Crítica: "Diana - O Musical" não inova nem adiciona nada à história da princesa

Diana: O Musical traz um título auto-explicativo. É um musical sobre a vida de Diana, desde o seu primeiro encontro com o Príncipe Charles até a sua morte. O musical, que entrou em cartaz na Broadway pouco tempo antes da pandemia de Covid-19 fechar os teatros, foi gravado com plateia vazia e chegou à Netflix na última semana para aproveitarmos a peça do conforto da nossa casa. Confira a seguir a nossa resenha e saiba se vale a pena assistir ao musical.

Acredito que a melhor forma de começar essa crítica é avisando que Diana: O Musical é um musical para — bom — fãs de musical. A entrada de Hamilton para o mainstream e sua viralização nas redes sociais fez muita gente se interessar pelos espetáculos, mas é uma boa lembrar que, no final do dia, musicais tradicionais da Broadway têm a tendência de cair em alguns típicos clichês do gênero — e é exatamente isso o que acontece com Diana: O Musical. Não tem nada de hip-hop ou revolucionário aqui — o musical é exatamente o que você espera dele.


Quando a música de abertura começou, e ela era um instrumental mínimo apenas para mostrar a potência vocal da Jeanna de Waal, intérprete de Diana, e cantar sobre como a princesa era subestimada, eu sabia exatamente o que viria a seguir. Seria uma história com tom de contos de fadas e traições e muito, muito sentimentalismo. E Diana: O Musical, entregou isso de forma insossa, transformando uma trama com tanto potencial em algo básico.


Em alguns momentos, o roteiro ousa com umas piadinhas e críticas (ao machismo enfrentado por Diana, por exemplo), mas elas estão diluídas demais numa narrativa água com açúcar que faz qualquer não-entusiasta por musicais perder a paciência (e o interesse) depois da terceira música sobre “oh, como Diana é moderna e diferente das demais, olhe como o público adora ela, veja como ela é usada pelos outros, ó pobre garota inocente”.


O roteiro não parece decidir qual rumo Diana deve tomar. Ela ora aparece combativa, ora aparece vulnerável. Sim, pessoas são tridimensionais e não precisam ser consistentes o tempo todo, mas tinha muito para aproveitar e criar algo efetivamente interessante.

Foto: Divulgação

Deixa eu pincelar por alto aqui a trajetória da figura de Diana para você entender. Eu já abordei nisso em outro texto, então dessa vez serei bem breve. Diana entrou para a coroa porque ela encaixava nos gostos do público e, por sua vez, não era igualmente aceita pela própria família real. Rejeitada dentro da casa onde deveria ser acolhida, ela encontrou consolo com o povo e a mídia. Quando a situação ficou insuportável para Diana, ela manipulou os jornais para "torturar" a família real e conseguir o tão desejado divórcio.


O que vemos aqui? Diana, como qualquer pessoa, tinha seus pontos fracos (e, considerando que ela foi abandonada pela mãe ainda jovem, atacada pela mídia, rejeitada pela sogra e chifrada pelo marido, ela sofreu bastante), mas ela era muito esperta. Você pode discutir o quanto quiser sobre a manipulação que ela fez sobre a mídia (e que terminou tirando sua privacidade e levando à sua morte), mas Diana era inteligente e boa no que fazia. Dava para mostrá-la por uma nova perspectiva no musical, mas em vez disso recebemos uma Diana moderna que parece "magicamente" entender o povo e cativá-lo, quando na verdade a principal razão para Diana entrar na família real foi o seu potencial de atração com os plebeus.


Nós conhecemos a história de Diana, sabemos bastante da sua personalidade pela mídia, mas musicais não têm muito comprometimento com a realidade quando se trata de representações de figuras públicas (quero dizer, eu aposto que Hamilton não sabia cantar rap, né…), então os escritores podiam ter feito literalmente qualquer escolha porque tinha muita liberdade criativa aqui. E, no final das contas, eles não aproveitaram nada e seguiram pelo seguro e esperado de musicais. Por exemplo, seus atos de rebeldia em Diana foram diminuídos como rebeliões de uma criança mimada que só quer chamar a atenção dos pais (nesse caso, do Príncipe Charles e da Rainha Elizabeth II).

Não culpo o elenco pelas caracterizações limitadas. Dá para ver claramente que é uma questão de roteiro, algo além dos atores no palco. Jeanna de Waal simplesmente brilha quando dão espaço para ela ser mais ousada, e fazer trocadilhos com nomes de bandas pop britânicas ou evitar xingamentos na hora de decidir usar o famoso “vestido da vingança” de Diana. Roe Hartrampf, que interpreta o Príncipe Charles, traz uma humanidade impressionante nas cenas de romance com a amante Camilla. Mas o erro, afinal, está no roteiro, e não tem como fugir dele.


Vou mandar a real aqui: eu não reassistiria o musical. Achei interessante conferir como decidiram representar a Lady Di aqui (e estou torcendo para não seguirem a mesma linha sofrida no filme com a Kristen Stewart), e foi só isso. As performances são interessantes para assistir, mas as músicas em si são fracas para entrarem na minha playlist da Broadway no Spotify. Vou poupar aqui o seu trabalho e dizer que vale escutar as faixas: This Is How You People Dance; Snap, Click; Here Comes James Hewitt e The Dress.


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