Crítica: Maduro e intimista, "30" é o melhor álbum de Adele

Não é atoa que o mundo inteiro esperava por um novo álbum de Adele. Depois de seis anos de espera, “30”, lançado na madrugada da última sexta-feira, veio arrebatador. O quarto álbum da artista britânica, de 33 anos, é o melhor e mais denso de sua carreira até o momento.


E isso não sou só eu que estou dizendo. No Metacritic, site responsável por unir as avaliações de vários jornalistas, “30” somou uma média de 89 ponto, melhor desempenho da britânica. A revista Rolling Stones, por exemplo, classifica como o “álbum mais difícil e poderoso até então”, não que os antecessores, “19” (2008), "21" (2011) e "25" (2015), também não tenham sido elogiados pela crítica especializada.


Em “30”, Adele traz um frescor diferente. Além das baladas que a consagraram, a cantora de “Hello” mostra sonoridades diferentes do que foi explorado nos discos anteriores, trazendo bastante elementos do soul e do jazz. Se antes, muitos críticos diziam que ela não saia de sua zona de conforto musical, agora, ela mostra que consegue ir além, sem perder o apelo popular.

E Adele cuidou bastante do novo projeto. Neste disco, as letras são ainda mais elaboradas. O disco fala de maturidade, confiança, permitir-se amar, mas também trata de vulnerabilidade, intimidade e deixar ser amada. Aliás, o álbum é sobre isso: amor.


Em síntese, o disco vai do fundo do poço ao renascimento. Letras que refletem o amadurecimento da artista que passou dos trinta, terminou o casamento de oito anos com Simon Konecki e se viu vulnerável, é mãe de um menino de nove anos e leu inúmeros comentários sobre o próprio corpo, antes e depois de perder 45kg em dois anos.


“É assim que acontece na tracklist que eu organizei, é como algo em tempo real, da faixa 1 para a 12, e esse foi o processo de quando eu estava tentando me entender. Você sabe? No começo eu estava realmente no escuro. Eu não me sentia tão bem sozinha e, aos poucos, à força do trabalho, comecei a rir de mim mesma no final”, contou a artista à rádio francesa France Inter, segundo o PopLine.


“Easy On Me”, lead single apresentado ao público em outubro deste ano, mostrou que Adele seria capaz de repetir os números grandiosos de sua carreira. Mas, a faixa está longe de ser uma das melhores do disco, apesar de ser ótima – o disco não possui qualquer música ruim. Sua escolha como lead single pode ser justificada por ser uma das canções mais comerciais do trabalho, que vai na contramão do que a indústria musical produz atualmente: músicas virais para o TikTok e plataformas digitais.

“30” passa um ar de superprodução desde o início com “Strangers By Nature”. A faixa já mostra de cara que há mudança sonora e intimidade de Adele presentes no trabalho. A música traz a voz de Adele em diferentes bases e uma magia de musical em uma sofrência pós-separação. A sofrência continua com “Easy on Me” em seguida.


A melhor sequência do álbum está entre a terceira e sexta faixa. “My Little Voice” é mais intimista e sensível do disco. É aqui que alguma lagrima pode cair do seu olho. Mas, ao invés de tratar de um amor entre um casal, é o amor maternal, com direito a conversas da cantora com o filho.


“Cry Your Heart Out” talvez seja a mais diferente do álbum e do que Adele estava costumada a lançar. Bem soul, com pitada de reggae, traz também um vocal diferenciado, além de inaugurar uma vibe dançante no disco, que segue com “Oh My God” e “Can I Get It”. Ambas trazem uma Adele que quer amar, sendo a primeira bem pop e a segunda com violão bem marcado. Essas duas estão entre as melhores do álbum.


Na sequência Adele volta com músicas mais densas, com “I Drink Wine” e “Woman like Me” . Entre elas está "All Night Park (Interlude)", um dos pontos altos do disco também. Com pegada lo-fi, um dos estilos que mais cresceu durante a pandemia da covid-019, Adele traz algo não explorado em sua carreira anteriormente: a sensualidade – com um apegada que lembra Erykah Badu.


Na última trinca do disco, o safarro continua lá em cima com as baladas “Hold On“ e “To be Loved” – que conta apenas com piano e voz –, além de “Love is a Game”, que encerra o disco com ares de musical, assim como tudo começou.


Adele voltou com tudo!

Ouça o álbum completo:

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