Crítica: "Girls" do aespa solidifica imagem do grupo em novo álbum

O segundo mini-album do aespa, Girls, chegou nesta sexta-feira (8) com a faixa-título e mais dois singles: Illusion e a versão em inglês de Life’s Too Short. Ao analisar essas faixas, elas não apresentam muito em comum — temos um girl crush com muitos sintetizadores, um hyperpop, e um pop leve otimista por tabela —, e sua escolha como singles pode até ser vista como arriscada. Contudo, a aposta da SM com o seu girl group mais novo valeu a pena porque Girls acumulou mais de 1 milhão de cópias na pré-venda, além de bater o recorde de vendas em um dia na Hanteo do BLACKPINK com o The Album (2020), registrando 806891 compras no dia de estreia do EP.


Esse é o primeiro lançamento do aespa desde o remake de Dreams Come True do S.E.S no final do ano passado, já que no primeiro semestre deste ano Winter e Karina estavam em cativeiro com o projeto GOT the Beat da SM (critico muito, mas no off engoli Step Back com farinha, acontece), então fica evidente que o público estava ansioso para ver o que elas trariam dessa vez. Confira a seguir o que achamos de Girls do aespa no nosso faixa a faixa!

Eu primeiro ouvi mais sobre Girls do que ouvi a música em si, e as críticas negativas me fizeram pensar que vinha aí algo muito menos palatável do que Savage foi (adoro hoje em dia, mas essa julguei muito antes de aceitar no meu Spotify). Na realidade, Girls terminou sendo um dos singles mais amigáveis do aespa na minha opinião, trazendo seus sons ousados que causam um desconforto positivo de chamar a atenção, mas ainda bem contido.


As transições bruscas entre versos e as quebras de expectativas comuns do aespa estão aí, mas dá para sentir que a música podia ser mais. Ao mesmo tempo, reconheço que Girls pode ser o meio-termo entre a pouca impressionante Black Mamba e a experimental até demais Savage, trazendo um som aespa que possa ser mais bem-recebido por não-fãs.


O MV é de alta qualidade e com efeitos bem trabalhados, dá para ver que a SM colocou um bom dinheiro nas meninas. Minha reclamação principal fica para a coreografia do refrão, que é muito feia. Sim, é para hitar no TikTok, mas o próprio aespa já trouxe danças mais interessantes para viralizar.

Illusion vem em seguida no álbum, e foi o lead-single lançado no começo do mês simplesmente do nada. É uma faixa bem trabalhada que causa menos alvoroço do que Girls, mas tem sua beleza na minuciosidade dos elementos. É satisfatório ouvir o som de língua aparecer aqui e ali, e os versos em inglês pausados que dão poder ao refrão pouco impactante. A ponte é interessante e adlibs sem ser highnotes enriquecem a música na parte final.

Lingo é uma mistura de pop com country que brinca com a ideia de gírias. Considerando o contexto do aespa, deve se referir às abreviações do internetês. O refrão é fraco, mas a faixa em conjunto é interessante. Porém, devo registrar isso: ela marca a minha realização de que as B-sides deste EP não são tão boas quanto as do primeiro EP do aespa.

A versão em inglês de Life’s Too Short foi cantada pelo aespa no Coachella há poucos meses e, quando ela foi liberada como single, eu entendi porque ela causou pouco barulho na época. É uma música boa e que fica na cabeça, porém traz um refrão meio decepcionante, mas pode te interessar com o tempo. A mensagem por trás da letra é bonita, até — elas ensinam sobre ser você mesmo e não se importar com o ódio gratuito na Internet, o que é um ponto bem legal, já que o girl group aborda tantos aspectos tecnológicos no seu conceito.


O MV é muito bom de se ver e tem umas transições ótimas de cena, só que trazer um clima mais fofo e descontraído para o aespa enfatiza alguns limites delas. Por exemplo, nas fotos para a divulgação do single, a Giselle aparece com um sorriso claramente forçado. É unânime que expressões faciais não é o forte do aespa (só a Karina entrega o mínimo ali), então sair do girl-crush-badass-inteligência-artificial para “pessoas normais” deixou essa deficiência gritante nas meninas.

ICU é uma pop ballad que o aespa canta desde a época de trainee, segundo disseram em entrevistas. Dá para entender por que a música é a favorita delas com sua mensagem sobre descansar e não se deixar ficar estressado com as dificuldades do dia a dia, mas ela cai no mesmo problema que Lingo: é legal de ouvir? Sim. Mas eu vou me lembrar dela mais tarde para escutá-la de novo? Muito dificilmente.


A versão digital do Girls também recicla algumas faixas antigas do aespa para aproveitar a onda de streams e aumentar alguns números — a intenção fica evidente principalmente pelo fato de terem deixado Next Level de lado (afinal, essa já garantiu seu viral).

Eu nunca comentei o debut do aespa aqui, então essa é a oportunidade. À primeira vista, achei Black Mamba muito safe sonoramente falando para a proposta inicial do grupo, mas terminei curtindo a música depois de um tempo. Ela cumpre bem a sua função como começo de história, com a apresentação da ameaça da vilã das aespa.

Forever é um cover de uma balada invernal de Yoo Young Jin que basicamente existe para mostrar que o aespa sabe cantar — bom, considerando que elas são da SM, já era um fato desde o começo que elas tinham bons vocais.

Dreams Come True é um remake futurístico de uma música do S.E.S que é produzido pela BoA. A música brinca com a colisão entre os sons dos anos 1990 e a sonoridade bate-panela atual do k-pop. Há um choque de primeira, mas depois a mistura funciona e dá para curtir a música para valer, até cantando o rap robótico doido que tem lá para o final.


São as garotas, mas podia ser muito mais


Gostei do Girls? Sim, com certeza. Só que é inevitável para mim comparar com o primeiro EP delas. Girls rendeu um resultado positivo para mim, só que não é tão bom e amarrado quanto Savage. Savage traz uma coerência de conceitos e gêneros que dá vontade de escutar as faixas em loop, e ouso dizer que o mini não tem nenhum skip. Já Girls tem B-sides fracas e foi claramente usado para reunir algumas faixas avulsas, o que prejudica a consistência do disco.


Ao mesmo tempo, devo reconhecer que Girls tem um papel importante em solidificar a sonoridade do aespa, provando que Savage não foi só um golpe de sorte. E isso não as impediu de testar novos ritmos, como vimos com Life’s Too Short, e diversificar conceitos. Acredito que Girls é um trabalho-ponte que servirá de prenúncio para um álbum futuro bem mais diverso e igualmente coerente — e eu estou ansiosa pelo que vem por aí.



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