Crítica: as mulheres de "The Crown" entregam a temporada mais esperada

Adaptações cinematográficas e documentários detalhistas sobre a história da monarquia britânica não são exatamente novidade no mercado. Mas a produção original da Netflix, "The Crown", revolucionou o conceito de tudo que já vimos do tipo. Para quem não sabe, uma breve história: o enredo conta, de forma romântica e teatral, os anos da Rainha Elizabeth II no poder a monarca com um dos maiores reinados da história contemporânea, que ultrapassa seis décadas. Cada temporada busca tratar cerca de dez anos de acontecimentos. Começando aproximadamente em 1950, depois de três temporadas e duas gerações (a cada duas décadas, a atriz que faz a rainha muda para uma pessoa mais velha), chegamos finalmente em uma das épocas mais esperadas: início de 1980 até 1990.


Existia tanta antecipação sobre como a produção iria retratar grandes nomes das décadas, como Princesa Diana e a única primeira-ministra mulher, Margaret Thatcher, que sinto que, talvez, essa nova leva de episódios tenha ficado ainda mais corrida que as outras. As temporadas são sempre divididas em dez episódios e, muitas vezes, sentimos um corte temporal grande crianças crescendo rápido, aniversário de mandatos políticos etc. Mas, talvez, por serem histórias mais distantes adaptação pós Segunda Guerra e conflitos da Guerra Fria —, o roteiro mais sucinto não causava tanta estranheza. Porém, ao vermos Charles conhecendo Diana, ela tendo dois filhos e Thatcher indo de seu ápice ao fundo do poço na política, é impossível não pensar que tudo está indo rápido demais.


Conhecemos essa história muitos de nós ouviram os pais comentarem sobre Diana e a grande maioria se recorda do falecimento de Thatcher, em 2013. É tudo próximo demais. Dito isso, reconheço que a série ainda fez um excelente trabalho em condensar tanta informação em dez episódios, cada um entre 40 minutos e uma hora. Além do interessantíssimo desenrolar dos novos personagens e maior atenção aos outro filhos da rainha, muitas histórias importantes sobre a coroa desde a invasão do castelo até a descoberta de parentes renegados, por terem problemas cognitivos marcaram a quarta temporada.

Diana e Thatcher: adições esperadas


Como dito, desde o começo da série, ficamos pensando quem seria a atriz que traria Lady Di, figura polêmica da monarquia, à vida. No ano passado, muitos ficaram chocados ao ver Emma Corrin, jovem de 24 anos, nas gravações. A peruca e as roupas detalhadamente pensadas fizeram da britânica uma princesa Diana perfeita. O figurino, assinado por Amy Roberts (vencedora do Emmy), inclusive, é ponto chave desse núcleo. A profissional fala que, além de reproduzir com maestria os looks mais famosos da estrela, foi incrível poder mostrar a transição na personalidade de Di durante dez anos. No início, roupas claras, florais e infantis. No final, tons sóbrios, decote e visuais maduros. O destaque principal vai para o vestido de noiva, usado pela princesa em 1981, que é considerada uma das réplicas mais fiéis da peça.


Mas as roupas não fizeram sua mágica sozinha. Corrin realmente se tornou Lady Di nas telas do streaming. Em entrevista para Netflix, a atriz disse que, assim como o resto do elenco, passou por um grande estudo sobre as manias, trejeitos e formas de falar da princesa. Algo que me chamou atenção foi que Emma aponta que Diana aparentava uma tristeza até mesmo em sua entonação. "Ela pode estar falando a coisa mais divertida, mas a sua fala vai soar desanimada", disse em entrevista ao The Graham Norton Show. O mesmo se dá com príncipe Charles (Josh O'Connor), que aponta que seu personagem fala com bastante seriedade, quase não abrindo a boca. Além disso, o ator reparou até em pequenas manias dele, como checar as abotoaduras quando sai do carro. São esses detalhes, aparentemente insignificantes, que formam a beleza da série.

Quem também não passa despercebida é a brilhante Gillian Anderson, conhecida por outra produção da Netflix, Sex Education. O nome por trás da personalidade tirana e fria de Thatcher entrega tudo o que você poderia esperar. Olivia Colman, que faz a rainha Elizabeth na 3ª e 4ª temporada, disse que, em algumas cenas, ficava chocada. "Eu estou falando mesmo com a primeira-ministra?", pensava durante as gravações. O mais marcante, além do penteado, é a maneira de falar, bem característica da figura política. O sotaque carregado e jeito pausado ficaram nítidos nessa temporada. Além disso, a personagem por si só é extremamente interessante e bem construída.


Thatcher, que reproduz falas misóginas com bastante frequência, escancara as diferenças de gênero em sua profissão. Das várias pessoas que passaram pelo cargo, só Margaret cozinhava para os membros da reunião. É ela também que reafirma a importância de ser forte mais do que qualquer homem que já passou pela posição. Inclusive, algo que ela odiava era fraqueza e falta de ambição profissional. Sua mãe, dona de casa, era alvo de nojo e desprezo da primeira-ministra, como podemos ver em um diálogo interessantíssimo da moça com sua filha. Por um tempo, me preocupei com uma possível humanização em exagero de Thatcher. Iriam me fazer sentir pena dela? Não foi bem assim. Sim, consigo ver suas fraquezas, contradições e falhas mais de perto, mas não chega a ser uma passada de pano. Esse recurso deixaram para a rainha mas vamos falar disso mais à frente.


O conto da fadas do mundo moderno


O triângulo amoroso de Charles, Diana e Camilla (Emerald Fennell) tomou conta dos tabloides britânicos na década de 1990 e da 4ª temporada de "The Crown". Apesar de rápido (de novo, tudo foi condensado em dez episódios), a transição dessa dança extraconjugal é muito bem feita, sendo um dos maiores destaques de toda a série. Ao passo que o príncipe passa de um jovem inseguro, que deseja agradar sua família, até um herdeiro metido e grosseiro, Lady Di vai da menina que busca a realização de seu conto de fadas para uma mulher frustrada e rancorosa. Camilla Parker Bowles, por sua vez, experimenta a sensação de invisibilidade, sendo uma mulher mais velha em comparação à jovem e angelical Diana. Além disso, a moça sabia que se ficasse oficialmente com Charles, carregaria um divórcio nas costas algo extremamente mal visto pela família real.


Mas talvez o mais importante de todo esse enredo é o debate sobre a saúde mental da princesa. Sua bulimia é retratada de maneira clara durante a série com direito a avisos de gatilho. Essa é uma temática que não é frequentemente mencionada e acredito que os roteiristas tiveram sucesso em mostrar a falta de preocupação da família, ao mesmo tempo em que destacaram a seriedade da questão. Além do transtorno alimentar, a princesa passava por quadros de depressão e ansiedade constantemente desprezados pelas autoridades. Inclusive, o assunto só vinha à tona quando era para desmerecer a princesa dizendo que ela não daria conta de uma grande viagem de trabalho, por exemplo.


Leia também | Caça às bruxas: a perseguição midiática de Diana a Meghan Markle


A representação do casal gerou polêmica. Ao passo que fontes próximas da família afirmam que se encantaram com a veracidade da interpretação de Diana, boatos que o príncipe William detestou a forma como a mídia teria "transformado o relacionamento dos pais em algo escandaloso para ter visualizações". Também é importante lembrar que, de maneira geral, historiadores acusam "The Crown" de fazer uma narrativa pouco fiel dos acontecimentos. Mas, mesmo assim, não foram poucos os que acharam certeira a representação desse casamento. Independente da veracidade dos fatos, algo é fácil perceber: Diana roubou a temporada, tomando os holofotes tal qual na vida real. Tanto que a cena final foi um close up apenas da personagem diferente das últimas três, que continham a rainha no enquadramento. Na próxima, veremos outro elenco e os últimos anos de Diana não serão interpretados por Emma, abrindo espaço para Elizabeth Debicki interpretar a princesa.


A rainha inventou o feminismo?


Capa original do The Sunday Times (1986)

Apesar do sucesso, Diana e Charles não foram a única dupla importante no enredo. As tramas com a rainha e a primeira-ministra também deram o que falar. Historicamente, há muitos boatos de que Thatcher, de fato, não se dera muito bem com Elizabeth — diferente do que muitos podiam apostar, já que a rainha finalmente estaria se relacionando com uma mulher no cargo mais importante do país. A dinâmica mostrada na série deixa isso claro, trazendo à tona, principalmente, os desentendimentos das duas sobre a posição do Reino Unido sobre a política de apartheid na África do Sul confusão que originou uma polêmica matéria no The Sunday Times, que afirmou que Elizabeth estaria farta do egoísmo de Thatcher. Como a série aponta, a família real nunca confirmou tal declaração mas, até hoje, é o máximo que a rainha chegou de se desentender publicamente com um primeiro-ministro.


Mas, sinceramente, não podemos deixar de pensar: será mesmo que o grande estopim para essa briga foi a moralidade e integridade da rainha, que não suportaria ver o povo da África do Sul em um sistema tão desigual e racista? Ou está mais relacionado ao fato de que a primeira-ministra não se importava com a Commonwealth grupo de nações que pertenciam ao Império Britânico e que sempre guiou e foi base do reinado de Elizabeth? Além disso, muitos dos debates de Thatcher com a rainha são marcados com Margaret sendo uma voz fria, misógina e racional, ao passo que a monarca seria mais empática, com uma visão de gênero mais ampla e simplesmente mais gentil, apesar de igualmente pragmática e guiada pelo senso de dever.


Eu sei que acabei de lembrar que muitos historiadores questionam a veracidade da série como um todo e, em geral, isso não muito me incomoda. Porém, nesse núcleo específico, foi um pouco mais difícil de engolir. A rainha, mesmo continuamente fria principalmente em relação a Diana —, se mostrava muito mais razoável do que, de fato, deveria ser. Falando sobre ser uma mulher nessa posição política, apontando que admirava a forma com que Thatcher enfrentou os homens do Parlamento, questionando se a família real, de fato, era tão crítica assim... Até mesmo quando critica Charles pelos problemas mentais de Diana sem antes lembrar que a menina era mimada e ingrata parece um tanto forçado.


E, de toda a série, foi o mais difícil de entender essa guinada para uma monarca um pouco (realmente bem pouco) mais humana. "Ah, Luísa, mas ela está há anos no poder agora pode estar mudando" acho bem difícil, principalmente vindo de uma rainha que demorou dias para dar o braço a torcer e levantar a bandeira da Inglaterra no castelo protocolo com a morte de membros da família quando a mãe de seus netos morreu em um acidente de carro. Mas, enfim, cenas para os próximos capítulos (literalmente)...

____


Quer saber nossas impressões sobre diversas obras das mulheres na cultura? Cinema, música, literatura, teatro e muito mais. Tudo isso, duas vezes por semana, na categoria “Crítica”.