Crítica: Eyes Wide Open é o melhor álbum do TWICE e danem-se as vendas

Eyes Wide Open é o segundo full album do TWICE. Lançado na última semana no aniversário de cinco anos de debut do girl group da JYP, o disco chega para continuar a saga de More & More, iniciada em junho, e também serve para questionar: o TWICE mantém sua identidade mesmo com a mudança de concepts?


Foi embora o ar infantil e fofo das meninas, dando lugar a um ar mais maduro — o que é coerente, considerando que elas agora são mulheres de mais de 20 anos. Eyes Wide Open é a concretização do processo de amadurecimento do TWICE, que vem acontecendo há alguns lançamentos, e a gente te conta nesta resenha o que achamos do álbum.

Olha as patroas | Foto: Divulgação

O trem descarrilhou (e feio)


Eyes Wide Open despontou com o triste anúncio de que Jeongyeon não participaria das promoções por problemas psicológicos. Este seria o segundo comeback completo do grupo desde o retorno de Mina em junho, mas não foi dessa vez. O pior é que o lançamento prometia tudo. Quando saíram os teasers do TWICE de roupa social, eu morri, você morreu, nós morremos.


Fora a triste ausência de Jeongyeon, o único entrave do comeback (antes dele, de fato, acontecer) foi a revelação da capa digital do álbum. Dentre tantas imagens das meninas lindas de terno, a JYP escolheu ilustrar o CD justamente com o photoshoot no meio de um bando de flor, que lembra (bastante) a capa do lançamento anterior do TWICE. Onces reclamaram, reclamaram e reclamaram mais um pouquinho, e enfim a JYP se tocou que não era muito inteligente lançar álbuns com capas muito parecidas.

Só queria a Jeongyeon (no centro) assim com o TWICE | Foto: Divulgação

O fandom também tinha descido o pau antes em More & More — com razão. Quem lança um tropical house em pleno 2020? Esse gênero ficou lá em 2017 no k-pop, amém. Mesmo assim, odeie o quanto quiser o single ou todas as faixas do álbum, mas elas tiveram um desempenho ótimo nos charts — e, o mais importante, dentro dos padrões do TWICE. Já com Eyes Wide Open não foi bem isso o que aconteceu.


As onces deitaram para o álbum (spoiler: quem não deitaria?), mas as vendas físicas nem digitais foram como esperavam — um obs.: Eyes Wide Open está indo ótimo no Spotify, então pelo menos alguma coisa deu certo. O que aconteceu de junho para o fim de outubro? Bom, o BLACKPINK aconteceu. Antes do The Album sair, havia até uma discussão de disputa de números entre o grupo da YG e da JYP, mas o BLACKPINK vendeu muito. Uma comparação entre eles nem é mais viável, é tipo tentar argumentar as vendas do EXO versus BTS (e, como EXO-L, eu tento não cair nessa armadilha para não chorar).


Você me pergunta agora: o que me resta, Bia? Resta apreciar o álbum e ter a convicção de que o TWICE liberou o melhor lançamento da carreira delas, e que vendas não é tudo — e, cá entre nós, números não é prova de qualidade.


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Eyes Wide Open: faixa a faixa

Eyes Wide Open é aberto por I Can’t Stop Me. A música surfa na ressurreição do disco que dominou tanto o pop ocidental quanto o k-pop neste ano. Havia muita expectativa em torno da faixa porque — bom — nós estamos falando da JYP. A empresa bebe da fonte do disco desde antes de virar moda em 2020, então tem muita experiência com o gênero (como consequência, eles sabem muito bem o que fazem), e a discografia do Wonder Girls é basicamente a prova viva disso.


O resultado foi algo retrô bem dentro das tendências, mas ainda tem a aura TWICE, o que mostra como o grupo não perdeu a identidade mesmo correndo atrás do que está em alta. Fizeram bastante piada com o rap da Dahyun e da Chaeyoung (“risk, risk, this is an emergency”) e teve até gente preferindo um silêncio nessa parte da música para substituir os versos por um dance break poderoso, mas eu gostei das rimas. São bestas? Sim, mas é um inglês gostoso para cantar junto.

A distribuição de versos também deixou a desejar, já que a música terminou sendo Jihyo e Nayeon feat. TWICE, mas passo pano porque adoooro as vozes delas — e, convenhamos, as outras meninas conseguiriam alcançar as notas do refrão e performar de forma estável nos shows? Acho que não. Quanto aos visuais de I Can’t Stop Me, a coreografia é uma das mais complexas do girl group e é muito bem executada pelas meninas (eu amo o movimento da perna na parte do “red line”!), porém é uma pena que a qualidade da dança não é acompanhada por um MV bom.


Gente, o que foi aquele clipe? Ok, quem é once sabe bem que os vídeos da JYP são 90% CGI e tela verde, mas cara… Eles enfiaram em menos de quatro minutos de vídeo o TWICE desabrochando feito uma flor, Jeongyeon montada numa moto toda gostosa, as duplicatas se encarando numa mesa de jantar, as meninas correndo com vestido de gala, e o TWICE dentro de um trem prestes a descarrilhar. Oi?! (Isso porque nem mencionei aquele efeito horroroso de flores, meu Deus.) Eu sei que tem toda uma teoria sobre inferno, céu etc conectando I Can’t Stop Me com More & More, mas eu tenho zero paciência para acompanhar essas histórias. Deu, em parte, para entender a presença e estética dos elementos, mas bem que a produção poderia ter organizado de uma maneira mais coerente. Ficou tudo uma grande bagunça no final das contas.

Depois de entrarmos no hype, vem Hell In Heaven, uma música com vibe de pop latino. A música contrasta muito com I Can’t Stop Me pela mudança brusca de ritmo, mas isso acontece de uma maneira inteligente: na primeira vez que ouvi Eyes Wide Open, essa foi a faixa que terminou deixando uma impressão mais impactante em mim justamente pela discrepância na setlist. Esse efeito não teria acontecido se, por exemplo, seguido de I Can’t Stop Me viesse uma das faixas empoderadoras tipo Queen ou Go Hard.


Hell In Heaven tem um pré-refrão crescente, mas o refrão em si é bem mais calmo em comparação, o que é interessante por inverter a lógica de o ápice da música ser algo mais animado. Minha decepção pontual com essa faixa foi o fato do refrão não mudar após a ponte para ficar mais dinâmico, porque aí ele perde um pouco do poder que tinha ao ouvi-lo pela primeira vez.

Up No More é a B-side de pop retrô que está sendo promovida nos programas de música com I Can’t Stop Me. A letra foi escrita por Jihyo e eu honestamente fiquei muito confusa assistindo à apresentação da primeira vez. A coreografia é simples, estilo TikTok, e as garotas cantam, sorridentes, sobre não quererem mais desperdiçar sem tempo. Basta analisar a letra para notar que o tema é, na verdade, bem mais sério que a produção de palco dá a entender: Um dia desses se torna meses e anos/Eu fico indiferente quanto a isso/Estou com medo de me perder nessa noite cheia de pensamentos.


A música traz de volta os raps falados “bem JYP”, e ela é concluída com uma última batida bem impactante. Já na dança… Olha, essa pose final é tão desconfortável. Eu entendo que ela ilustra o verso final de Up No More (“Eu fecho meus olhos de novo hoje”), mas é difícil ser uma ending fairy quando você está com sua cabeça apoiada no quadril da sua colega, né?!

Ver essa dança sem contexto é pior ainda | Foto: Reprodução

Depois de Up No More animar a gente (mesmo com a letra depressiva), Do What We Like toca uma eletrônica bem previsível que é exatamente o que a gente busca no k-pop. A música, escrita pela Sana, não é ruim nem nada, mas ela não é uau, sabe? O refrão é o que esperamos, com a repetição do título da música (“do what we like”), umas onomatopeias tipo “nananana” e uma batida igualmente repetitiva ao fundo. A faixa termina bem uniforme, o que pode não chamar atenção — mas ela deve ser a favorita de algumas fãs aí.


E agora Bring It Back chega no rolê e vocês vão me chamar de hipócrita e eu vou responder que, sim, eu sou mesmo. E por que isso tudo? Veja só, Bring It Back terminou sendo minha faixa favorita do Eyes Wide Open (faixa favorita, não melhor) e ela faz exatamente tudo o que Do What We Like fez e eu critiquei: eletrônica com refrão que repete 20 mil vezes o título da música.


Mas o que eu posso fazer? Eu simplesmente deitei para o “I'll bring it back” da Chaeyoung antes do refrão, e curso Fisk da Dahyun está em dia, porque os versos em inglês estão muito bons, ótimos para cantar com o TWICE. O pré-refrão e versos iniciais calmos aumentam ainda mais o impacto do refrão quando ele bate, e a ponte é bem repentina e se destaca. Ao mesmo tempo, reconheço que, assim como Do What We Like, Bring It Back pode terminar meio apagadinha na primeira ouvida da álbum, justamente por lembrar tanto a faixa anterior.

Believer é o hino motivacional sobre resiliência que fecha o bloco de músicas eletrônicas de Eyes Wide Open. Menção honrosa para Jihyo no refrão: que vozeirão, hein, minha filha? Amei. Daí partimos para Queen, que também é uma faixa sobre você ser fantástica sendo você mesma, e é escrita por Dahyun. É um pop bem pop com synths e metais que faz espertamente a transição do batidão da eletrônica para a seção mais “suave” do álbum.


Go Hard virou a queridinha do álbum de muuuitas onces, pelo que acompanhei nas redes sociais. Também teve gente criticando essa preferência com a alegação de que “aquele batidão bem que é o que o grupo do lado faz” e, olha… Eu consigo imaginar muito bem o BLACKPINK cantando Go Hard, verdade. Só que a música soa tão TWICE de uma forma que só elas conseguem. A letra é bem menos agressiva que seria se fosse feita sob comando da YG, mas a mensagem de empoderamento permanece. Em vez de alguns “sou fodona” em raps, temos versos mais lowkey, como “Eu sou intocável, meu único inimigo é a mulher no espelho” e… Uau.

Se Go Hard abre margem para imaginá-la cantada por outro girl group, Shot Clock é do TWICE e ponto final. Ela parece muito com Touchdown (não falo isso de forma negativa; ela era uma das poucas B-sides do grupo que eu conhecia antes de Eyes Wide Open) e lembra facilmente algo tocado por uma bateria de escola estilo high school, com líderes de torcida e jogadores de futebol americano. A temática de incentivo sobre “dar tudo de si porque você só tem uma chance” é bem motivacional e, com certeza, Shot Clock deve pintar na playlist de academia de muitas onces por aí.


...E aqui vem a minha maior reclamação sobre o Eyes Wide Open (pois é, meus resmungos sobre o MV de I Can’t Stop Me foram nada em comparação com o que vou falar agora). Depois de uma música de academia, o que vem? Handle It, uma slow R&B escrita pela Chaeyoung sobre ser incapaz de aceitar a separação de um relacionamento amoroso. Oi? Depois de umas cinco faixas sobre eu ser uma bela de uma fodona, você vem para cima de mim com sofrência amorosa, TWICE?


A música nem é ruim para eu criticá-la tão seriamente assim, mas a mudança de clima é muito rápida para mim. Você tem Queen, Go Hard e Shot Clock te dizendo que você é uma fodona do caralho e do nada, pow, é como se você se lembrasse daquela vez que te deram um pé na bunda e fica desanimada do nada. A passagem é brusca demais para eu apreciar, e não serviu para valorizar a faixa, diferente do que aconteceu no começo do álbum com a transição de I Can’t Stop Me para Hell In Heaven.

Como que para mostrar ainda mais como Handle It está deslocada no Eyes Wide Open, a faixa seguinte é uma eletrônica esperançosa. Depend On You, escrita por Nayeon, não é um batidão, mas é com certeza mais animada do que a faixa anterior por comparação. Vemos aqui, com Handle It e Depend On You, que o TWICE está desacelerando a gente para chegarmos à conclusão do álbum.


Essa lentidão segue para a música seguinte, Say Something. Ela é um city pop exímio porque, olha, beira a perfeição o saxofone dessa canção. Ela mantém a vibe cool para nos levar à última faixa do Eyes Wide Open, mas também é nesse momento que dá para notar que Handle It deveria ser a penúltima música do álbum.

Dentre as faixas mais calmas do álbum, Behind The Mask foi a que mais me comoveu com os questionamentos de “será que você está chorando ou sorrindo por trás da máscara?”. A música tem produção de Dua Lipa e um bando de gente aí, mas ela é a mais relevante desse grupo, e a letra ficou por conta da linda da Heize. A mensagem sobre oferecer ajuda a alguém em sofrimento pode soar clichê, mas as onces podem guardar a música no coração com carinho porque ela ganha um significado especial considerando a história de Mina e seu afastamento do grupo: “Chuva e dor estão caindo, mas não chore porque tudo secará”.


De olhos e ouvidos bem abertos


Eyes Wide Open é o primeiro álbum do TWICE que ouço inteiro. Nunca sequer tentei ouvir os discos anteriores até porque tachava o girl group como embaixador de concept cute e parava por aí mesmo. Fancy, Feel Special e outros lançamentos das meninas me fizeram abrir os olhos (ba dum tss), e fiquei muito satisfeita por este ser o primeiro CD delas que escutei.

TWICE entregou tudo nesse comeback | Foto: Reprodução

Minha primeira impressão com Eyes Wide Open foi “nossa, que qualidade”, e mesmo as faixas que não me atraíram de primeira terminaram ecoando na minha cabeça, como Behind The Mask. Ela, em especial, fecha o álbum com um ar de esperança e apoio, e mostra como o objetivo do TWICE com o álbum foi dar suporte às fãs com mensagens empoderadoras e de apoio. Isso pode parecer inocente e ingênuo, mas, vendo o afastamento de Jeongyeon, essa temática ganha ainda mais importância.


Eyes Wide Open pode não se tornar um álbum de destaque da carreira do TWICE no quesito vendas, mas deve ser valorizado pela transição do grupo por concepts. Eu, que só conhecia as faixas-título (que são, em sua maioria, fofinhas), não senti que esse disco foi “menos TWICE” ou coisa do tipo porque ainda dava para sentir a identidade do girl group — e tem muito grupo por aí que sonha ter a marca do TWICE.


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