pai carregando-a nas costas ou com a amiga preocupada com o relacionamento... Acho que ficou bem explícito que Billie tem família e equipe muito preocupados com sua saúde e bem-estar e isso é um grande diferencial para ajudá-la.


Relacionamento conturbado: início e fim


A vida amorosa de Billie era uma camada que ainda não tínhamos tido muito acesso. Em Blurry podemos ver o início, o durante e o fim do relacionamento dela com o rapper 7:AMP, chamado de Q. Admito que fiquei surpresa de ver indícios de sua vida amorosa, principalmente desse relacionamento conturbado (e complicado, ela tinha 16 e ele 22). Não quero dar muitos spoilers porque acho legal a experiência de aos poucos ir descobrindo a relação, mas são vários os sinais de um relacionamento abusivo. A ausência, falta de comprometimento e esforço, o clássico “homem que soca parede”... O que achei interessante foi que partiu da própria Billie o reconhecimento de que a situação não era saudável e a decisão de terminar. Esse foi um processo doloroso tratado com muita sensibilidade no documentário - a vontade que dá é de entrar na tela e abraçá-la.


Billie viveu um relacionamento conturbado com o rapper 7:AMP. | Foto: Divulgação

Dores: física e emocional


Vocês lembram da época em que Billie fez uns shows com uma bota ortopédica? Pois em Blurry a gente acompanha de perto suas dores e entende um pouco mais de seu problema que a fez ter que parar de dançar. Mas não foi só a dor física da jovem que foi explorada, mas a emocional também. Com sinceridade, delicadeza e bastante cuidado, Billie e sua família falam e comentam sobre depressão e Síndrome de Tourette (transtorno caracterizado por tiques motores ou vocais variados). A jovem chega a mostrar um caderno com anotações pessoais de quando esteve no auge da depressão e chega a revelar que não achava que ainda estaria viva hoje. Sabemos como a temática é delicada e, por isso, eu particularmente achei bem responsável a maneira como foi abordada. Não romantiza, não esconde, apenas fala sobre.



Uma adolescente super estrela


De maneira geral o que a gente vê são as diversas camadas de Billie Eilish: uma artista e profissional com personalidade forte (e teimosa rs) que tem bem firme o tipo de imagem e mensagem que quer passar e não abre mão disso, mas que ainda é uma adolescente de 17/18 anos e tem muito que aprender e amadurecer.


Mas esse documentário mostra muito mais do que apenas Billie, eu diria. Acho que Blurry traz, com um caso específico, toda uma nova geração de jovens que, mais conscientes e conectados do que nunca, têm de lidar com dramas pequenos e grandes, individuais e coletivos, e não têm medo nem vergonha de nomear e enfrentar seus demônios pessoais. O mundo realmente está um pouco embaçado (desculpem o trocadilho) e Billie consegue, de forma única e inovadora, transformar seus sentimentos em música e juntar multidões que se identificam.


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